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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Minhas heresias (Nilto Maciel)





Quem não esboçou heresias? Só os mansos, os conformados, os medíocres, os covardes, os que baixam a cabeça diante dos príncipes (das casas reais ou das igrejas). E toda heresia vai para o diário. Não o jornal, mas o diário do escritor. Pois todo escritor é autor de diário. Uns são íntimos, impublicáveis. Outros viram (ou se apresentam como) ficção. Umas páginas vão (ou iam) logo para as gráficas. Outras, mais tarde ou post mortem. Hoje (também ou mais ainda) são introduzidas em computadores, celulares e demais inventos maravilhosamente reduzidos.


          Publicados ou não, quase todos os nossos rascunhos são proibidos. Tivemos períodos de mais furiosa proibição. Não me refiro à censura prévia imposta pelos direitistas de 1964. Aludo a tempos mais antigos e obscuros: o do Santo Ofício, o da perseguição e morte de Galileo Galilei, Giordano Bruno e outros seres indignados com a mentira secular. Remonto ao tempo dos sacerdotes de cajado em riste, a impor (pela força, pela forca, pela crucificação) suas religiões, suas antiguidades, suas ideias ocas (e conseguiram).  

Nestes dias de liberdade absoluta, de democracia plena, de imprensa livre, do mais intenso livre arbítrio, de liberté, egalité, fraternité, da supremacia da Estátua da Liberdade, tenho pensado na eleição de Jorge Mario Bergoglio para o cargo de papa. Cogitei também nos julgamentos de matadores de mulheres, nos cometas e suas caudas de fogo, nas antigas letras gregas, no Liber Linteus dos etruscos, na escrita Rongorongo, etc. Entretanto, não sou jornalista, nem comentarista, nem filósofo e muito menos decifrador de códigos ou alfabetos estranhos. Não sou criador de códices nem de nada. Só escrevo a fala de meus irmãos. Não rabisco glifos. Nada invento. Apenas escondo, oculto ou meto no fundo da mala as letras indesejáveis.

Tenho meditado nas pessoas em seu estado anterior às inevitáveis transformações, nas belezas naturais, nos ninhos dos pássaros. Olho para o chão ou para o alto e vejo os enormes pecados dos homens (os torturadores, julgadores e matadores de outros), os preconceitos (ou a necessidade dos poderosos de se manterem presos ao passado: os ritos, os rituais, as massas dominadas, o circo montado, os templos lotados, os pregadores conscientes de sua dominação das ovelhas, com simples palavras). Tenho pensado também nos meus contemporâneos, nos incapazes de aprender o alfabeto da natureza, nos ignorantes de quase tudo. Nos inabilitados para a execução de inscrições nas pedras e nas tabuletas de madeira: nunca leram (ou decifraram) os enigmas. Coitados, mandam-me (tão cheios de si) seus livrinhos bonitos ou seus escritos computadorizados, certos de ter inventado a realidade. Infelizmente não consigo ler quase nada. Coitados, imaginam (porque leem jornais, ouvem rádios e televisões) o papa santo, os juízes probos, os advogados sábios (porque falam além da língua), os pregadores sem culpa.

Tudo isso não posso comentar (ou narrar), por medo de ser arremessado aos leões famintos, de ser trancafiado em cavernas, de ser oferecido aos minotauros em labirintos de pedra, de vidro, de palavras, de ideias. Tenho medo de ser ridicularizado em praça pública, chamado de palhaço, idiota, bobo da corte. Ou de monstro, ser incapaz de amar (como aquele personagem de meu conto “A leste da morte”), anormal. Por isso, não publico meus diários. Guardo quase tudo em cadernos, em folhas soltas. Se um dia quiserem publicá-las (já será tarde para mim, pois estarei morto), peçam licença ao príncipe. E na introdução me condenem: Eis o que ele concebeu. Esses aleijões. Eis as heresias desse monstro, desse sujeito avesso a religiões, igrejas, leis antinaturais, códigos muçulmanos e cristãos, velharias mofadas, baús repletos de vermes, frases colhidas nos bolsos dos assassinos, dos profetas, dos missionários, dos adoradores de deuses, da hipocrisia mais inescrupulosa (eu ia escrever escrota), da falsidade mais fascista, da mentira mais antiga.

Fortaleza, 15 a 17 de março de  2013. 

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