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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Estalo e estampido (Rocha Oliveira)





A noite branda e tranquila; quase plácida. Se lhe irrompia o silêncio tão-só o ladrar ou o ganir d'um cão vadio, saudoso ou solitário. Pendiam onze e cinquenta da parede. Bem como – reluzente – uns mais segundos por sobre um velho criado-mudo. A luz escassa e sombria da minguante veio deitar-se, indolente, aos pés da cama. U'a brisa fresca e olorosa lhe abriu alas como por entre as cortinas de linho-cânhamo. Bailavam estas como ao som da quietude; entorpecidas por um amável e encantador jasmim-da-noite. O casal não parecia se importar. E, indiferente à sua presença, deixou-lha repousar; como se faz a um indigente ou mesmo a um gato impertinente...

Um estalo! Um ruído indistinto e assim repente. Subiu as escadas, deslizou pelas paredes, rastejou pelo soalho; espremeu-se entre a porta e a soleira... Sem escusar-se ou aguardar um só convite, achou não mais que três orelhas – dormente uma e preguiçosa; e resoluto, adentrou-se-lhas todas em visita. Não muito alto, todavia; ou tão mais abafado por um andar acima e tantas mais paredes, portas e ladrilhos. Fora mais que o bastante, no entanto, a despertar a quem em verdade não dormia; a quem apenas madornava. Tão mais a quem, em vigília, embalava a própria insônia com o futuro e o passado num só e mesmo agora – ansioso e preocupado.

— Ouviu issu, Carlus!? disse a mulher revolvendo-se com espanto.
— Hum!? Ouvi, sim!... tornou-lhe o esposo, erguendo-se de súbito.
— Que qu’é issu!?
— Sei lá! Vô lá vê.

Carlos calçava as sandálias, às pressas, – confuso e estonteado –, quando em respostá-la num tom como entre o ríspido e o temeroso.
— Hein!? Ó, cuidado hein, mô!
— Tá, Tereza; fica calma, mulé...
— Calma, calma... Vô vê as criança, issu sim.
— Não, não! 'cê fica aqui! Pó’ de'xá qu’eu olhu as crianças. Vai qui tem alguém aí?...

Não lhe ouviu Tereza, entretanto; malgrado o tom e a advertência. Seguir-lhe-ia os passos, mal dera aquele outros tantos à sua frente. Seguiu, porém, tal qual fosse a sua sombra: sorrateira e acauteladamente. Incauto, o outro, seguiu passo; sem se dar conta desta teima da consorte. Não lhe censure acaso u'a boa esposa (submissa à moda do Corão, do Pentateuco); que era esta assim tão boa e tanto quanto boa mãe. Tereza o via, de esguelha, indo adiante; olhando-o calada, atrás do umbral. Semi-oculta a face, deste modo; de todo oculta pelo mais da escuridade. Respirava opressamente. E no busto mui evidente o grão alvoroço do coração. Se lhe depara a cerrar a antepenúltima porta, – a seguinte, à sua direita –, que dava entrada ao quarto do caçula. Fazia-o com o zelo e a cautela do bom pai, como a abocar a sua cria com ternura. Tão logo em vê-lo descendo às escadas, assim de modo vagaroso e comedido, dirigiu-se, logo após, ao mesmo quarto. Inda da escada, Carlos ouve – a um só tempo – como um farfalhar e um tilintar d’objetos e coisas várias; como se houvesse alguém a vasculhar gavetas a procura de algo... E do quê? dinheiro!? Pobre Carlos... Pobres dos Ferreira... Já não bastasse a inópia digna e, porém, inadimplente, vem mais um a subtrair-lhes o tão pouco!... “I o'tra vez, meu Deus du céu!?” exclamou ele, à surdina.

Dormia o filho Isaque; um sono brando e tranquilo qual a noite. Cobriu-o bem, a sua mãe; deu-lhe, ademais, um beijo à testa. Ufa... Um alívio. Resfolegou-se o espírito; a alma respirou à larga. O vento suspirava igualmente. Cerrou a janela; também a cortina – e como não bastasse a persiana. Vai saber... Senão um ladrão, decerto um resfriado! E este último sempre o toma de assalto. Já não bastasse o risco do outro... “Cruz-credo! ponderou; e o Carlos, hein?...” E sabe Deus se lhe ataca a bronquite!... Pneumonia... Nossa! E podia jurar se lhe ouvir chiando o peito. Tudo bem, tudo bom; mas e a Carol?...
carolzinha15@hotmail.com [23:58] diz:
oiêee amr!!! *---*  td e vx?
lekinho_alex@hotmail.com [23:58] diz:
bem tb =D
carolzinha15@hotmail.com [23:59] diz:
ah q bom more *---*  q faz d bom aí?
lekinho_alex@hotmail.com [23:59] diz:
nada   so tc msm e vc
carolzinha15@hotmail.com [00:00] diz:
só tc e ouvindo música bb =b
lekinho_alex@hotmail.com [00:01] diz:
hum  maiis tah ouvindo oq amr kk
carolzinha15@hotmail.com [00:01] diz:
ahh d td um poco!!! kk
lady gaga, rihanna e agora funk   adorooo kkkk
lekinho_alex@hotmail.com [00:02] diz:
kkkkk mee amarro lol   q tu fez hj amr
carolzinha15@hotmail.com [00:02] diz:
ah nada  moh tédio aff =§  pera amr, já volto S2

