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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Capitu e Escobar (W. J. Solha)



Ele chegou à casa de Bentinho ao anoitecer, mas foi Capitu quem o recebeu e o livrou da bengala, valise, chapéu-coco (as luvas dentro), dizendo que os criados já se haviam recolhido e que o marido fora sozinho ao teatro, como previsto (ante o argumento, dela, de que não se sentia bem). Ficaram os “cunhadinhos” – como gostavam de se alcunhar – livres para o balanço do pecúlio que, em segredo, a senhora Capitolina Pádua Santiago amealhava e o amigo convertia em libras.

– Ah, do que somos capazes por ele! – Escobar disse, no que ela avaliou que alguém que lhe prestava tal serviço e ainda lhe chegava com gravata inglesa, perfume francês, lenço português, botins italianos e charutos de Havana… bem que merecia um cognac Martell, pelo que foi servi-lo, pois estava um pouco frio. A Escobar, por outro lado, não escapara o vestido em mousseline de seda pura e os suntuosos braços nus (que o marido proibia e o clima ...quase que... coibia). Acudiu-lhe a idéia de que a noite sempre põe a mulher numa aura especial, que duas ou três doses de champagne – “... um brandy também serve...” - completam à perfeição.

– A banca de advogado de teu marido rende-lhe uma fábula – disse com algum chiste – mas é sempre animador, para alguém tão bem-sucedido, que a esposa não lhe jogue o esforço pela janela com galhardas festas, com incessantes despesas nas joalherias Gondolo e Laboriau, ou na oficina de costura de Madame Saisset e no cabeleireiro Desmarais - tudo de que a minha querida Sancha não abre mão! – riu – limitando também os failles, chamalottes, tafetás, merinós, leques de gaze, além da variedade dos chapéus chics, produzindo – completou ao vê-la chegar com a salva que lhe expunha o drink e dois pratos – ... seus próprios fios d´ovos e marrons glacês, para economizar na confeitaria Castelães ou com o mestre cozinheiro do Hotel Pharoux. Soube que cortaste até as encomendas de compotas e marmeladas às madres da Ajuda!

Depois de pinçar o Martell no que Capitu passava rumo à mesa, atentou para a delícia do farfalhar e dos frufrus da saia larga e do fragrante deslocamento de ar que o movimento dela provocava. Tomou o cognac em dois goles, examinando a nuca sob o penteado alto e os ombros da amiga, lembrando-se – de frente – das formas exuberantes do famoso nu de Pedro Américo – “A Carioca”. Rememorou, extasiado, as… redundâncias… que certamente existiriam também ali, tudo exato, evidentemente, ao contrário do estado atual do corpo da pobre Sanchinha, já mãe. Em Capitu, além da ausência de sobras e estrias, os seios ainda não tinham sido convertidos em mamas. “Ela deve ser... sensationnel!”, concluiu. Quando ela se voltou, Escobar baixou os olhos claros para o resto do cognac, voltando a erguê-los no que a ouviu dizer-lhe, triste:

– Mas tudo que eu possa fazer por meu marido me parece pouco, mon cher, pois ele anda cada vez mais acabrunhado... por ainda não ser pai. Principalmente, pareceu-me, depois que Sancha deu à luz.

– Mais economia – ele brincou, devolvendo-lhe o cálice à salva. – O nhonhozinho, se encomendado, iria exigir parteira, mucama, chocalhos de lata, brinquedos, boticários... e uma ama-de-leite, a menos que iaiá Capitu passasse a consumir o Vinho Biogênico ou o Xarope Vitaminol, para lhe garantir o aleitamento.

Continuou a falar, olhando crítico para os bons móveis de jaracandá, para a reta do teclado sob a cordilheira de notas no imponente Steinway, para as toalhas de Flandres, para as jarras e baixelas da Índia, para os licoreiros de cristal, biscoiteiras de porcelana, aparelhos para lavatório em prata, para “A Cidade Vista do Adro da igreja da Glória do Outeiro” (um belo óleo de ninguém menos que Quinsac de Monvoisin, com a casa deles incluída). Ao sentar-se ao lado de um dos magníficos candeeiros, no marquesão, recolhendo um charuto do casaco, passou ainda os olhos pelos álbuns de litografias “Panorama da Cidade do Rio de Janeiro” e “Lembrança do Brasil”, expostos no precioso console com tampo de mármore, à disposição dos visitantes. Aí consternou-se ante o próprio daguerreótipo que havia na sala do casal – com sua dedicatória no canto inferior direito –, junto ao de Dona Glória – mãe de Bentinho.

