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quinta-feira, 19 de julho de 2012

Fragmentos e desculpas (Henrique Marques-Samyn)



A certa altura de Libido aos pedaços, afirma Otávio, o protagonista: “Acho que já é público. Freud também tinha sua adorável cunhada − Minna Bernays − que, dedicada, o acompanhava discretamente em suas viagens de observações, estudos, pesquisas, lazer, férias, sei lá mais o quê. Tenho cá minhas suspeitas. E já andaram pesquisando, falando e publicando coisas assim. Resumindo, Minna Bernays ficou solteira a vida toda. Se Freud não explicou isso, Otávio Nunes Garcia reverbera que o eu de todo mundo tem seu duplo vagabundo”. Otávio insinua, suspeita, desconfia − não só nesse trecho, mas ao longo de todo o romance. Não é um sujeito muito confiável, se é que há alguém digno de confiança no romance de Carlos Trigueiro. Por outro lado, as frágeis justificativas e os patentes cinismos que permeiam as relações humanas figuradas em Libido aos pedaços fazem do romance uma acutilante peça de reflexão sobre a sociedade contemporânea.

Otávio, o biólogo, se envolve com Larissa, sua cunhada e psicanalista. O affair é, portanto, duplamente clandestino, violando laços profissionais e familiares − e seus partícipes bem o sabem. Não obstante, tanto Otávio quanto Larissa justificam-no, sem pesar ou pudor, e prontamente recorrendo aos malabarismos da razão. Determinações biológicas e impulsos subconscientes se mesclam, compondo tentativas de legitimação engolidas sem muita dificuldade. A lógica é, desse modo, posta a serviço do desejo, com a amena conivência dos amantes − cuja conduta é igualmente autorizada por preconceitos e estereótipos perpetuados pelo senso comum. Movidas pela intuição, mulheres desvelam cada gesto e seduzem a cada instante; canalhas incorrigíveis, homens são incapazes da menor fidelidade. Libido aos pedaços está cheio dessas generalizações, subterfúgio sempre disponível para justificar os dolos. Ao menos, na versão de Otávio. Porque, no fim do volume, Carlos Trigueiro cede a voz a Larissa − que desmente o que Otávio dissera, o que enseja novas explicações e justificativas. O que Otávio, o mitômano, o “extraordinário farsante”, não teria inventado? O que Larissa, esquiva e erudita, não inventa em réplica?

Não obstante, o que o “pedaço” final do romance deixa claro é que a própria construção da obra se insere no jogo de farsas que constitui, em larga medida, a sociedade em que vivemos. As versões de Otávio e Larissa são incompatíveis; toda a história em torno da publicação do romance por exigência testamental, que encerra o volume, não soa verossímil − o que não diminui o seu valor. Fragmentário, eivado de escusas, Libido aos pedaços espelha literariamente a fugacidade das relações humanas no mundo contemporâneo.

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