Não; a Carol não ouvira nada e nem ninguém. Estava como em outro mundo: então em seu mundinho virtual. Preocupava-se apenas com o seu mais novo namorado e com o mais novo sucesso de um tal MC Tequinho. Ouviu tão-só a mãe chamar-lhe à porta, à meia-voz, dando-lhe tímidas pancadinhas. Quis fingir estar dormindo, é bem verdade; porém a mãe lhe advertiu do fingimento.

— Carol!... abr’essa porta, filha! Eu sei qui 'cê tá acordada hein, garota.
— Ah mãe... unhá! Qui sacu, ah!... resmungou a menina com um muxoxo.

Não bastou sequer desligar o monitor. Tereza, ante a porta, vira o cintilar da tela transpassando-lhe as frestas. No mais, a música alta denunciava-lhe a mentira; e apesar da astúcia púbere e do fone. Abriu a porta. Entrou a mãe. Perguntou se estava bem. Ralhou consigo, em seguida, – em baixo tom –, como se a repreensão se lhe saísse por entre os dentes. A filha ouvia e redarguia com um desdém e um enfado adolescente. Tereza segredou-lhe a invasão, pelo ruído; o qual afiançou. Carol meneou a cabeça, com apatia; de todo incrédula da mãe e do relato: sabia que era assim de exageros, invencionices... Decerto, era não mais que um mero gato. Se ria de sua mãe e da confissão; mas, por dentro, muito embora. No máximo deixou escapar, e a um só canto da boca, um ar sardônico. Não temia nada e coisa alguma! indiferente a tudo e a todos; e tão mais destemida era, em estando longe do perigo... Fez entender que tinha sono; e como um sono de quem anseia muito a cama e o travesseiro. Ansiosa por “teclar” com o seu namo... Ameaçou lhe responder enquanto simulava desligar o seu PC. E, atabalhoadamente, deixou-lhe não mais que esta mensagem enigmática:
carolzinha15@hotmail.com [00:07] diz:
e u tteo cuu pa daa  mmorre
Bendito teclado... Repetiria aqui o ditado popular, mas creio estar assaz subentendido. Deu-se outro estalo, e mais outro; um estrondo, e tão logo um escarcéu! Na pressa, não houve tempo à correção. Carol e Tereza, sobressaltadas, se deram a gritos e a ademanes de histeria. Estavam trêmulas e esbaforidas; quase insanas! Carlos, por sua vez, como bramia enfurecido! E, furibundo, parecia brigar e esbravejar com um estranho. E praguejava! Dado que o não referisse por nome algum, senão por pseudônimos, era decerto adivinhar que, além de incógnito, o outro era também muito querido. Podia-se-lhe ver dando-se a murros e a pontapés! Ouvia-se ao longe como um patear esparso, estouvado; rijo, no entanto, e impetuoso. Bem como o estalar das havaianas. Mãe e filha se agarravam, em conforto e desespero. Conchegando-se, esta, inda mais àquela. Faz bem, – e ao menos nestas horas –, um bom e afável colo materno.
lekinho_alex@hotmail.com [00:02] diz:
tah amr
lekinho_alex@hotmail.com [00:05] diz:
cade vc amore
***
lekinho_alex@hotmail.com [00:08] diz:
q issoo karol  tah maluka
lekinho_alex@hotmail.com [00:13] diz:
falah algumna coisaa crlh#
lekinho_alex@hotmail.com [00:21] diz:
ah eh neh... eh asssim  tao tah entaum...
xau sua fdp@!!!!!!!!

