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domingo, 27 de novembro de 2011

O giuoco piano de Esdras (W. J. Solha)


Página 307 de A Rainha do Calçadão, Opus 14, de Esdras do Nascimento (Global, 2011, 421 páginas):
O romancista Roberto de Aquino brinca com as peças de xadrez. Peão quatro rei. Peão quatro rei. Cavalo três bispo rei. Cavalo três bispo dama. Bispo quatro bispo. Abertura Giuoco Piano. A preferida de seu amigo recém-falecido, o pintor Assuero. Mencionada num manuscrito de 1490 e analisada por Damiano em 1512, giuoco piano que dizer jogo tranquilo, mas no entanto leva a um embate violentíssimo.

Curioso que, ao nos entregar o que parece a chave de seu novo romance, Esdras–apesar de sua indubitável (indubitável mesmo) competência – de repente deixa escapar um erro de digitação: giuoco piano QUER dizer jogo tranquilo, seguido do que seria – para ele mesmo, como leitor – inadmissível: as adversativas juntas MAS NO ENTANTO.
Um analista diria que ele vacilou no momento de decidir se nos entregava ou não a síntese de seu livro: jogo tranquilo, que leva a um embate violentíssimo.

A REVIRAVOLTA:
A Rainha do Calçadão segue a regra clássica (da Divina Proporção, ou Seção Áurea) que foi utilizada no Pártenon, na Última Ceia de Da Vinci, no Hamlet, no Couraçado Potenkin:
implicitamente dividido em duas partes, o livro tem a segunda repetindo a primeira, mas em sentido contrário. E oturning point acontece no capítulo 53 (o romance tem 102), exatamente quando o nome Ana Madalena – o da rainha – diz a que veio: a bela ninfomaníaca se arrepende. Ciente de que para seus pecados não há perdão, flagela-se com o próprio terço, martiriza-se terrivelmente, torce os mamilos que quase sangram, grita Senhor, tende piedade de nós. Mas, assim como o Príncipe da Dinamarca – apesar de ter ocasião para isso – não mata, na metade da peça, o rei Cláudio, assassino de seu pai e amante de sua mãe, Esdras adia a solução final, sabendo, tanto quanto o Bardo, que se não fizer isso, acaba com “o espetáculo”: Ana Madalena, a Rainha do Calçadão, aos poucos vai se excitando com a dor, liga pra Roberto de Aquino, dá com a voz gravada da secretária eletrônica dele, ajoelha-se, põe a mão entre as pernas, e se acaricia, com fúria: Perdoai-me, Senhor.

JOGO TRANQUILO:
Esdras não seria o seguro romancista que é, se o seu Opus 14 terminasse no teórico final da primeira metade. Não só pelo que sua trama ainda lhe poderia render. Mas porque o livro soaria falso. Houve um momento em que sua leitura me fez lembrar um dia, no final dos anos 40, começo dos 50, quando – por volta dos dez anos de idade e doido por histórias em quadrinhos – vi uma coleção de revistas românticas de minhas irmãs, Grande Hotel, da Editora Vecchi, com tantos rapazes e moças belíssimos – olhos verdes, azuis e até lilases, como os, raríssimos, de Liz Taylor – e perguntei:
– Wilma, Wandyr: existe algum lugar em que todo mundo seja bonito assim?
– Tem: lá em Hollywood.
Pois convido o leitor a dar uma olhada nos tipos d'A Rainha do Calçadão, primeira parte:
A filha chegou com um rapaz alto, moreno, olhos verdes, camiseta apertada, braços musculosos (pág 17). Mamãe ainda é jovem, atraente, bonita, está cheia de admiradores (35). Ana Madalena tem rosto bonito, olhos verdes, grandões, lábios grossos, sorriso maroto (...), o pescoço e os ombros são lindos (38). Olhou pra os seios de Lana. Era o que mais gostava no corpo da namorada. (...) nem grandes nem pequenos. Na medida exata. (...) O bumbum também era lindo. (...) Um cara alto, louro, bonitão, de mais de dois metros de altura, de terno e gravata (51). Gregory (...) moreno alto, bonitão (63). Quarenta e poucos anos, corpo de atleta (170). Morena magrinha, de olhos verdes e cabelos compridos, uma fulana como essas que malham diariamente nas academias (...) Corpo maravilhoso, uma bundinha de nada, mas duríssima, e peitos pequenininhos, bem firmes (178).
Hoje minhas irmãs diriam:
– Se esse tipos existem? Na novela das oito!

