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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Mesa de leitura (Eugênio Giovenardi)




                               

Ao redor da mesa, os leitores olhavam-se, sorriam, pensavam em voz alta. Éramos oito. No meio deles, via-me pequeno, feliz, com uma pontinha de inveja. Eles expressavam pensamentos surpreendentes com poucas palavras. E esses pensamentos, extraídos da experiência individual, de histórias, de fatos, de conquistas da mente, de decepções, de esperanças, enchiam livros.

Meus convidados presentearam livros uns aos outros. Cada um de nós tinha sob os olhos a alma inteira desses amigos que distribuíam suas palavras a leitores desconhecidos. Na ponta da mesa, estava Clarice Lispector ao lado de Oscar Wilde, depois Graciliano Ramos, Hannah Arendt, Carl Sagan, Marguerite Yourcenar, Oswald de Andrade.

– São bilhões e bilhões de astros, galáxias, estrelas e de seres vivos, disse Carl Sagan para espanto de todos.

– O desespero é atitude digna e sinal de inteligência diante do que é desconhecido, refletiu Hannah Arendt.

– E todas aquelas pessoas se reconhecem pelos remendos, pela roupa suja, pela imprevidência, pela alegria, acrescentou Graciliano Ramos com uma pitada de angústia.

– A eternidade, o que é? A mesma coisa de outra forma, revelou Marguerite Yourcenar com sorriso indefinido.

– Somos uma raça anã teimosa que um dia vai talvez reivindicar o direito ao grito. Será a hora da estrela desconhecida, sussurrou Clarice Lispector olhando para Carl Sagan.

– No silêncio tique-taque da sala de jantar, informei mamãe que não havia Deus porque Deus era a natureza, contou Oswald de Andrade.

– Viver pelo prazer! Nada envelhece tão bem quanto a felicidade, disse Oscar Wilde.

Da esquina da mesa, lembrando que a “felicidade se acha em horinhas de descuido”, mudo e atônito, olhei para aqueles rostos brilhantes e desejei estar com eles na eternidade.

Brasília, 2/12/2012.

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