– Não brinque com coisas sérias, mio caro...

– A sério, Capitu: a frustração de Bentinho preocupa-me muito.

Não era apenas isso que o angustiava, entretanto. Ela se casara por interesse, evidentemente - o noivo era o único que não atinara no fato. Se, porém, muito gastara no atacado quando da aquisição das melhores alfaias, agora – na verdade – poupar no varejo valia para ela o livro dos sete selos. E em esterlinas. “Mas para que... realmente?” – ele se perguntou.

“That´s the question!”

E não admitiu a insidiosa hipótese: tudo pretexto para trazê-lo aos encontros furtivos, na fé de que ele tomasse o resto da iniciativa para o que fatalmente viria. Ergueu os olhos para ela, no que a viu repetir com velatura na voz, como se lhe ouvisse os pensamentos:

– Não brinque com coisas sérias, Escobar...

– Mas não estou a brincar! Sei que Bentinho de fato não está bem.

Ele se levantou. E disse, tornando-a mais opressa:

– Ele vive a repetir-me “Nada me mata a sede de um filho”, “Queria um menino, triste que fosse, amarelo e magro”, “Uma criança, um filho é o complemento natural da vida”.

– Oh, meu Deus, Escobar!... – e ela, inesperadamente, correu para buscar arrimo nos braços dele, que a estreitou com força, charuto ainda sem lume entre os dedos, ele angustiado, de imediato, com a excitação que o contato lhe provocara. Segurou-a pelos soberbos ombros nus e afastou-a de si, dizendo:

– Eu, ainda ontem, garanti a ele e o repito para ti: “Virá, se necessário”.

Ela olhou-o num e noutro olho, para ver se lhe apanhava um pensamento oculto.

– Mas não vem – vaticinou aflita, voltando a abraçá-lo, apertando-o ainda mais, para suplício e gozo do amigo, que a ouviu murmurar junto de seu ouvido. – Ah, meu Jesus:o tanto que já pedi em orações, o Bentinho ainda mais que eu!...

De repente ouviram sons de um coche, cavalo a trote. Capitu se afastou com urgência, recompondo o vestido e os cabelos, Escobar meteu a mão esquerda na algibeira, também recuando, a sege passou direto, para alívio deles, a “cunhadinha”, lívida, dizendo:

– Sabe de uma coisa? Vamos mudar de assunto e fechar as contas.

Ele assentiu, acendendo o charuto no candeeiro a seu lado (esquecido dos acepipes que lhe haviam sido oferecidos). Pôs o havana entre os dentes, pegou a valise de sobre a mesa, seguiu Capitu até o gabinete de Bentinho,viu-a dar a volta ao bureau pesado e sentar-se na poltrona giratória. Acomodou-se também, ainda tenso, na cadeira de palhinha diante dela, maleta inglesa no colo. Capitu afastou o tinteiro de bronze, juntou os jornais a uma pilha de autos, deixou o tampo livre.

– Quanto temos?

Charuto preso entre os dentes, olhos apertados por causa da fumaça, Escobar desafivelou as duas cintas da valise, abriu-a, e dela tirou o envelope, que estendeu à proprietária:

– Dez libras.

– Ôh!...

Antes que ela contasse as esterlinas, ele sacou um livro, depositou-o sobre o móvel, virou-o para que Capitu o recebesse de frente e estirou o braço, deslizando o volume sobre o negro verniz até ela:

– Isto é um presente meu para o nosso amigo ver o quanto a vida dele é tão boa quanto a de Júpiter, que gozou de uma lua-de-mel de trezentos anos com Juno.

Capitu riu e maravilhou-se:

– “L´Enfer De Dante Alighieri”!

Escobar estirou o braço esquerdo novamente e, com as pontas dos dedos, abriu a capa de popelina vermelha do volume, dizendo “Ele não fala francês, mas olha aqui”, e lhe mostrou, na folha de rosto, o detalhe que viu de cabeça para baixo: “Accompagnée du texte italien”.

– Oh, Escobar, Bentinho vai ficar muito feliz!...