PREOCUPAÇÕES ESSENCIAIS: SEXO E GRANA
Pág. 38: Vai a todos os lugares grã-finos, está sempre bem acompanhada, gente de grana (...). O certo é que Ana Madalena levou um bom dinheiro, ficou com o apartamento da Rua Redentor, arrumou emprego público, desses em que a pessoa não precisa ir, ganha um brutal salário (129): Com o salário do diário da zona sul, Otávio não poderia mesmo ficar pagando aqueles jantares, havia certo constrangimento e, como ela recebia boa mesada dos pais e tinha algum dinheiro na poupança, era natural que pagasse a sua parte (26): No Brasil tem dois milhões e seiscentas mil mulheres a mais do que homens (...) Aqui no Rio estão sobrando 362.020 mulheres (17): Renato decidira sair de casa no fim do mês, tão logo recebesse da Companhia o salário e algumas comissões atrasadas (27): Que boca bonita tem esse cara! Estou toda arrepiada. Santo Deus! (21): É um dos chefões da Companhia, mas não tem grana. No início eu pensei que ele queria se encostar na mamãe. Tua mãe é rica? Ela tem doutorado, ganha direitinho como professora na Unibarra, meu pai dá uma boa mesada, o apartamento é nosso, não temos grandes problemas (34): Às vezes eu penso que o jogo é simples, mas as mulheres gostam de complicar. Você me dá sexo, eu lhe dou um pouco de carinho e tomo conta de você (26): Meio velhote, 42 anos de idade, divorciado, sem filhos, belo apartamento na Lagoa, casarão em Angra, automóvel importado (37): Aconteceu. Eu estava nervosa, sempre é assim na primeira vez, numa certa hora, entusiasmada, deixei de cerimônia e me soltei. Eu mesma fiquei espantada com meus gritos. Biguá! Meu macho, meu amor. Vai, Biguá! Vai! Vai! Não para! (33): Enquanto ela, coitada, vive do salário da Seguradora e de ajudas eventuais da mãe e do pai (43): Qual é o problema de transar com um amigo e depois com um amigo desse amigo? (37): Daqui a pouco sai o contrato com a tevê, eu não vou correr esse risco (50): Você leu o romance do Roberto de Aquino? Tem uma ricaça (...) que quando chega o orgasmo grita enlouquecida: Tegucigalpa! Tegucigalpa!

SÍNTESE:
127, Raquel:
A vida de uma mulher é bem mais simples. Quando tem quinze, dezesseis anos, seus problemas se resumem em como e com quem perderá a virgindade; e, depois, como arranjar dinheiro para ir viver sozinha num apartamento longe dos pais.
Pág. 149:
Estaria ficando apaixonada pelo Renato? Ana Madalena sabia que ele há muito tempo tinha caso com Luciana, mulher do Maurício.

A MISÉRIA MORA LONGE:
Pág. 222:
As crianças moribundas da Somália, que milhões de espectadores olhavam avidamente na televisão, não estão mais morrendo? O que foi feito delas? (...) A Somália ainda existe? Será que existiu mesmo, algum dia? Não seria apenas o nome de uma miragem?

DESCRIÇÕES E DIÁLOGOS:
Lembro-me de uma grande lição de Lukács, em que – servindo-se de decisiva corrida de cavalos, que marca tanto Madame Bovary como Ana Karenina – mostra-nos que Flaubert, não muito feliz, nisso, descreve o hipódromo, depois narra o drama, enquanto Tolstói, magistralmente, descreve-o enquanto narra. Esdras abre seu romance aprimorando o autor russo, nesse sentido, fazendo – de cara – com que Luciana entre na própria cozinha, que ele não nos diz – explicitamente – como é, adiantando-nos, apenas, que a personagem fica sabendo, por um bilhete da filha, pendurado na porta da geladeira, que a moça acabara de deixar o apartamento pra viver só, com o que as pernas dela tremem... e ela vai pegar uma garrafa de uísque.

É incrível como ele consegue nos pôr um cenário em frente, sem se referir a ele. Na página 318 temos outro exemplo:
Cheio, o Papa Hemingway. Rapazes com jeito de intelectuais, professores de faculdade, meninas fazendo pose de gênios ainda não reconhecidos, quarentonas com roupas estranhas, simulando descontração, velhotes bem conservados, alguns estrangeiros e muitas, muitas garotas de programa.

Raramente Esdras faz uma descrição de fato. E, quando a faz, sua intenção é evidente. Dedica metade da página 53 para nos mostrar o apartamento de Amaro, que dá à Paula a impressão de estar entrando no cenário de um filme de ficção científica, mas que faz a mãe dizer, na página 241: nunca vi nada mais cafona.

