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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Anita e a mulher dos sapatos vermelhos (Nilto Maciel)




Conversava com minha pupila Anita Sabóia, na sala de minha casa, quando o carteiro gritou meu nome. Sempre faz isso, apesar de haver uma campainha acoplada ao muro. Apressei o passo (ele não anda, vive a correr, sacola repleta de cartas, embrulhos, cobranças), para não deixá-lo esgoelar-se. A caminho de Anita, rasgava o invólucro. Ao chegar ao pé dela, o livro de Carlos Herculano Lopes se mostrou em toda a sua beleza: A mulher dos sapatos vermelhos. Na capa, além das pernas, dos sapatos, do chão e do título, o selo “Geração Editorial”. Abanei as orelhas e fui direto à folha dos dados de catalogação: Crônicas brasileiras, 2010.

Você gosta de crônicas? Não muito. Prefere que gênero? Conto. São muito semelhantes. E me pus a dizer tolices: Hoje o conto curto e a crônica são como irmãos gêmeos. Ela sorriu e tomou a palavra: Já namorei um gêmeo, que mandava o outro me testar. Conseguia enganá-la? Muitas vezes. Retomei a posição de falante: Existe até um híbrido de conto curto e crônica, ora chamado de conto, ora de crônica. Vejamos como é este nosso Herculano lá das Minas Gerais. E li, em voz alta, a primeira peça: “Um drinque na noite”. Gostou? Parece-me um conto engraçado. Percebeu a ausência de nome do protagonista, o homem que saiu de casa só e foi a um bar? No entanto, a coprotagonista tem nome: Cris. Em poucas palavras, o narrador descreve o personagem: solidão, vida de negócios, falta de tempo para se divertir, separado havia quase três anos, busca de novo amor. E é só isso a história.

Embora tivesse interesse em ler logo o livro todo, a minha condição de escritor e macho me fez deixar Herculano de lado e me voltar para aquela criaturinha encantatória, olhos claros, cabelos bem cuidados, lábios carnudos, gengivas vermelhas (adoro gengivas vermelhas, que me lembram carne crua ainda ensanguentada), pernas grossas, mãos aveludadas. Uma tentação dos diabos! E me deixei a falar desordenadamente: Há algum tempo, no Brasil, tem vingado um tipo de monocultura: a história engraçadinha. Não sei se vem dos tempos de nossos grandes cronistas. E citei alguns nomes, para demonstrar erudição: Henrique Pongetti, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Rubem Braga, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz. Ela se mostrou interessada no assunto. Quem são eles? Foram jornalistas que escreviam todo dia ou semanalmente para jornais e revistas. Depois vieram Luiz Fernando Veríssimo, Ana Miranda e muitos outros.

Como se não estivesse atraída pela História da Crônica, a pequena e esperta Anita pediu para ler mais uma crônica de Herculano. E leu “Até quando?” Confesso meu segundo pecado da tarde: mais ouvi a voz dela que o verbo do cronista. Parecia-me ouvir o piar de passarinha em voo altissonante, para além dos horizontes de minha insensatez. Ou em busca de ninho onde pudesse pousar suas plumas e cantar o prazer. Nesta o protagonista tem nome, embora se inicie assim: “O homem nunca fora de acreditar em amor à primeira vista”. Mais adiante se revela: primeiro Rogério, depois Antônio Rogério. Gostou do tema? Sim, o mesmo tema da solidão do homem urbano e a busca de uma companheira. Como os passarinhos? Ela me contemplou com olhos de incredulidade. Aproveitei o instante da plenitude de sedução e disparei mais umas frases a respeito do gênero crônica.

Como na cultura do arroz, do feijão, do milho e outras, há diversos tipos de conto e crônica. Há, por exemplo, a chamada crônica de umbigo. Muito comum em nossos escritores. Carlos Herculano não está neste rol. Como não estão Rachel e Ana Miranda. A pequena me observou com curiosidade: O que vem a ser isso? A doença se chama umbiguismo, praga que assola a lavoura nacional há muito tempo. Entretanto, o cultivo do umbigo tem rendido bons frutos, safras excelentes, tanto para consumo interno como para exportação. O pior desse fruto é o sabor ora amargo, ora azedo, muito usado para temperar o nosso baião-de-dois nordestino, a feijoada carioca, o arroz do centro-oeste acompanhado de feijão tropeiro, o churrasco do Sul, alguns pratos dos paulistas.

Anita pareceu se aborrecer com minhas disquisições e se dispôs a ler outra crônica. Pode ser “A mulher e o passarinho”. Não, deixemos esta para o anoitecer. Ela riu (não sei se entendeu minha insinuação) e partiu para outra página. E leu “Como o diabo gosta”. Concluída a leitura, voltou ao início da composição: “desiludida com a vida”. Nesta a protagonista é mulher. E se chama Débora, vive só e tem 40 anos. Parece conto? Sim, parece conto.

Retomei minha condição de mestre e dei mais uma aula: Essas crônicas a que me referi podem ser gostosas, bem elaboradas e conter literariedade, como as de Rachel. Há, porém, umas bem amargas ao paladar humano, ou bem azedas, a lembrar limão. Falta-lhes o trato da mão do agricultor, isto é, do cronista. Ou o uso excessivo de agrotóxico. Em alguns casos, a culpa pode vir da chuva, que alguns atribuem a São Pedro.

Anita Sabóia se mostrou insatisfeita com minha prédica de pedante e quis ler a peça que dá título à coleção. Antes, perguntou se eu conhecia Herculano. Sim, desde 1987, quando publicou o romance A dança dos cabelos. Deve ser bom escritor. Quer levar o livro para ler em casa? (Vocês devem imaginar as minhas intenções ou o meu plano diabólico para fazer com que ela voltasse.) Quantos livros ele publicou? Uns cem ou mais. (Eu queria falar de idade avançada, para que ela não se interessasse por Herculano.) Então ele deve ser bem velho, não é? Sim, muito velho. Ela riu: Nasceu em 1956. Não é tão velho assim. Muito mais novo do que o senhor. Tive ímpetos de lhe tomar o livro das mãos.

Fortaleza, 15 de fevereiro de 2011.
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