– E mais, quando souber das libras – sorriu. – Receba antes, entretanto, por isso, minha homenagem a ti – e pôs mais um livro sobre o móvel, diante dela, este com encadernação em marroquim e fechos de prata, as figuras de Virgílio e Dante em relevo dourado na capa – Vê?

Capitu levou as mãos ao rosto, deslumbrada:

– “The Inferno”!

E olhou para Escobar:

– Tu és das Arábias, caro! – e, erguendo-se enquanto avançava. – Estira-te para que te dê um beijo estalado na testa.

Ele fez o que ela lhe disse, recebeu o mimo, e, depois, roçou os lábios na suave pele da face dela, aspirando-lhe o perfume, controlando-se para não... deixar, novamente, evoluir a excitação, forçado, já, por isso, a sentar-se.

E aqui percebo que “Dom Casmurro”, publicado em 1899, em plena Belle Époque (1890-1914), data o casamento do Doutor Bento de Albuquerque Santiago e da senhorinha Capitolina Pádua bem para trás, num distante março de 1865. Mas não pode ter sido, pois Escobar – isto cerca de dois anos depois do casório – disse em seguida:

– Vi teu entusiasmo e o dele quando Machado de Assis publicou no Globo uma tradução para o Canto XX do “Inferno”.

Esse jornal é de 1874.

– Fiquei sabendo, depois, que o José Pedro Xavier Pinheiro também se empolgara e resolvera traduzir “A Divina Comédia” toda e que, depois de verter os primeiros cantos para o português, mostrou-os ao romancista, que considerou o trabalho primoroso. Bom, não vou muito com Machado, mas...

– Por que não?

– Hm... várias razões – ele tirou uma escarcela da valise. – O homem é mulato, filho de uma portuguesa com um pardo, e no entanto – apesar do prestígio – nunca mexeu uma palha pelo movimento abolicionista. Também não toma partido pelo fim da monarquia, nem se define entre as grandes correntes filosóficas do século, como o materialismo, positivismo, evolucionismo, monismo transformístico, hartmmannismo...

– Mas ele é tão elogiado...

– É. Pelos sevandijas, capadócios, pelos louvaminheiros de profissão. Na minha opinião, porém, ele tem uma prosa anacrônica, imitativa, deslocada, artificiosa, com conteúdo pouco variado, entrecho pouco movimentado e monotonia de narração, insistindo sempre num superadíssimo sense of humour à Swift, Sterne, ... Lamb, ... Thackeray. Sei que nenhum autor é completo: Lucas, por exemplo, se esquece de mencionar a coroa de espinhos no evangelho dele, e João, veja só, omite algo ainda mais “insignificante”: o sermão da montanha inteiro! No Machado, porém, a lacuna, embora não tão grave, é...chocante, pois ele escreve para mulheres e sobre mulheres, mas o que se... sabe... é que tem muito pouca experiência... de mulheres!...

– E o senhor, pelo que andei sabendo, tem muita...

Ele a encarou, surpreso. Ela foi mais precisa:

– Eu soube da atriz. – pausa – Bailarina?...

Escobar abriu a boca para lhe dizer que há mulheres – ao contrário dela e de Sancha – que liberam os homens dos torturantes prefácios e posfácios no momento em que eles..., mas baixou os olhos claros mais uma vez. Ela o socorreu:

– Ah, não pense que te reprovo! Para te ser sincera, apreciaria que meu Bentinho não fosse tão... casmurro, tão ex-seminarista, tão... bentinho! Pelo amor de Deus!... Quem sabe ele já teria o ansiado filho, se assim não fosse!...

Escobar não entendeu o que ela estava dizendo. Que o marido não a tocava? Ah, não:

– Achas que... a esterilidade é tua?!

– Como saber?

– Com tua saúde?!

Ficaram por um momento calados. Escobar derrubou a cinza enorme do charuto no cinzeiro, sugou uma tragada substancial, e disse, indicador e médio como os de Cristo, havana ao meio, as palavras saindo em meio à fumaça:

– Acho que se Machado os conhecesse, a ti e ao Bentinho, faria dos dois seus personagens. Acho, mesmo,.que se veria projetado em teu marido e veria Dona Carolina em ti, pois, além de também jamais ter... “transmitido a nenhuma criatura – ele disse isso em algum lugar – o legado da nossa miséria”, ele tem motivos fortes para também ser tímido, pois – além de mulato - é gago, epilético, raquítico, ... e foi pobre...

