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sábado, 23 de março de 2013

O conde De Volney (Franklin Jorge)




Constantine François Chasseboeuf Boisgirais jamais se tornaria popular com este nome, mas, sim como Conde de Volney, [Craon, Anjou, 1757 - Paris, 1820.]
Herdeiro do racionalismo de Helvétius e de Condorcet, sempre esteve o Conde de Volney ao lado do humanismo e da razão. Em As ruínas de Palmira e A Lei Natural – suas obras magnas – estuda a origem das sociedades e das grandes religiões, e do homem submetido à escravidão que o impede de dispor de sua vida de acordo com a razão e a lei natural.

Uma nota biográfica inserida numa edição antiga informa que, além de ter estudado direito e medicina, De Volney pertenceu ao grupo que considerou Kant místico e visionário; um espírito, em síntese, sobrecarregado de preocupações e sonhos teológicos; um pensador da Ilustração.
Orientalista, deu inicio ao ciclo de viagens ao Oriente. Percorreu assim países distantes, o Egito, a Síria, a Palestina, o Líbano e outros. E não o faz para explorá-los e envaidecer-se com sua cultura, mas em busca da origem de todos os cultos. Viajou com o fim declarado e insolente de estudá-los e de amalgamá-los – todos os cultos – numa superstição única.
Seu livro mais famoso abre com uma prece solene e elegíaca às ruínas e sacros e silenciosos muros da antiguidade. No décimo ano do reinado de Abd-ul-Hand, filho de Ahmed, imperador dos turcos, De Volney está às margens do Orontes, na cidade de Hems, próxima a Palmira, situada no deserto.
Nesse cenário arenoso e inóspito, de Volney decanta os vestígios do tempo, meditando sobre o apogeu e a queda das nações que, por excesso de riquezas se deixaram aniquilar pela iniquidade. E, dessa forma, nos consola dizendo que na vida tudo é mutante e transitório e que só nos justificamos através da criação de uma obra. No seu caso especifico, de uma obra voltada para a educação dos povos.
Iluminado pela experiência e amadurecido pela reflexão, caminha o conde entre as ruínas da remotamente opulenta cidade que engrandeceu o reino da Etiópia. Pensa na orgulhosa Tebas de Cem Palácios, progenitora de cidades, monumento dos caprichosos da fortuna, havia muito desaparecida.
O reino de Palmira, outrora feliz e próspero, arruinou-se e desapareceu do mapa. Agora, assenhoreada pelo deserto e amortalhada pela areia, o conde a contempla e há de lembrar-se de Longino que, de professor em Atenas passou à corte de Zenóbia, rainha de Palmira, que tinha os sábios e os escritores em muito apreço. Viveu e morreu ali o notável retórico do Século III depois de Cristo. É ele o autor de um pequeno tratado filosófico, Do Sublime – o equivalente de A Arte Poética, de Horácio, o mais misterioso dos poetas…
Sempre o conde tem-me acompanhado e instruído. Meu primeiro exemplar do seu livro, eu o ganhei de um tio que o lera e anotara. Deixei, por minha vez, os vestígios de minhas leituras nestas páginas que agora perlustro numa edição popular que um velho amigo, ao passear pela Espanha, adquiriu pensando em mim. Eis o que escreveu Arruda Sales, em julho de 1987, em Madri, na folha de rosto de As ruínas de Palmira:
Ao amigo Franklin uma pequena lembrança para que sempre esteja ao lado dos amigos e da razão, assim como o Conde sempre esteve.
Embora seja a obra pela qual se fez mais conhecido, prefiro A Lei Natural às Ruínas de Palmira, que o conde elegeu entre outras ilustres ruínas. Seria a Lei Natural o catecismo urdido por De Volney como um desses bons livros elementares. Um desses livros que, conforme confessa, mais custa compor e, ainda mais, ler, pois exige do leitor algo em troca: que pensem e reflitam as virtudes morais.
A primeira edição deste escrito foi publicada com o título de “Catecismo do cidadão francês”, em 1793, e influenciou muitos pensadores e intelectuais humanistas no mundo inteiro. Aqui em Natal, era seu leitor o grande estilista Edgar Barbosa, que chegou a escrever a seu respeito com o respeito e admiração devidos à inteligência e ao bom senso.
De Volney desejava que A Lei Natural se tornasse um livro nacional e uma leitura comum de toda a Europa. Porém, ele mesmo pondera que a causa de sua muita concisão não seja suficientemente o objeto de um livro apto para as escolas populares. Animava-o, porem, a idéia que o fazia contente, porque tinha a consciência de que abrira o caminho que se há de seguir para fazer outro melhor. Contém os princípios físicos de moral extraídos da organização do homem e do universo.
Em seu ideário que presume a lei natural, o conde reflete entre outras coisas sobre as virtudes individuais, domésticas e sociais da justiça, da temperança, da continência, além do valor e da atividade, esperando que dessas lições resultem a construção de um novo homem regido pelos bons costumes que com pouco se satisfaz e que, por não desejar mais que o necessário, logo se livra de uma multidão de cuidados, agruras e afãs e, sobretudo, dos agravos das paixões.
De Volney, autor de nobres utopias, sonhava com um mundo erigido pelo esforço igual e comum das forças de homens livres e exaltados pela paixão da pública felicidade que se sobreporiam à parcialidade dos ambiciosos e do indivíduo, considerado um homem sem relações com os outros. E, pensando assim, nos ensina que o contrário da ciência é a ignorância e que a necessidade é a realidade da ignorância associada, às vezes, à vaidade do saber.
Sua filosofia, portanto, poder-se-ia resumir em axiomas elementares, tais como: conserva-te, te instrui e modera-te. E, sobretudo, que o homem viva para seus semelhantes, para que eles vivam por nós.

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