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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Folhas verdes e pimentões no pré-carnaval (Nilto Maciel)



Todo dia me prometo ler, pelo menos, 50 páginas de livro, a cada 24 horas. Toda manhã, antes de pôr os pés no chão, me proponho escrever uma crônica/resenha, de dois em dois dias. Há anos me puno por não cumprir tais prometimentos. Qual a punição? Chamo-me (entre quatro paredes) de mentiroso, safado, enganador, velhaco e mais uma centena de substantivos e adjetivos de uso comum. Insatisfeito com a brandura do castigo, aplico-me incontáveis bordoadas imaginárias (como o fazem aqueles penitentes cristãos no sertão nordestino e faziam aqueles pobres europeus da Idade Média). Na verdade, termino o julgamento tão benigno quanto uma monja virgem e apenas me imponho a tarefa de engendrar ou tentar esboçar um conto. Se não tanto, pelo menos rabiscar o futuro feto, seus contornos de monstrinho.

Nos últimos dias de janeiro (não sosseguei nem no dia 30, data em que comemorei 67 anos) e nos primeiros de fevereiro, li quase 700 páginas. Metade de poesia (verso), metade de prosa de ficção. De um lado, um romance publicado pela primeira vez em 1967, de um escritor nordestino pouco conhecido (Renard Perez nasceu em 1928, em Macaíba, Rio Grande do Norte) e um conjunto de contos do jovem Victor Paes. No bloco poético, as melhores composições de um poeta consagrado, o baiano Ruy Espinheira Filho, nascido em 1942, e a estreia do garoto carioca Lohan Lage Pignone. Que me desculpem os velhos Renard e Ruy por juntá-los aos meninos Victor e Lohan. Mas é ótimo estar na companhia das crianças, principalmente das que sabem ler e escrever. Peço desculpas também aos principiantes, por mostrá-los ao lado de escritores veteranos. No entanto, é muito salutar essa salada, sobretudo quando as folhas verdes abraçam pimentões e beterrabas vermelhos, compostos da seiva de muitas leituras.

Deixemos de lado essas delongas e comecemos de fato a crônica. Comecemos pelos mais velhos, como se fazia antigamente. Pelo romance, de Renard Perez, Começo de caminho: o áspero amor (Mossoró: Sarau das Letras/Instituto Pró-Memória de Macaíba, 2010). Na apresentação desta 3ª edição, o abnegado escritor/editor Clauder Arcanjo, que é cearense, mas adotou a terra potiguar como sua também, refere-se a Renard como “um autor que sabe dominar o universo narrativo como poucos, numa inteireza de estilo e ritmo. Numa prosa enxuta. Contida, segura, zelosa, e avessa às afetações estilísticas. Sem presunção; sereno, apesar de grande”. A narração se mostra minuciosa, como se o narrador estivesse a um palmo da cena. Além disso, não se faz à distância, no tempo, como a de acontecimentos passados há tempos. Em certo sentido, o narrador lembra diretor de filme ou cinegrafista.

Muita gente boa e famosa comentou a primeira e a segunda edição da narrativa de Renard, como Otávio de Faria, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Antônio Olinto e Fausto Cunha. Eu só conhecia dele os contos e novelas de Os sinos/O tombadilho, reunidos num só volume, Civilização Brasileira, 1970.

Em salto gigantesco no tempo, passemos ao segundo tomo desta relação: Deus ex machina (Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2011), de Victor Paes. Mudemos também de gênero: do romance ao conto. E de modo de narrar. Italo Moriconi, nas abas, lembra Cortázar, para elevar as peças de Victor à categoria de “vinhetas narradas na velocidade da luz (ou dos neutrinos)”. E se refere aos “recursos estilísticos e poéticos manejados pelo autor, com deslizamentos (metonímicos), elipses e alusões produzindo o mencionado elemento encantatório”. É intrigante esse tipo de literatura. O título do primeiro relato, “Deus ex machina” (também o do conjunto), arrasta o leitor por mãos, olhos, pensamentos e palavras de uma criança, que contam uma história. Qual é a trama? Cristina, uma menina a quem a mãe não quer ouvir, por ser criança (?), acha na rua um papel. Ora, tudo isto ou só isto (que para alguns não é nada, não dá uma história) é o drama vivido pela pequena, contado a conta-gotas, sem evasivas e também sem muita clareza (para deixar no leitor a sensação de mistério).

Passemos, então, aos poetas. Primeiro o mais velho: Melhores poemas (São Paulo: Global, 2011), de Ruy Espinheira Filho. O volume foi organizado e apresentado por Sérgio Martagão Gesteira. Conheço-lhe o nome de 1976 (época de O saco), quando saiu vencedor do famoso Concurso Nacional de Contos do Paraná. Depois o perdi de vista. Nesta volta a ele, alcanço-o mais sabido. Do ensaio de apresentação da coletânea colhi observações como esta: “A densidade lírica dos textos de Ruy Espinheira Filho qualifica-lhe a obra como das mais consistentes e significativas no panorama da poesia brasileira contemporânea”. E este trecho da frase de encerramento: “E é também através delas (imagens) que se pode apreciar e ouvir, pela força da evocação, o canto abissal do tempo a fluir e, porque tangida na lira marcadamente viva de Ruy Espinheira Filho, a música que modula, entre a tenuidade do encanto e o peso das sombras elegíacas, a mais rara consonância e a dissonância humanas”. Captei também algumas palavras essenciais que definem a poesia de Ruy: “quadros líricos” e “perpétua recordação”, de permeio com os aspectos formais: “mescla estilística”, “poemas narrativos”, em “variado tratamento de ritmo e a estrutura estrófica a fim de adequá-los às modulações dos temas e dos motivos e, mesmo, a “disposição gráfica” (...).

Por derradeiro, o escrito de Lohan Lage Pignone: Poesia é isso (Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2011). O impresso se inicia com um prefácio de Simone Prado Ribeiro, que analisa alguns poemas. E constata: “A preocupação do autor com a estética em seus poemas repletos de sentimentos e sensações, o uso de metáforas e o jogo de palavras ressaltando a sonoridade conferem beleza musical e semântica aos versos que cintilam profundo lirismo presentes em suas construções poéticas” (...). Lohan nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Graduado em Letras pela Universidade Estácio de Sá, tem apresentado na Internet seus poemas e de outros poetas na fase dos primeiros passos. Como acredita que “se aprende a ser poeta”, promete mais versos e mais publicações.

E assim me preparo para o próximo carnaval.

Fortaleza, 10 de fevereiro de 2012.

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