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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Vocação de escritor: a essência da escrita de Vasto Mundo (Reyvaldo Vinas)

(Alaor Barbosa)

Ouvi do poeta Affonso Romano de Sant’Anna, na ocasião em que editava seu livro A sedução da palavra, publicado pela Letraviva, uma afirmação no mínimo incômoda: o verdadeiro escritor é aquele que, se deixar de escrever, para de respirar.

Affonso fazia naquele momento uma reflexão no plano das vocações: de um lado, há o escritor episódico, o beletrista, o utilitarista (para quem escrever decorre muitas vezes da mais absoluta necessidade material, por não saber fazer outra coisa); de outro, resultado de um processo fulminante, permanece o escritor vocacionado, aquele para quem parar de escrever significa perder o sentido da vida. Para este, ao ato da escrita nenhuma outra sedução suplanta, e tudo o que não for palavra degenera.

Rafael Santoro Noronha, narrador deste Vasto Mundo, uma obra-prima do goiano-brasiliense Alaor Barbosa, enquadra-se no segundo caso: em tudo, no sofrimento, na solidão, no afeto, na viagem, encontra ele matéria de poesia (aqui entendida como o texto cujo pretexto é a alta literatura). E pode-se dizer desse personagem que ele é, no fundo, o sinal da existência laboriosa do romancista como um artífice das letras.

É um romance dominantemente em primeira pessoa, com a capacidade que tem essa forma de narrativa de nos levar pela mão, lado a lado com o narrador, vivendo o seu sofrimento e sua derrota, sua vibração e seu encantamento, suas ilusões e seus preconceitos. Vai-se então com ele pelos caminhos e descaminhos de um tempo antigo que ele persegue, por ruas sombrias, madrugadas, desesperanças...

Muito moço, Rafael Noronha vive o dilema do interiorano culto que já não cabe mais – e já não se contenta – nos “limites” de sua terra natal, e aspira, um tanto quanto ilusoriamente, um tanto quanto ingenuamente, ao sucesso na Capital, na cidade grande engolidora de almas. E é ao mesmo tempo essa condição de matriz devoradora que paradoxalmente o fascina e o faz voltar sempre ao caloroso, humilde e acolhedor solo amarelado que o viu crescer, entre gente simples e “sem futuro”. Mas só em profunda e quase incontornável crise é que Rafael Noronha retorna a esse lugar aonde deseja muita vez não voltar nunca, se pudesse, se tivesse forças para além de sua pequena e tímida figura.

É preciso, dito isto, dar um testemunho: há alguns anos venho editando os livros de Alaor Barbosa. Desde o início, quando ele nos apresentou pela primeira vez seus originais para edição, num tempo remoto (entre tantos textos que recebêramos de diversos autores, uns veteranos, muitos iniciantes), percebi a qualidade de sua prosa, em leitura apenas transversal, dinâmica. Não era possível, em razão dos afazeres do ofício, avaliar naquele momento senão a superfície, o bom verniz de sua escritura.

Só mais tarde, ao me debruçar com mais percuciência sobre a reunião de seus textos (quase 1000 páginas) nos Contos Reunidos editados pela Projecto Editorial, 2004), é que senti a presença real de um Autor que não poderia ser relegado ou esquecido, um autor cujo reconhecimento maior só ainda não ocorrera em definitivo por nos encontrarmos num país “quase cego”, num momento de pessoas cada vez mais “surdas”, num tempo de frivolidades, aplicados muito mais, como indivíduos e nações, na realização de projetos superficiais desumanos.

A obra de Alaor Barbosa, humana como é, intensamente emocional como é, tecida em linguagem simples, clara, mas de sutil artesanato verbal e invulgar poesia, vive por isso a crise de ser marginal (no sentido de estar à margem), porque introspectiva e memorialística num panorama de atual literatura em que predominam os fogos de artifício estampados nas livrarias, feitos muita vez de bolsões de vento, cerejas de enfeitar, drops de hortelã e maresias...

É certo que há muitos, como nós, lapidados pelo tempo e debruados numa literatura mais sensível, “velhos de escrita”, que reconhecemos a grandeza da arte literária que ele faz, assim como ainda conseguimos nos deleitar e emocionar com um Proust, um Joyce, um Graciliano, um Guimarães (tantos, meu Deus, cada vez mais esquecidos nessa era de velocidades e “microconteúdos multimidáticos”). Mas somos cada vez mais em menor número, emparedados pela multivisualidade da Era da Informação, entre bits e bytes, de tal forma q se vc tivr + de 30 anos tá fddo.

