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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Rosângela Vieira Rocha e a arte de fisgar leitores

Nilto Maciel
(Rosângela Vieira Rocha)


Em 2006 recebi de Rosângela Vieira Rocha exemplar de seu Rio das Pedras (Brasília: Secretaria de Estado de Cultura, 2002). Na folha de rosto está escrito: “Para Nilto Maciel ofereço esta novela, escrita há mais de vinte anos, embora tenha sido publicada somente em 2002... Esses fatos fazem parte da nossa história, que é a história da maioria dos escritores brasileiros. Com a amizade da Rosângela Vieira Rocha. BSB, 21/10/06”. Agora, passados quatro anos, ela me enviou mais dois volumes: Pupilas ovais (Brasília: LGE Editora, 2005) e Fome de rosas (Brasília: Nossa Cidade Editora, 2009).

Quem é Rosângela Vieira Rocha? Tracemos resumida biografia: Nasceu em Inhapim, Minas Gerais, e se radicou em Brasília em 1968. Tem duas profissões: jornalista e professora. Sua função principal, no entanto, é de escritora. O livro inaugural de sua escritura é o romance Véspera de lua, vencedor do Prêmio Nacional de Literatura da Editora UFMG, em 1988. Dedica-se também à literatura para crianças: A festa de Tati.

Como se vê, Rosângela não é apressada, não corre, não anda atrás do brilho falso. Vai compondo devagar, alinhavando contos e romances, cosendo as palavras e as locuções. E esta lição se vê expressa na própria narração ou no discurso do narrador: “A primeira frase é a mais difícil, escuto sempre. Não é bem assim. A segunda é difícil, a terceira também, inclusive a centésima. O ato de escrever é doloroso e difícil, criança tirada a fórceps, como nos velhos tempos”. Este é o início de Rio de Pedras. No capítulo IX, mais ou menos no meio do livro e da composição, a narradora observa: “Tenho pensado cada vez mais assiduamente nas relações entre as emoções e o tempo”. E esta é a medula de sua literatura: o ser humano na sua essência. Não a casca, a aparência, o ato em si. Para muitos, a ação, na prosa de ficção, é tudo. Para eles, basta contar, narrar. O leitor que sofra ou goze. Literatura de puro entretenimento. Como na maioria dos filmes: muitos tiros, muito sangue derramado, mortes e mais mortes, e fim. O leitor se sente vingado. Satisfeito. Nem precisa matar o vizinho, violar Chapeuzinho Vermelho ou jogar bomba no palácio.

Pupilas ovais é constituído de treze peças curtas. É a estreia de Rosângela neste gênero. Não no modo peculiar de narrar: persiste na narração do pós-fato e não do fato em si. Rachel Jardim, no prefácio desta coleção, fez esta observação: “O importante não é o fato em si, mas a forma com que isso é retratado. Todo escritor verdadeiro tem que ter um mundo. Rosângela tem”. Suas personagens são mulheres que todos conhecemos. Seria o tal do “universo feminino”? Ora, o feminino está sempre ao lado do masculino. Se se fala de conflito na alma feminina, todo ele existe em razão do masculino. Entretanto, os narradores ou as narradoras de Rosângela têm o olhar voltado para as mulheres, seja na academia de ginástica, no interior das casas, nas calçadas, nas ruas.

Rosângela escreve corretamente. Nada de encantamento com a sentença pomposa nem de dedicação doentia à alquimia do embrulhar as vísceras das frases. Elabora a escrita como quem conta uma história, com simplicidade, para se fazer entender por crianças, jovens, cidadãos letrados, analfabetos, hermeneutas e até caçadores de imbróglios linguísticos. Assim: “Seu marido morrera há dois anos, mas ainda sentia muito a sua falta”. Pretérito mais-que-perfeito, verbo haver na forma usual, expressões de entendimento geral (sentir muito a falta), etc. Nenhum malabarismo.

A terceira publicação aqui apresentada pode ser qualificada como novela, embora os termos “novela” e “romance” se mostrem confusos a leitores, escritores, críticos e editores, há muito tempo. No prólogo de Fome de rosas, Henrique Chagas resume a obra assim: “Trata-se de uma novela de leitura fácil e envolvente que narra o desenrolar da vida de uma família de classe média alta, que vê tudo se desmoronar com o falecimento do esteio da casa, o pai Lisandro, de 50 anos, um famoso advogado da cidade”. A novela se inicia no presente, como nas telenovelas: “O cortejo deixa a capela”. Na elocução seguinte, dá-se um retrospecto: “Não houve tempo para os convites, tudo aconteceu rapidamente”. Na maior parte do tempo, o narrador onisciente parece não se dirigir a ninguém (o leitor – como se ele não existisse ou não fosse existir ou ler o livro): “Exausta, Letícia desliga o computador. Teve de refazer três vezes a mesma petição e não gostou do resultado final”. Sempre o tempo presente seguido de um retrocesso. Essa técnica, no entanto, vai aprisionando o leitor à trama, como em sessão de hipnose. E isso, essa sedução, é nuclear na ficção de Rosângela.

Dou, então, um conselho aos leitores: se não quiserem ser fisgados pelos arpões expostos nas narrativas de Rosângela Vieira Rocha, não deem o primeiro passo, não se aproximem de seus palimpsestos, não abram suas páginas. E durmam em paz.

Fortaleza, 23 de fevereiro de 2011.

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