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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Anônimos e famosos (Adelto Gonçalves*)


I
Não há quem não aspire à celebridade, ainda que instantânea, os famosos quinze minutos de fama a que todos, um dia, teriam direito, na igualmente célebre previsão de Andy Warhol (1928-1987) da década de 1960. Até mesmo aqueles homens célebres que anunciam aos quatro cantos do mundo que não mais recebem a imprensa, pois o que mais prezam na vida é viver em reclusão, longe dos olhos da multidão, no fundo, o que querem é chamar a atenção de todos. Ou será que não era exatamente isso o que pretendia o famoso J. D. Salinger (1919-2010)? Ou a bela Ava Gardner (1922-1990), que passou o seu último ano de vida reclusa num apartamento em Londres?

A expressão “quinze minutos de fama” referia-se geralmente a uma pessoa anônima que ganha notoriedade de maneira repentina, muitas vezes em razão de algum escândalo de que participa voluntária ou involuntariamente, de um programa de televisão ou algum fato de grande cobertura na mídia. Hoje, não há como deixar de relacionar a expressão a fenômenos da Internet. Afinal, poucos são aqueles que, gostando de escrever e expressar seus sentimentos, ainda resistem à criação de um blog, enquanto os mais afortunados preferem mesmo encomendar um site a um webdesigner.

Mas há os verdadeiros anônimos, ou seja, aqueles que nunca frequentarão a Internet nem terão seus nomes localizados numa busca do Google, que vivem uma vida cinzenta, ainda que, muitas vezes, tumultuadas em suas relações com o semelhante. E que nunca terão o rosto estampado numa coluna social, ainda que de uma gazetilha de bairro. Para arrancá-los do limbo só mesmo o olhar arguto de um contista daqueles capazes de registrar no papel um instante de vida, já que, geralmente, a trajetória dessas pessoas comuns não sustentaria um romance ou uma novela mais alentada.

É que o que fazem em Histórias invisíveis, com indisfarçável perícia, Mônica Rebecca Ferrari Nunes e Marco Antonio Bin, professores universitários por profissão e observadores do cotidiano por compulsão, ao resgatar personagens do espaço urbano da cidade de São Paulo nos 12 contos reunidos neste livro. São contos que “procuram fazer visíveis pequenas e grandes dores, o que se acha sem procurar, o que atropela uma segurança não tão segura”, como diz na apresentação Jerusa Pires Ferreira, professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da Pontifícia universidade Católica (PUC), de São Paulo. E que, muitas vezes, escondem ou disfarçam uma parte da verdade para desafiar o leitor a descobri-la, ou seja, levá-lo a gastar mais alguns instantes para imaginar o que teria sido a vida dos personagens além do conto e, dessa forma, reescrevê-lo à sua maneira.

II
No conto “Elvira e Ribeiro” – aliás, os 12 contos levam por título os nomes de seus personagens –, lê-se a história de um amor de encanecidos: Elvira, 67 anos, portuguesa, viúva, vivia sozinha num pequeno apartamento no centro de São Paulo, “sem crianças em porta-retratos, sem bordados madeirenses sobre os móveis coloniais”. De Portugal, a vaidosa Elvira guardava os discos de fado, fadista amadora que era.

Frequentadora da Biblioteca (Mário de Andrade, com certeza, ainda que não explicitada), logo passou a fazer parte de um grupo de leituras. E conheceu um amigo, também viúvo, o Ribeiro, 70 anos, que tinha um filho que morava no interior e era dono de um cão vira-latas malhado, o Argo. “A idade, em Elvira, nada lhe roubava a volúpia nem lhe corrompia a beleza erótica, o feminino afeito às jóias trazidas dos tempos d´África, aos sândalos e às cores quentes que usava”, escrevem. Por aqui se vê o estilo dos autores que vai preparando o leitor para o final insólito.

Já em “José Anísio” o que o leitor vai encontrar é um perfil bem acabado de um zelador de prédio, de idade aproximada de 60 anos, que desempenhava o seu serviço havia pelo menos vinte anos, no mesmo endereço, na Avenida São Luís, no tumultuado centro velho da megalópole. Respeitado por sua discrição, gostava de circular pelos andares, ouvir as queixas dos moradores, tomar as providências que lhe cabiam. Dividia com o filho mais velho um cubículo no oitavo andar do prédio de que cuidava, mas a família e seus outros cinco filhos viviam numa casa da periferia, a que só de tempos em tempos voltava. Por isso, sonhava com a aposentadoria e o dia em que não precisaria mais viver no coração da grande cidade.

Em “Jonas e Valeriana”, acompanha-se o amor de uma atendente de balcão de uma panificadora por um padeiro – não o proprietário, mas o humilde fazedor de pães –, sua vida modesta de quem trabalhava doze horas por dia, fazia viagem de uma hora e meia, tanto na ida como na volta do emprego, chegando em casa por volta das oito da noite, “até seu cantinho de três cômodos que dividia com duas amigas”.

O leitor, porém, está diante de um padeiro pouco usual, personagem dostoievskiano, que aproveitava seus quinze minutos de descanso para escrever cartas à mesa da cozinha. E de uma atendente de balcão que, em vez de se imbecilizar diante de uma televisão, preferia passar as horas de folga a ler livros de ficção. Valeriana nunca haveria de perguntar a Jonas o que lhe dava tanto motivo para escrever, “e pensava no romance que ele escreveria, os personagens, os lugares, a história, e sorria timidamente ao imaginar-se descrita por Jonas...” O desfecho, mais uma vez, surpreende o leitor, pois acompanha a desilusão de Valeriana, diante da indiferença do companheiro de trabalho, que a levaria até a largar o emprego. Mal saberia Valeriana que as cartas que Jonas escrevia, como os sinos de John Donne (1572-1631), eram escritas para ela.

Como se constata por aqui, estes são contos com fluência textual e estilística muito próxima da oralidade que mostram retalhos da vida na cidade grande, sem deixar de recorrer à ironia satírica, que, por isso mesmo, lembram alguns textos de Machado de Assis (1839-1908), até mesmo pela leveza do tom e pela sutileza. E, principalmente, por causa de seus desfechos que mais insinuam do que informam ou explicitam, levando o leitor a imaginar o que teriam sido aquelas vidas além daquele instante registrado (congelado) na página.

III
Mônica Rebecca Ferrari Nunes é professora universitária, com doutorado e mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, além de pesquisadora do Centro de Estudos da Oralidade (PUC-SP) e do Centro de Estudos de Música e Mídia da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Publicou O mito no rádio (São Paulo: Annablume, 1993), A memória na mídia (São Paulo: Annablume/Fapesp, 2001), entre outros escritos teóricos.

Marco Antonio Bin é escritor e professor universitário, com doutorado em Ciências Sociais e mestrado em Comunicação e Semiótica, ambos pela PUC-SP. Publicou a coletânea A paixão inútil (1997) e foi vencedor do concurso de dramaturgia da Associação do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Apcef), em 1991, com a peça Chatila, entre outras premiações. Mantém o blog de política, literatura e cinema www.chanasmontanhas.blogspot.com
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HISTÓRIAS INVISÍVEIS, de Mônica Rebecca Ferrari Nunes e Marco Antonio Bin. Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 128 págs., 2011, R$ 23,80. E-mail: contato@editorahorizonte.com.br Website: editorahorizonte.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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