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domingo, 16 de outubro de 2011

Libido com arte (Nilto Maciel)




Carlos Trigueiro apareceu no palco das letras com mais de 50 anos de idade, se não contarmos Memórias da liberdade (1985). Entretanto, só recentemente me tornei conhecedor de sua obra. Seu primeiro impresso de prosa de ficção é O clube dos feios e outras histórias extraordinárias, de 1994. De lá para cá, o homem desandou a publicar romances e coleções de contos, em português, espanhol, inglês e italiano. Em 2011, apresentou Libido aos pedaços, volume de 200 páginas.

Li centenas e centenas de poetas e prosadores nascidos nos anos 1940/50. Admiro alguns. A maioria li por amizade (e só não a perdi porque me mantive calado). Li também os concebidos nos anos subsequentes. Alguns nem sabem escrever direito. Conheço a maioria. Não pessoalmente; mas de livros, revistas, cartas, mensagens eletrônicas, blogs. Sofro muito por ler seus contos, poemas, novelas, romances. Eles não sabem disso. Sou muito fingido (mentiroso). Digo-lhes (quando insistem em perguntar se os li e se gostei) que os adoro.

Trigueiro está no pequeno bloco dos que li com muito prazer. (Sou também muito sincero). Porque escreve certinho (não deve precisar de revisor), inventa personagens interessantes e enredos cativantes, conhece as normas da arte de narrar.

Libido aos pedaços divide-se em oito segmentos (partes) e mais um (intitulado “O pedaço que faltou”). Os segmentos são compostos de capítulos numerados e com títulos. O narrador principal (o das oito partes) é Otávio Nunes Garcia. A nona parte é narrada por Larissa Pontes, que se desculpa por tomar o lugar daquele: “É inegável que provoco estranheza ao assumir a narrativa” (p. 185), (...) “uma vez que o primeiro narrador se valeu do meu nome à revelia, distorceu minha reputação profissional” (idem).

Esse artifício (o de dar voz a dois ou mais narradores) é incomum, embora não seja nenhuma descoberta recente na técnica de narrar. Larissa dá continuidade à trama iniciada por Otávio, indo além de sua morte: “Ontem, fez meio ano que o meu marido e colega psicanalista, doutor Guilherme Pessoa, atestou o óbito de Otávio” (p. 189). E explica “a estrutura da história nas páginas precedentes e que ele titulou ardilosamente de Libido aos pedaços” (p. 190). Faz uma espécie de revisão do escrito de seu paciente, ao tentar (inutilmente) reescrevê-lo, posto que não apagado, como um palimpsesto.

A narradora se apresenta assim: “Sou Larissa Pessoa, grau de Doutora em Medicina, psicanalista, especializada em desvios caraterológicos do indivíduo” (p. 185) e autora de Amor em família (mencionado e citado várias vezes por Otávio).

O narrador se apresenta desde as primeiras páginas do que chama de “prontuário sentimental”. Na verdade, não traça um perfil de si, como nas autobiografias romanceadas. Só mais para diante, se permite alguma informação a respeito de sua profissão, quando se diz biólogo. Entretanto, não deixa de ser mordaz (ou impiedoso) consigo mesmo: “Biólogos são vertebrados superiores solitários por livre escolha. Eu, por exemplo, me tranco no laboratório com fórmulas, lamínulas, éteres, cubas, plâncton, frascos, microscópio” (p. 81).

Ao longo da narrativa, descobrimos onde se passa a história, pela menção a alguns nomes da topografia do Rio de Janeiro: Cristo Redentor, morro do Corcovado, Gávea, Jardim Botânico (p. 87), igreja de Santa Margarita, no bairro da Lagoa, Clube Naval (p. 147). Mas isto não tem a menor importância na trama. Porque interessa mesmo é o envolvimento de Otávio com Larissa.

O drama é contado de forma não linear. Nem poderia ser diferente, porque não há tantas ações assim que pudessem engendrar uma composição longa. O que o compõe são as ruminações do protagonista, a recordar as sessões de psicanálise de que participou como paciente e sua relação amorosa com a médica. Por isso, fala de si mesmo, como se fosse personagem autocriado: “Só posso falar do Otávio que uso e encarno” (p. 21). Trechos de sua trajetória se mesclam à de outras pessoas, como Larissa e Guilherme Pessoa, cujo consultório frequentou por “ordem” dela (p. 61). Entretanto, o narrador não demonstra interesse pela vida deles ou de quem quer que seja. A descrição que faz do médico é crua, como se descrevesse um inseto: “barba grisalha, jaleco azul, sem crachá” e sua “esmerada técnica de psicoterapeuta” (p. 71).

A doutora ele pinta com tintas exuberantes: “Larissa: um metro e setenta e três de carne macia, ossos fortes, pecados geniais. Até aí nada demais. A alquimia divina faz com o barro humano obras monumentais” (p. 23). E quem mais é Larissa: simplesmente a irmã de sua mulher Débora, figura apagada no enredo.

Libido aos pedaços é um painel de bom humor, embora não chegue a ser uma história jocosa. E muito menos fescenina. Não há palavrões nem cenas de alcova. Pelo contrário, há um extremo bom gosto na construção das frases. Pode-se mesmo falar de uma profusão de frases pomposas ou de efeito: “Meu casamento impressionista foi romance pintado a óleo. Pensei quadro, disse romance” (p. 129). Além de definições poéticas e metáforas: “A memória é um oceano quase sempre pacífico onde mergulhamos para praticar cinema mudo. Às vezes, em fossas abissais” (p. 175).

Ressalte-se a forma dada aos diálogos, sempre em itálico, com aspas. Alguns capítulos são inteiramente assim, como o XVI “Um mês depois” e o XVIII “Meio ano depois”. Desta forma, a narração flui com leveza, sem aqueles insípidos (porque repetidos) verbos dicendi.

Solha, nas abas do volume, refere-se à “bela urdidura novelesca” que constitui o romance (“o seu espúrio caso amoroso”) de Trigueiro. Libido aos pedaços é exemplo da possibilidade de escrever prosa narrativa moderna ou pós-moderna, sem concessões ao mau gosto ou a um realismo urbano que nem de longe lembra aquele do século XIX, pela pobreza do enredo, pela horizontalidade na pintura dos personagens, pelo uso exagerado de clichês, etc.

Fortaleza, 15 de outubro de 2011.
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