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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Carmélia Aragão e a transparência dos seres (Nilto Maciel)


(Pedro Salgueiro, Carmélia, Nilto, Aíla Sampaio e Raymundo Netto, numa festa literária, em Fortaleza)

Achava-me numa praia, sentado na areia. Ninguém à vista, nenhum banhista, nenhum pescador. À esquerda, centenas de pequeninas tartarugas corriam para as águas. Como se aquilo eu visse todo dia, voltava a olhar para o mar. Que fossem cumprir seu destino. Pássaros sobrevoavam as ondas. Aqui e ali, salpicavam luzes na crista agitada do monstro. Ondinas em constante saltitar. Uma delas, porém, me pareceu mais nítida, insistente, como se viva estivesse. E crescia aos meus olhos ou de mim se aproximava. Que seria? Como me fazia falta um binóculo! Não, não precisava disso. O corpo, cada vez mais próximo de onde eu me encontrava, lembrou-me uma sereia. Primeiro vi os cabelos molhados, longos, escuros. Rosto de mulher. Mostraram-se o pescoço, o colo, a veste branca. Não nadava, flutuava. Assustei-me, cocei a cabeça, esfreguei os olhos. Meu Deus, vinha ao meu encontro aquela mulher saída do mar! A sorrir, faceira, pernas à mostra.

Assim se deu minha única aproximação irreal com Carmélia Aragão. Na verdade, nunca a vi em sonho. Conheci-a não sei quando nem onde. Talvez numa livraria, num bar, em minha casa, numa plateia. No bar do Assis, estive com ela uma ou duas vezes. Sempre cercada de escritores jovens. Pedro Salgueiro a dizer-lhe gracinhas, Raymundo Netto a paparicá-la, o Poeta de Meia-Tigela a rir (dela?). Ofereciam-lhe cerveja, petiscos, mimos. Ela arregalava os olhos (vivia de olhos arregalados, como se assustada com tudo e com todos), sorria (parecia sempre feliz), recusava isto e aquilo, alegava pressa em sair dali. Talvez não se sentisse à vontade num boteco daqueles, repleto de homens fedorentos, tagarelas, piadistas, excessivamente obscenos.

Certa noite, no Dragão do Mar, assistimos a um filme ou a uma palestra ou participamos de um debate. À saída, anunciei fome e vontade de beber. Eu a convido para a ceia do senhor. Ela sorriu, cochichou com duas amigas e aceitou o convite. Sentamo-nos ao redor da mesa, ao ar livre. A gente só quer beber uma coca-cola. Por que não bebemos cerveja? Ela me parecia assustada, com medo de se aproximar de mim. Teria me imaginado um velho assanhado, desses que parecem galinhos fogosos quando veem franguinhas? Pouco falamos, por mais que eu tivesse insistido. A gente precisa ir. Amanhã deverei acordar cedo. E eu fiquei a ver saias de longe, cara enfiada no copo amargo de minha solidão.

Carmélia mandava-me contos, de vez em quando, por e-mail. Queria minha leitura e minha opinião. As narradoras me pareciam ser ela. E eu a imaginava solitária, morando numa quitinete pobre, a olhar para as vizinhas, os gatos das vizinhas, o chão dos corredores, a sonhar com narrativas extraídas daquela vidinha de moça que passava o dia a ler, estudava na faculdade, cuidava da moradia, lavava as próprias roupinhas e sonhava com a glória literária.

Visitou-me uma vez, quando eu morava na Parquelândia. Visita anunciada por Pedro, que me fez contratar uma jovem cortesã. Diga que é sua amante. Obedeci. No dia certo, Carmélia chegou com um magote de rapazes e moças, todos bons leitores e escritores em formação. Mandei a dama servir cerveja e refrigerantes. Os homens se entusiasmaram. Quiseram dançar com ela. Carmélia ria, bebia e mal conseguia deixar o sofá. Netto a arrastou para o centro da sala. Vamos dançar forró. E dançaram mesmo. Pedro se interessava por Priscila, franzina e risonha, e lhe passava a mão nas ancas, a rir, safadamente. Ela se mostrava incomodada: Deixa disso, Pedro. Eu molhava o bigode, enciumado. Urik Paiva só faltava morrer de rir. Tércia Montenegro gargalhava dos requebros de Netto e Carmélia.

O primeiro livro de minha pupila, Eu Vou Esquecer Você em Paris, saiu em 2006. Parece ter sido ontem. Como o tempo passa muito lentamente para mim. Rabisquei umas notas, em março do ano seguinte: “Carmélia Aragão: Literatura como paixão”. Não sei se delas gostou. Talvez não tenha gostado, pois nunca mais apareceu em minha casa. Estou brincando: gostou, sim. Pois, se não tivesse gostado, não teria escrito “Nilto Maciel: Próximo da carne”, belíssimo estudo de meu romance Carnavalha.

Depois eu soube de sua transferência para a antiga capital da República, onde iria se doutorar em Letras. E não a vejo desde então. Em razão destas ausências, em meu espírito se veio formando uma imagem fugidia dela, perdida no entrechoque das ondas, neste meu mar sempre revolto, quase tempestuoso.

Fecho os olhos para relembrar o sonho. A imagem da moça de branco se aproximava de mim e eu via que era Carmélia, vinda do mar, saída das ondas. Caminhava pela areia, avizinhava-se de mim, a sorrir. Eu me alegrava, punha-me de pé, pronto a recebê-la. Porém, meus amigos, ela passava por mim como quem se perde na multidão das ruas. Como se eu, sim, fosse transparente, invisível, diáfano. E sumia atrás de mim, no rumo do interior, do sertão, do continente. E eu me ficava líquido, liquidado, pó, poeira, areia, sujeito ao vento, à ventania que tudo carrega, destroça, dilui, dissolve. Castelo de areia.

Fortaleza, 4 de maio de 2011
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