– Mas a pobre da rua de Matacavalos era eu!...

– Costuma-se fazer dessas trocas, em literatura. Machado se apaixonou pela Carolina, quase Capitolina, com quem se casou. Ela, como tu, era uma jovem inteligente e desembaraçada. Ele, como é escuro e leitor de Shakespeare, acabaria fatalmente por mencionar Otelo algumas vezes, principalmente se sabedor de que existe alguém louro por perto, como eu, tendo estes encontros secretos contigo, o que o faria pensar num final igualmente trágico para ti.

Capitu sentiu-se desconfortável. Pegou o calhamaço na pasta que Escobar lhe entregara, viu que era um manuscrito, mudou novamente de assunto:

– E isto?

– Ah! Como eu lhe dizia: assim que soube que o Xavier Pinheiro fazia a tradução de toda “A Divina Comédia”, fui de ceca em meca atrás de conseguir uma cópia dela para ti... e aí está!

– Jesus! Tu sempre consegues o que queres?!

– Só o que tu queres!... E o Bentinho.

Olharam-se nos olhos.

– Mas... ao contrário do que disse Machado – Escobar prosseguiu –, a tradução do Xavier Pinheiro non me piace. Vero! Veja o primeiro verso do original italiano – disse erguendo-se e dando a volta à grande secretária, postando-se de pé ao lado de Capitu, declamando-lhe de cor – “Nel mezzo del cammin di nostra vita...”

Viu-a erguer o rosto para ele, atenta, e comentou:

– Trata-se de algo simples, direto – e traduziu – “No meio do caminho de nossa vida...” Mas leia a versão do nosso traditore – curvou-se, passando o charuto para a mão esquerda, abrindo o calhamaço com a direita, seguindo o texto com o indicador:

– “Da nossa vida em meio da jornada...”

– Arrevesou tudo!

– Não é? Xavier Pinheiro destrói os melhores achados de Dante. Como este – virou algumas páginas – Aqui, no canto V, temos esta frase citadíssima: “Nessun maggior dolore che ricordarsi del tempo felice nella miseria” (Capitu gostou dos sons da voz dele na palavra “misérrria”).” Nenhuma dor maior – ele transpôs – que a de se recordar o tempo feliz na miséria”. Mas olha só o que o nosso sacripanta concebeu: “Não há tormento mais dorido que recordar o tempo venturoso na desgraça”.

Escobar sorriu, deu uma tragada, soprou a fumaça para o outro lado, pegou “L´Enfer”, girou a capa dura.

– Felizmente o melhor do volume é isto – e leu em português o que estava em francês – “Com os desenhos de Gustave Doré.”

– Doré? “Dourado”?

– Conhece?

– Não.

– É, infelizmente o mundo trabalha em ordem cronológica, mas não alfabética. Isso é mister dos enciclopedistas, que ainda não têm verbetes para novos gênios como ele, Gustave Flaubert e Gustave Moreau! Isto é coisa novíssima!

Ele gostou de vê-la abrir o in-fólio e levá-lo ao rosto, aspirar-lhe o cheiro dos papéis e tintas novos. Mas o sorriso dela se diluiu ante a força poderosa da ilustração que lhe surgiu ao recuar o livro, enquanto Escobar abandonava o charuto ao cinzeiro:

– Meu Deus, que cena impressionante! O que é isso?

Virgílio e Dante, de pé no alto de uma alta escarpa escura, mantos ao vento, olham pasmos para o céu tomado pela horda enorme de... casais nus!... que, vindo em sinuosas lá dos confins do cânion sinistro, densa como uma revoada de pássaros ou gafanhotos, passa por cima de suas cabeças, no desfiladeiro, milhares deles momentaneamente iluminados por uma luz como que de relâmpago.

Escobar disse em francês, para não chocá-la tanto:

– Sont les luxurieux, impudiques et morts pour amour…

O lábio inferior, dela, ficou preso entre os dentes, o rosto no clarão do assombro, Escobar completando:

– Nessa leva estão Semiramis, Dido, Cleópatra, Helena de Tróia, Tristão, todos no segundo círculo do Inferno. Aí, quando Dante quer interrogar alguém nessa turba, calha de o turbilhão baixar no que passam abraçados perto dele Francesca da Rimini e o cunhado, Paolo Malatesta, mortos pelo marido, Gianciotto, por... terem-se eles apaixonado. Eis os dois – Escobar disse em voz baixa, virando a página.