Bom, na era virtual se lê o amor assim tão mais pela palavra – e ao pé da letra... Neste ínterim, contudo, acorda Isaque; de estalo, em frêmito – estremunhado. Quisera chorar e mesmo dar-se a abrir um berreiro, porém lembrou-se já contar seus seis e meio. E não era coisa de homem e nem bonito (assim aprendera desde os cinco), um hominho render-se assim a um choro bobo. Pois era um hominho e não chorou; meteu o choro goela adentro, até o esôfago! Entretanto soluçou por sua mãe... Esta que chorava qual a filha; que bem como sua mãe, se derramava. Sem pejo algum choravam ambas. Mas tudo se perdoa ao sexo frágil. Quem sabe, mesmo à viuvez! Quem sabe... Quem sabe à própria morte! Assim pensava a esposa, não obstante, aventando ora o luto ora a chacina. Quiçá um estupro! “Pobre Carol!... Eu já tô velha...”

— Vamo chamá a pulícia, mãe! alvitrou a jovem, tremeleando.
— Vamo sim, filha; vamo, sim! Cadê seu celulá? mi dá!
— Mãaaêe! entrementes, berrava o Isaque.

Saltara do beliche como fosse para o almoço ou pro recreio. Sequer deu-se por falta das sandálias e, descalço, foi ao encontro de seus pais. Não lhos deparando, todavia, senão u'a cama vazia e bagunçada; desesperou-se... Sentiu medo: arrepiou-se-lhe a espinha; um frio horrendo na barriga; um não sei quê de tudo junto e misturado! Apavorado, crendo-se só e desamparado, – abandonado! –, chorou, então, como criança... E as lágrimas, há muito represadas, vertiam-se-lhe dos olhos – cachoeira – salobre e caudalosa. Tão límpida a linfa quanto a alma pueril. E debulhando-se em lágrimas deixou o quarto de seus pais; e assim tão de repente quanto se lho houvera adentrado. Corria hora. Corria como corre um centroavante. E ao menos em sua mente, era um craque. Um “pereba” em verdade – dizem os colegas; porém isto não vem ao caso. Corria. E jamais o corredor fora tão grande – imenso – colossal! Corria. Corria assim como quem (ele próprio, por exemplo) foge ao bullying. E uma só era então a sua meta...
 — Isaque, meu filhu; eu tô aqui. – disse-lhe a mãe, inda do quarto de sua irmã.

Assim dizendo, e a um só tempo ao telefone, mandou a filha ir ao encontro do pequeno. A carolzinha fora ao passo de um só mando. Catou-lhe em meados do corredor; e, abraçando-o, tomou-lhe em seus braços. Com Isaque então ao colo, tornou logo aos pés da mãe. Tereza inda falava, tendo o aparelho como cosido à orelha esquerda (era canhota); mas ainda assim encontrou meios de regaçar o seu caçula. O qual viera desde a porta a abrir-lhe os braços. Suspirou... em profundo. E respirou assim também profundamente. E a mãe falava ainda:
 — Olha, eu num sei; mas parece qu’é um só! dizia ela a u'a atendente do 190.
— (Ok, senhora. Procure se acalmar, ok?... Qual o endereço?)
— Aqui é R. B*** de M***, nº 222; Grajaú – RJ.
— (Ok. Copiado, senhora. Aguarde só um instante enquanto eu encaminho a ocorrência aqui no meu sistema, ok?...)

Instantes depois...
— Alô?... Alô! Tá aí? tá mi ouvindu!? indaga a outra, impaciente.
— (Só mais um momento, senhora...)
— Ah sim...

Um momento depois...
— (Senhora?)
— Sim! – pigarreou; alô!
— (Já foi registrada a sua petição; e em instantes estaremos enviando uma viatura. Só recomendamos que vocês não saiam do quarto, de forma alguma; salvo como um último recurso, ok?... Procurem manter a calma, tá ok?... Boa noite.)

Manter a calma... Obviamente que aí falou quem desconhecia causa e uma Tereza. Esta que se roía por dentro; a filha, às unhas; e ambas de medo e apreensão. Isaque nada rói, senão o colo de sua mãe. Carol de pé, defronte esta, tendo os olhos fitos sobre a mesma – assombrados. Nem se dava conta do esmalte – hora alheia à vaidade, e de todo. Isaque era ainda um homenzinho, porém um homem deveras assustado. Tereza se não sabe o que era, o que fosse ou que seria; mas era mãe, sobremodo e sobretudo. Agitava ambas as pernas, aflitamente; o que servia a abrandar-lhe a tensão e como a amainar o próprio filho. Que não chorava, porém engasgavam-lhe os soluços.

Um novo estrondo. Sucedendo-o, grande alvoroço! Eram panelas, copos, pratos e talheres; tudo caindo; quase tudo em pedaços! Quiçá menor barulho produzissem, não houvesse acaso um só ouvido ao qual tanger. Mas fora u'a barulhada de escol! Ouvia-se também um esguichar d’água. Um ruidoso estilhaçar. Dispara o alarme de segurança. E eram xingos, berros, gritos – quase urros! Chorava o sexo frágil novamente. E o hominho não estava menos fragilizado: chorava sem reservas ou escrúpulos. Chorava... Chorava tão-somente. E hora berrava, igualmente, pelo pai:
— Calma, filhu! tornou-lhe o pai, lá da cozinha, onde estava.
— Paaai!
— Calma, Isaqui! respondeu com asperidade.

