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sábado, 11 de junho de 2011

Jesus, cidadão romano? (Clemente Rosas)





Já refletiram os leitores sobre o curioso fato de que não há qualquer registro da vida do famoso rabi da Galileia, também chamado Cristo, entre seus doze e trinta anos? Esse claro na história do grande místico oferece espaço para escritores não religiosos, seguindo uma tendência da literatura moderna, tecerem nele a sua ficção, como Dan Brown, em “O Código da Vinci”, e outros menos cotados.

Por esse caminho enveredou também W. J. Solha, com o seu “Relato de Prócula”, um bom romance que, surpreendentemente, não vem recebendo a atenção merecida, nem mesmo o protesto de algum cristão menos tolerante com ateus e agnósticos. Talvez porque o seu autor – poeta, pintor, ator e dramaturgo, com vários prêmios literários no currículo – embora paulista de Sorocaba, tenha escolhido viver, desde seus verdes anos, na Paraíba, fora do circuito sulista de fama e badalações.

Em qualquer circunstância, no entanto, é de se esperar que o trabalho não seja olhado com a luneta do sacrilégio. Afinal, desde a “Vida de Jesus”, de Renan, publicado em 1863, aceita-se uma abordagem não hagiológica para o fundador da grande crença monoteísta da humanidade. Não devem, portanto, as autoridades cristãs seguir a linha dos fundamentalistas islâmicos, decretando “fatwas” para os irreverentes, mesmo que um dos seus autoproclamados fiéis – George W. Bush – tenha demonstrado acreditar em um Deus dos ocidentais, mais poderoso do que o dos muçulmanos, e pronto a derrotar infiéis de todos os matizes. Bem mais do que Solha ousou Dan Brown, ao imaginar uma esposa para o Cristo, uma figura feminina no quadro “Última Ceia”, uma luta interna dos discípulos do Mestre pela sua “herança”, e outras “heresias”. E tanto Kazantzakis quanto Saramago escreveram, como leigos, belas obras sobre a figura humana de Jesus de Nazaré.

Mas vamos ao livro. O relato de Cláudia Prócula, esposa de Pôncio Pilatos, intuído e formulado pelo principal personagem – um padre excêntrico que, no primeiro momento, tenta o suicídio, e finda optando pela apostasia – é surpreendente: Yeshua (nome hebraico) seria um judeu cooptado pelo Império, convertido em cidadão romano, como Filon de Alexandria e Flávio Josefo, e preparado para conter a rebeldia judaica com a sua doutrina de amar os inimigos, oferecer a outra face, dar a César o que é de César e esperar a redenção em um reino de outro mundo. Isso explicaria o esforço do pretor em salvar seu agente secreto da execução, e depois o plano de retirá-lo da cruz, ainda vivo, e a seguir do sepulcro, secretamente, despachando-o de volta para Alexandria, onde teria vivido dos doze aos trinta anos, e sido educado. A notícia da ressurreição completaria a tarefa pacificadora.

O romance, porém, não fica só nisso. Ambientado em Pombal, no interior da Paraíba, e com muitos componentes autobiográficos, ele narra fatos reais quase inacreditáveis, como a formação, nos anos sessenta do século passado, naquela cidadezinha sertaneja, de um núcleo de intelectuais capaz de produzir romances, fazer teatro e até cinema. “O Salário da Morte”, primeiro longa metragem paraibano, foi produzido lá, e dirigido por Linduarte Noronha, autor de “Aruanda”, o documentário pioneiro da cinematografia da minha terra. Entre os intérpretes, a atriz “global” Eliane Giardini, então adolescente. À frente do grupo, dois jovens funcionários do Banco do Brasil: o autor do livro e o romancista José Bezerra Filho, meu antigo companheiro de serviço militar, interlocutor de temas variados, como as características das nossas serpentes venenosas e as virtudes do socialismo.

Irreverente e impactante em muitos aspectos, mas revelando cultura e erudição, além do domínio da técnica narrativa, o livro merece ser lido e criticado. Quanto à versão profana da vida de Jesus, embora coerente, é matéria de ficção, que jamais será provada. Como, de resto, boa parte dos Evangelhos: o censo que teria provocado a viagem de José e Maria para Belém da Judeia, onde nasceria seu filho, por exemplo, não consta dos registros históricos do Império Romano.

Fonte: Jornal do Comércio - Recife - PE

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