No entanto, é sedutora e estimulante a literatura de Alaor, mesmo para uma geração mais jovem, mesmo para os de 20 e 30, mesmo... para os de 15 anos de idade – desde que tenham sido, estes velhos e novos leitores, contagiados pelo morcego da curiosidade, da sede de saber, da emocionalidade que falta, da diversidade cultural, do desejo pela história, da ânsia de lembrar e outros fatores da arte e da cultura que nos constituem verdadeiramente humanos, porque nos retiram da condição mera, subalterna e vil de seres que simplesmente nascem, crescem, se alimentam e dormem.

Mas há aí um problema também de formação cultural e educacional: a maioria dos jovens de ontem e de hoje não foi qualificada para a leitura (e pelo jeito que as coisas andam, o mesmo acontecerá com os jovens de amanhã). Ler é um ato que exige preparação, treinamento, formação de hábito... Ler envolve um ritmo pessoal, respiratório até, orgânico, como numa dança. (Não há nada mais patético que um descordenado motor tentando ensaiar um tango.)

Assim, ler Alaor Barbosa neste seu Vasto Mundo (é óbvio que o título é uma referência ao poema drummondiano) exigirá apoderar-se do ritmo próprio dessa leitura, um ritmo não lento, mas pausado, reflexivo, de movimentos íntimos, um ritmo que permita realizar a viagem aos cenários que o autor edifica; aos planos da recordação que ele tão bem elabora; à percepção de sua linguagem enganosamente coloquial, plena de sentidos resgatados do sangue-suor da memória; ao devir/revelar da história que ele nos proporciona.

A propósito, li para uma de minhas filhas este trecho de Vasto Mundo, quando fechava a tiragem de reimpressão:
[...] Hoje eu acordei mais ou menos cedo – às 7 horas da manhã – e me levantei logo. Lavei o rosto, escovei os dentes, pedi à minha mãe que me fizesse um arroz-com-ovo – ah! que privilégio recuperar este meu hábito ¬antigo e bom! Arroz-com-ovo! Infância e adolescência restauradas. Minha mãe, com aquele jeitinho amoroso dela, botou a frigideira no fogo e preparou o arroz-com-ovo, e me trouxe o prato quentinho. Fui comer na varanda do quintal. Me senti ainda mais reentrado no meu mundo original: meu pequeno vasto mundo imbaubense. Sentimento gostoso de segurança, contraposto ao de insegurança que me domina quando me vejo fora de Imbaúbas. É por causa desse entranhado temor que, volta e meia, sem eu esperar, esteja onde estiver, andando ou sentado ou deitado, me vem de vez em quando à tona da consciência, sussurrada censura, esta pergunta: “Que é que eu fui fazer no Rio?”

Ela parou como que indecisa, suspirou e disse: “Que lindo!”
Provavelmente ela não teria essa manifestação se tomasse o livro de pronto e o lesse por moto próprio nestas primeiras páginas. Muito certamente ficaria enfarada da falta de “ação” da narrativa, aquela ação harry-potteriana, tolkieniana e “crepuscular" tão esperadas e previsíveis em suas leituras de adolescente.

O que fiz, porém – é preciso falar – foi uma experiência diferente: no começo da noite, logo que ela chegou dos exercícios da escola, preparei para ela, amorosamente, arroz com ovo (o autor, subvertendo a Nova Ortografia, registra arroz-com-ovo, e assim amplia a significação do enunciado).

Fiz, portanto, arroz-com-ovo para mim e para ela, servido na própria frigideira. Disse-lhe que um dos momentos mais marcantes da minha vida com meu falecido pai era vê-lo preparar para nós ovos estrelados nas noites de sábado, sentindo evolar aquele cheiro de inocente fritura que me recordava um alimento mais vivificante para a alma. Ela entendeu.

Ao ler o trecho de Vasto Mundo, as reminiscências do personagem Rafael Santoro Noronha já eram de certa forma, também as de minha filha, que agora podia senti-las inapagavelmente, para além das tramas novelescas e hollywoodianas em terceira dimensão a que estava acostumada.

Disto deduzo que nos falta também, para conseguir hoje compreender e interiorizar essa literatura feita da psicologia das emoções, a experiência humana mais amorosa e intensa, cada vez mais escassa, necessariamente interior e pensativa, que nos plenifica.

