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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Saber ler (Emanuel Medeiros Vieira)




A maior parte das imagens que circulam hoje são frutos de um impulso econômico, para criar produtos e mercados de consumo, não para celebrar o espírito humano ou para aprendermos mais ou sermos melhores. É pura e simplesmente para fazer mais dinheiro. Então, neste sistema, se você lê profundamente uma imagem publicitária, você a destrói, como diz Alberto Manguel.

A publicidade – é claro que não digno nada de novo – é feita para “convencer”, manipular as emoções mais primárias e, muitas vezes, para enganar. E para tapear um povo prostrado e sem cultura não é difícil. Vejam as tantas igrejas (o super-mercado universal da fé), os tantos políticos, os tantos bingos camuflados, os tantos sindicalistas, os tantos banqueiros, os tantos usineiros, os tantos grileiros, os tantos marqueteiros: todos impunes. Enfim, é o reino da trambicagem.

Então – seguindo as pegadas do autor citado – é fundamental que possamos novamente recuperar a dignidade humana de ler imagens para buscar as verdadeiras, para voltarmos a ser criaturas da memória. Precisamos “saber ler”. Sabendo ler, aprendemos com as gerações passadas e com a nossa própria. O que quero dizer? Uma mulher não é solitária porque não usa o sabonete tal, o perfume daquela marca. Não vai ser “amada”’ se usar aquele jeans. O sorriso da “felicidade plena” (que você obterá se conseguir tal produto) é pura enganação. Todos os carros são maravilhosos, cada banco é melhor do que o outro. Quando vemos as propagandas de mil cervejas, com mulheres gostosonas, malhadas e sorridentes, a mensagem é essa: se bebermos tais produtos, viveremos naquele clima de festa eterna. E tudo isso vai entrando no inconsciente. É subliminar, é lavagem cerebral. Na segunda-feira temos o resultado no noticiário: carros que viraram ferro retorcido dirigidos por motoristas bêbados. Não, não é moralismo: é defesa da vida. E atores famosos, que já tem muito dinheiro, fazem as tais propagandas de bebida alcoólica. Exagero? Não creio. Acho, no mínimo, anti-ético. É pura cobiça. Quem faz propaganda de remédio, deveria ingerir antes o produto e só depois fazer a publicidade.

A Xuxa, Luciano Hulk e tantos outros que ganham muito dinheiro fazendo publicidade, usam aqueles serviços dos quais dizem mil maravilhas?

A partir deste aprendizado, poderemos enfrentar as imagens da Coca-Cola e de todas as marcas. Lendo “Madame Bovary”, de Flaubert, você percebe que a infelicidade da mulher não deriva do fato dela não usar o perfume tal. As razões são outras, muito mais profundas. O problema é que estamos vivendo um momento de enorme velocidade e de pouca concentração.


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