NOVELA DAS OITO:
O sujeito mais bem sucedido, no livro de Esdras do Nascimento (que é doido por xadrez, Bach e tênis ) é o romancista Roberto de Aquino (doido por Bach, tênis e xadrez). O atestado máximo disso é que a nova novela das oito é adaptação de uma de suas estórias.
Pág. 245:
Novela das oito. Lana não perde um só capítulo. Adora. Bobagem pura. A grande vantagem é que pode passar dias sem ver. Quando volta a assistir, é como se não tivesse havido interrupção. O desenvolvimento das tramas é lento, repetitivo, primário, feito de maneira idiota. Mesmo assim...
286:
Raquel gosta de assistir às novelas. Por mais bobas que sejam, são sempre benfeitas, lindos os cenários, maravilhosas as mulheres, tesudíssimos os homens. E não precisam ser vistas todas as noites. Se alguém não puder assistir a três, quatro capítulos, não perde nada. As ações se desenvolvem tão lentamente, que é impossível perder o fio da narrativa. Daí, talvez, o seu sucesso.
Exatamente assim é a “primeira parte” do romance de Esdras. O desenvolvimento das tramas é lento, repetitivo, primário – só não digo que feito de maneira idiota. Pelo contrário. Repetindo: as ações, aí, se desenvolvem tão lentamente que é impossível perder o fio da narrativa, mesmo que pulemos algumas páginas dela. Daí as opções cortazarianas oferecidas na abertura do volume: Sete maneiras de ler o romance. Aliás: oito.

Quando, no entanto, eu me perguntava É possível tanta superficialidade?, Esdras vira a mesa. E cresce, fazendo crescer, também, a parte já conhecida, por lhe dar sentido. Ou seja: ele faz como El Greco no Enterro do Conde de Orgaz, em que a metade inferior é nitidamente Ticiano, a de cima, Tintoretto. Embora a relação, no caso, esteja menos terra-céu do que – igual ao jogo da amarelinha – céu-inferno. É como se ele, depois de nos mostrar a clara Holanda setecentista de Vermeer, nos exibisse a tenebrista, de Rembrandt. Ou sucedesse a Rússia vista por Tolstói pela de Dostoiévski. Porém tudo com situações que tornam Rembrandt e Dostoiévski ingênuos, vide cena de Raquel com seu vibrador (pág 235), o suicídio de Valdice (238), o de Chico (irmão de Lana) por causa do casamento do amante dele, o Narigudo (349), o fim de caso das lésbicas Laura e Luciana, esta mãe de Lana (295), o fim do caso de Lana com Otávio (Não aguento mais essa tua sacanagem de viver se encontrando com outras mulheres e me fazer de pateta) (298), a cena em que Flávio diz pra Raquel que a mulher dele já sabe de tudo (Teve um ataque de raiva, quebrou a televisão, os lustres da sala, derrubou as cadeiras, fez um estrago daqueles no apartamento, pegou as crianças, foi pra Florianópolis) (309). A cena dura e crua em Luciana conta tudo pro Renato. (Ele: Você bebeu, meu amor? Não bebi porra nenhuma! A Laura é minha amante, seu idiota, seu hipócrita.) (323). A cena em que Ingrid se assume puta e que com isso está se dando muito bem. (Seria tolice se deixar levar pela soberba). (329). A sequência em que a mesma Ingrid vê seu cliente Lustosa ter o carro trancado e uma loura meter-lhe cinco tiros (Minha vida virou um inferno) (338).
E passamos a crer que estamos, realmente, lendo um romance carioca.
Imagine o que Esdras faz com a Rainha do Calçadão!
Escatologia pura. E ele põe aí Nelson Rodrigues no bolso.
E tira sua conclusões.
Na página 317, Paula diz:
– Nas quadras de tênis não há muitos lugares onde as bolas possam se perder, mas sempre desaparecem. É a vida delas. Vivem querendo se perder. São como as mulheres.
Roberto de Aquino, 346:
– É por isso que eu escrevo: para tirar meu rabo da reta, para sobreviver neste asilo de doidos que é a cidade do Rio de Janeiro.
Lana, 349:
– E Deus, hein? Como entrava nessa história? Seria Deus, em essência, uma entidade sádica?

CLOACA MAXIMA:
Há uma longa e detalhada descrição de Esdras, na pág. 395, uma reportagem lida sobre a obra que o belga Wim Delvoye (personagem verídico) expõe no New Museum of Contemporary Art, Nova York: Cloaca nova e aperfeiçoada, máquina de onze metros de extensão, dois de altura, 76 cm de largura, que transforma comida em fezes, que são vendidas em jarros, mil dólares a unidade.
421:
Todos nós devemos parecer ridículos do ponto de vista de um observador imparcial. E nós todos, inclusive o observador imparcial, devemos parecer ridículos quando observados pelas montanhas. Ou pelas nuvens. Ou pelo gato que ronrona no nosso colo.
Romance doloroso, esse, do Esdras.
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