A intenção aqui não é a de fazer crítica literária estruturalista, mas alguma observação de base teórico-linguística é ainda importante: a primeira delas é o que chamarei de onomastasia, que consiste em tornar o nome dos personagens, por si só, um recurso literário. Alaor consegue nomear como poucos a imensa galeria de seus personagens (fictícios ou não), de nomes ao mesmo tempo sonoros, plásticos, significativos e romanescamente eficientes: o hesitante, sensível e tumultuado Rafael Santoro Noronha; o brutal, inflexível e talentoso (e também verídico!) Coriolano Bustamante; o atarefado e lacônico Narciso Ramos; a séria, bela e enigmática Ana Júlia Moretti, Clodoveu, Balduíno, Galeno, Zeca Taveira etc.

Há o artifício, de caráter metonímico, de substituir o pessoal pelo episódico; o sentimento pelo resultado, como na passagem: “Nunca me sentira tão bem (mesmo com os reveses Ana Júlia Moretti e Ester Rosenbach, mas reanimado com o acontecimento Marione Prado) no Rio de Janeiro” (g. n.) – recurso de linguagem que, mais do que o relato dos fracassados relacionamentos do narrador, melhor exemplificam as dificuldades emocionais e amorosas do jovem Rafael.

Permanece em Vasto Mundo o uso eficiente da composição de palavras, como em cidade-grande, rapaz-filho, arroz-com-ovo, campo-de-aviação, namorada-de-longe, rapaz-rico-que-tendo-um-jipe-podia-dar-carona-a-um-ex-colega-de-ginásio-que-embora-advogado-ainda-não-conseguira-comprar-um-carro, entre outras cujos significados seriam degradados se obedecidos à risca os ditames (sobretudo do uso do hífen em palavras preposicionadas) da Nova Ortografia da língua portuguesa.

Na elaboração da semiose dos parágrafos, em narrativa quase linear, um dos maiores trunfos de Alaor é o equilíbrio entre a expansividade e a contenção do discurso, em momentos como o que se segue, que caracterizam uma voz ao mesmo tempo culta e interiorana, rústica e poética, ingênua e analítica:

Olhei nela: ela calava, calava e sentia, mulher menina. Caminhamos mais um pedaço de praia: a areia tinia sob os nossos pés violando a mudez do lugar e da hora. Eu senti um ímpeto forte de cantar bem alto, com estentórica voz, com a voz com que cantava aos catorze anos em Imbaúbas a caminho da piscina lá no alto perto do Matadouro: eu queria dominar o ruído do mar, soltar as comportas da minha alma, vociferar minha felicidade inexprimível. Então eu disse a Ana Júlia, com a voz mais alta para vencer o barulhão do mar que em ondas se quebrava quase aos nossos pés:
– Estou com vontade de gritar um viva à vida!
– Então grite! – me apoiou Ana Júlia elevando também a voz, pondo-se à altura da importância e elevação daquele momento, não falhando ao ardor do entusiástico homem amoroso que eu era e me sentia. Por que temer o ridículo? Forte foi o meu impulso, e gritei:
– VIVA A VIDA! VIVA A VIDAAAAA!
Para o mar, eu gritara: para a noite amplíssima, para o escuro horizonte do céu por sobre o mar e atrás de nós. E olhei para Ana Júlia, que me sorriu aprovando a minha sensata loucura boa, com um olhar de benevolente compreensão, como a me dizer que é possível ser entusiasmado por impulso de poesia e de amor e proceder com aparente loucura sem ser doido.

Vasto Mundo é um romance que começou a ser escrito 45 anos atrás e sofreu sucessivas revisões até chegar a esta forma, digamos, definitiva. Contundente, poético, emocionalmente realista, recria e documenta um importantíssimo período da história do Brasil: aquele que começa no início do governo de Juscelino Kubitschek, em 1956, e vai até três ou quatro meses depois do Golpe Militar-Político de Abril de 1964.

É a história dramática e densa de Rafael Santoro Noronha, um jovem escritor idealista, passada em Imbaúbas (terra natal do narrador, no interior de Goiás) e no Rio de Janeiro.

Rafael intenta fazer coisas grandes e importantes, e luta com transpiração quase feroz para se instalar no mundo em posição que lhe permita realizar seus objetivos.

O Golpe de 1964 o devolve, aturdido, desorientado, abalado, à terra natal, para recomeçar a vida e a trajetória subitamente interrompida no Rio de Janeiro, onde se dedicara intensamente às letras e ao jornalismo.

Texto primoroso, poético, de um Autor perfeitista, nada frívolo, fruto de um talento que se lapida a cada dia mais, em um longo e estrênuo esforço.
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