O belo casal, que se destaca na escuridão, solto sobre o abismo, enche os olhos de Capitu, que ora olha para o belo Paolo em parte envolto em manto, ora para Francesca com as costas contra o corpo do amante, a maravilhosa nudez completamente exposta. Lá estava a fenda sangrante da punhalada entre os seios da linda pecadora. Escobar, agora mais junto da amiga, vira mais uma página e deixa a mulher de Bentinho sem fala ante a nova cena: Virgílio e Dante juntos, vistos de costas, ambos coroados de louros, o mestre com o braço direito no ombro do discípulo, as cabeças de ambos inclinadas, os dois ouvindo a flutuante Rimini que lhes fala enquanto o Malatesta se contorce de dor atrás dela, meio milhão de outros casais passando ao fundo, no alvoroço do vendaval.

– Como foi essa história, o que é que ela conta ao Dante? – Capitu perguntou.

Escobar abriu o livro – ainda nas mãos dela – na parte do texto em italiano, e leu em voz baixa, como se fosse Francesca:

– “Noi leggiavamo un giorno per diletto... di Lancelotto come amor lo strinse...”

– Não entendi, não entendi. O que é que tem Lancelot?

Escobar se valeu da tradução de Xavier Pinheiro:

– “Por passatempo eu li, e o meu dileto, de Lanceloto extremos namorados: éramos sós, de coração quieto”...

– Ts – ela fez, impaciente.

– “Un jour – Escobar tentou noutro texto – nous avons pris du plaisir en lisant de Lancelot, qui fut esclave de l´amour. Nous étions seuls tous deux et sans aucun soupçon”.

– Vejo a coisa ainda meio obscura...

– “One day – ele leu noutro volume – for our delight we read of Lancelot. How him love thrall´d. Alone we were, and no suspicion near us.”

Inútil. Escobar deu a própria versão:

– “Um dia… estávamos a sós…eu e Paolo... lendo a história de Lancelot”. Lancelot, tu sabes, seduziu a mulher do rei Arthur, de quem ele era o mais fiel cavaleiro. “Foi quando chegamos” – Escobar avançou na interpretação, engolindo em seco e repetindo – “Foi quando chegamos àquele ponto que falava do sorriso dela que ansiava ser beijado... por um amante perfeito...”

Viu que Capitu arfava, excitada, e que tomava as rédeas da leitura, sôfrega, numa voz de contralto em recitativo de Verdi:

– “La bocca mi basciò... tutto tremante...”

Ele sentiu a ereção doer, atrás dela. Nenhum adúltero pensa em útero, mas ele pensou, ao concluir:

– … “quell giorno più non vi leggemo avante”

Corroborou:

– ... “that day we read no more”.

Recuou alguns versos:

– Isto é muito bonito, aqui, mais atrás: “Nossos olhos, por vezes, encontrados, cessam de ler…”

Foi então que Escobar e Capitu, intensamente perturbados, muito próximos um do outro, se chegaram ainda mais. Ele baixou a cabeça, Capitu vacilou, fechou os olhos, narinas frementes, entreabriu os lábios e aguardou aquilo pelo qual – força era confessar – sempre esperara. E ele a beijou e a suspendeu até tê-la em pé, corpo masculino contra corpo feminino outra vez, e ela gemeu – tutta tremante – enquanto, na ilustração seguinte, Francesca, sentada, apartava as coxas e deixava cair o livro entre elas, sem ver que Gianciotto Malatesta se aproximava com o punhal erguido.

...

Quando Bentinho chegou, deu com Escobar à porta do corredor, chapéu-coco e bengala na mão, dizendo-lhe.

– Vinha falar-te sobre os embargos, mas vi que não havia ninguém na casa e já ia voltando... Que é da "cunhadinha” ?

– Ela não foi comigo. Queixava-se da cabeça e do estômago. Fui só, mas voltei com remorso, ao fim do primeiro ato, receoso por ela.

– Bom, então falemos amanhã.

– Não, não, falemos já. Sobe. Ela pode estar melhor.

Estava.
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