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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Alguns versos de Batista de Lima dignos de moldura (W. J. Solha)




Como costumo ler com marca-texto na mão, O Sol de Cada Coisa - de Batista de Lima - me proporcionou bela coleção de achados:


Palavra são panos poucos
a cobrir tantos abismos

um domingo
que se cansou de ser semana


a procissão se indo
com um santo de costas
no vazio do andor


Aquele homem que passa na rua
pensa que está sozinho
mas aqueles passos não são seus
como estes versos não são meus


uma gaveta em que se
perdeu a chave
uma casa em que se
perdeu a porta


Ai de mim se não fossem
(...) o clamor dessas páginas brancas
(...) e esse rancor submerso
no subterrâneo das palavras


Há dias em que pareço (...) um policial sem farda
Noutros (...) com Roberto Santos Cunha
(que não sei se existe)
(...)
Há, no entanto, certos dias que se tornam
quase insuportáveis
Nesses eu pareço comigo mesmo


A segunda-feira amanheceu
de cara feia
batendo às portas
e acordando a todos
nervosamente.


Encheu os coletivos
de descontentes
entupiu as ruas de carros
e andantes apressados
A segunda-feira
estava naqueles dias


Na primeira viagem
estranhei não poder levar o açude
e os potes
Na segunda (...) tentei
levar o alpendre


Se realmente partires
podes levar o piano
(...) o abacateiro
e as três marias


Foi como se tivesse bateado durante a manhã inteira e me visse, agora, bem mais rico do que ao amanhecer.
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