Calou-se o Carlos. E seguiu-se aqui um silêncio relativo.
— Carlus!?... uniu-se ao coro sua consorte.

Igual resposta? Nada!... Nem sequer um pio. Já um silêncio funéreo como invadiria toda a casa; não fosse o alarme, o esguicho e as vozes que alevantavam o andar de cima – e pois em choros e em clamores. Cessariam também estas; restando apenas um burburinho angustiado. Filha e mãe confabulavam entre si, ora supondo um fim o mais trágico e perverso, ora em desmentir o mau agouro. Compartilhavam hora a ideia de ir ter com o pai e o marido. Hesitando, incertas – temerosas. Se por um lado anuíam ao bom conselho da atendente, – por cautela ora, ora por força do temor –, por outro queriam muito ver o Carlos: acudi-lo; ampará-lo; quiçá ajudá-lo. Aplicar-lhe, quem sabe, – e ao menos –, os primeiros socorros. Reanimá-lo! Inda fosse a ajuntar-lhe os pedaços... Assim pensando e repensando; cotejando prós e contras; orçando ganhos, desvantagens; é que nada fariam senão estacar. Ora imóveis, ora andando a esmo pelo quarto. E o cômodo apequenou-se ante as passadas, que iam e vinham; sem ir, no entanto, a parte alguma. E mais um ruído! – altissonante! – estridente!

Era a alarma intermitente das sirenes. Não vinha uma, mas duas viaturas. Ficara, pois, subentendido um grão perigo: um assalto – um latrocínio – u'a matança! Vieram velozmente e de enfiada. Estacionaram em frente à residência. Logo apearam. Quanto à Tereza e à Carolina, a boa-nova deu-lhes força e coragem a transpor o medo e a porta; destarte, se arrojando escada abaixo. Assim fariam; e assim fizeram. Isaque, porém, tomou outro rumo. Seguiu passo, em seguindo os demais passos; porém quando estes desciam já os degraus, se detivera ao limiar – irresoluto. Volveu-se, então, pé ante pé. Não se soube bem o porquê; sequer se soube, na verdade. Carol e Tereza se foram num só fôlego, e não olhariam para trás.

Os policiais davam já voz de prisão, inda de fora. Com um rádio à boca, o tenente fazia as honras da milícia. Ameaçava, com voz firme e bem impostada, que se rendesse o invasor ou que então abririam fogo. Asseverava não haver ensaio ou blefe. Sem uma resposta, – ou sem resposta audível –, entreolharam-se os agentes, como que por um acordo tácito. Alfim, quando se dão a dar um aceno de cabeça, mútuo e afirmativo, aí é que veem o que seria o vulto de um homem erguendo as mãos em rendição. Parecia, aliás, suster u'a arma de grosso calibre e cano longo! E assim é que se deram a arrombar a porta, malgrado a entrega. No exato instante em que cruzavam então a sala de jantar, não mais que a filha e a mulher do meliante...
— Um raaatu!!! exclamaram mãe e filha, em uníssono.
— Um ratu!? emendou Tereza, logo após.
— Não, genti; é só um gambá!!! afirmou, assustado, o nosso Carlos.

U'a gambá... E sustinha hora o bicho pela cauda... Pensara ele, também, que fosse um rato; e um rato enorme! e sabe Deus do seu pavor às ratazanas!... Bem mais que estas, o dito é horroroso! Por isso mesmo deu-se todo o estardalhaço. Tudo equívoco e precipitação... Não havia assaltante ou assassino, senão o próprio! Um estampido! Deus do céu!... E vinha agora lá de cima. Cadê o Isaque!? Ó meu Deus!... Correram todos; adiante, os agentes. — Achu qui veiu lá du quartu! palpitou Carlos. — Isaqui! gritou Tereza. — É essi u mininu? indagou o tenente. — Sim! afirmou a família. Nem morto e nem mortes; senão que atirou contra a foto do avô defunto... Tomou a arma de seu pai, e do mesmo velho criado-mudo, – a fim de salvar pai e os Ferreira –, e acabou por achar não mais que u'a bala perdida. Tudo explicado; e assim tudo resolvido. E a culpa não é disto ou daquilo, e nem daquela ou deste; quão menos o é da displicência. Não! Vede bem e verás que é apenas da insônia...

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