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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Bibliotecas (Tânia Du Bois)


Folheando a revista, li: “Bibliotecas não se restringem ao espaço em que se instala a coleção de livros... elas também se transformam em eficientes elementos decorativos...”

Essa sugestão é insensata, porque a criação de uma biblioteca predispõe deixar os livros expostos nas prateleiras, para facilitar o manuseio. O ideal é tê-los para lê-los e não para decorar o ambiente. Entretanto, por muitas vezes, ficamos reduzidos a ler e ouvir esse tipo de tragédia. É preferível transformar essa tragédia em suposto olhar, com profundidade, num passe de gestos e sentidos, onde historicamente permaneceria a alegria da leitura e o mistério das palavras, no hábito como fórmula simples e preciosa.


Pedro Du Bois expressa que, “Na biblioteca / os livros se espreitam / pelas lombadas //...as palavras encadernadas / encerradas em cada volume / encarceradas em parágrafos / circunscritos // nas bibliotecas / a vida nos espreita / em cada volume/ que deixamos de ler.”

Pergunto se é possível, para quem gosta de ler, viver num mundo sem livros. A resposta está na biblioteca que reúne as obras e é onde encontro o que procuro: emoção.

Na biblioteca, os livros se sobressaem no espaço, me atraem visualmente. As obras são destacadas em jogo de luz e sombra, curiosidade e vontade, prazer e lazer. Desse olhar, a biblioteca traduz o ambiente: estar na companhia dos escritores (mesmo depois de mortos). Ao considerar o gosto de cada leitor, o estilo está impresso no imaginário, para vivenciar a fase marcada pelo livro.

É fácil ler o que os outros escrevem; ninguém muda a condição de única arte: a sabedoria se conquista com as mãos, no momento em que pegamos o livro na estante. Conciliar o hábito de ler com o prazer das descobertas é como se o olhar fosse um espelho, a postura está na força do reflexo da arte.

O fundamental em nossos atos é que eles determinam as linhas de nossos caminhos; é pela leitura que nossa divindade se revela. Ler revela processos do pensamento e tem como resultado a sensível imagem sobre nós mesmos, então, o verbo se faz voz, como em Claudinei Vieira, “Literatura não é produção da realidade (assim como nenhuma arte). É um reflexo, um comentário, uma postura, um ponto de vista do autor para o que lhe acontece ao redor.”

O que me provoca o desejo de ler, o saber, a descoberta ao pegar o livro na estante? A cor e a textura da capa? O livro com lombada? O livro barco? Para mim, todos os livros são ousados, dão personalidade às palavras e aos autores. Sobre o poema, penso ser configurado em momento especial, com visão de nova perspectiva e com a possibilidade de realizar a troca entre autor e leitor.

A busca na literatura é sempre pela obra que combina com o leitor. A escolha acertada possibilita conviver mais com os escritores, e isso nos leva a não abandonar o livro e nem deixar de frequentar a biblioteca. Até porque, o livro é o retrato emocionante e verdadeiro da imaginação, e consequentemente, da arte de viver, como em Nilto Maciel, “... o carteiro, dia sim, dia não, grita meu nome. Ocupado, também grito: Pode jogar por cima do muro. Não posso, seu Nilto; é LIVRO. Zeloso não quer deformar o objeto.”
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