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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Uma leitura necessária: Jorge Amado (Daniel Barros*)



                                                          (Jorge Amado)


Pensei em começar esta resenha com: acabei de ler Hora da Guerra, mas não ficaria bem começar algo com o verbo acabar, sobretudo esse primor que é o livro de crônicas escritas entre 1942 e 1945, publicadas na coluna de mesmo nome no jornal baiano O imparcial, escrito pelo itabunense Jorge Amado. (Vale ressaltar que existem algumas divergências sobre o local de nascimento do escritor. Alguns biógrafos afirmam que ele nasceu na fazenda Auricídia, à época município de Ilhéus, mais tarde suas terras ficariam para o município de Itajuípe. O fato é que acabou sendo registrado no povoado de Ferradas, pertencente a Itabuna. O que importa é que é um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos). E nessas crônicas demonstra toda a sua paixão em defesa da democracia e indignação com o fascismo.


Jorge Amado, no livro, conclama todos à luta contra a quinta-coluna, ao nazifascismo e muniquismo. Não importam as armas, desde que lutem, e ressalta a importância dos escritores e artistas nessa luta, afirmando que a grande maioria dos escritores brasileiros compreendeu sua missão: “Estão de armas em punho e já hoje há uma consciência de que a pena ou a máquina de escrever são armas tão mortais e necessárias quanto o fuzil e a metralhadora”. Entretanto, indigna-se com a Academia Brasileira de Letras, pois o “... inquérito realizado por uma revista carioca entre os membros da fatal Academia Brasileira de Letras revela que os acadêmicos nacionais não tomam perfeito conhecimento da guerra e do que ela representa”. E segue mais adiante sobre um acadêmico: “... não sei tampouco se algumas das condecorações múltiplas e variadas que adoram o balofo peito do acadêmico Gustavo Barroso provêm da Alemanha nazista”.


A necessidade de engajamento na luta antifascista era primordial, sobretudo, contra a ação da quinta-coluna, para com isso evitar que os quislings (expressão derivada do militar e ex-ministro-presidente da Noruega, Viudkum Abraham Lauritiz Jonsson Quisling, colaborador de Hitler e traidor de sua pátria) entregassem nosso país como fizeram na França Pierre Laval e Pétain. Portanto, as crônicas do escritor baiano combatiam apaixonadamente o nazifascismo e seus diversos tentáculos representados pela quinta-coluna.


Vale lembrar que parcela significativa dos governos latinos era de grandes simpatizantes do fascismo.   Na Argentina, Ramon Castillo defendia a “neutralidade” do país, uma política pró-eixo; o golpista de 43, Pedro Pablo Ramirez continuou a mesma política, seguido por Farrell e posteriormente por Juan Perón – que vontade tenho de fugir da escrita culta e escrever esses nomes próprios com letras minúsculas –; no Paraguai, Morínigo prendia todos que combatiam o nazifasismo. Não era diferente na Bolívia, com Peñarando, com discurso na política externa de apoio às Nações Unidas, mas internamente reprimia líderes e intelectuais democratas. Posteriormente o golpe perpetrado por Gualberto Villarroel López, que, para a sorte dos democratas, durante seu governo golpista não conseguiu apoio nem externo nem interno, sendo assim praticamente obrigado a convocar eleições.


No Brasil não era muito diferente. O governo nutria inicialmente simpatia pelo Eixo, e os “nossos” quislings, oportunistas e traidores de plantão, tendo como líder maior Plínio Salgado, e seus vassalos como Gustavo Barroso e o pequeno Carpeaux, como bem o chamava Jorge Amado. Otto Maria Carpeaux chegou ao desplante de pleitear censura para traduções e livros publicados por editoras brasileiras, e através de nota divulgada por Vítor Espírito Santo, houve mobilização dos escritores brasileiros contra tal possibilidade de censura.


O que nos surpreende é a quinta-coluna brasileira. Os atuais novos nazistas não perceberam o que Hitler fez nos países ocupados e até mesmo nos aliados. Basta observar o tratamento que a Alemanha deu à Hungria, país que lutou ao lado de Hitler, e ao ser ocupado não teve tratamento diferente dos que combateram o fascismo, como Grécia, Polônia, Bélgica. Hoje vejo grupos novos nazistas, cabeças raspadas, tatuagens de suásticas e ódio ao próprio povo. Grupo ignóbil que não tem conhecimento do que o nazismo guardava para nós brasileiros, praticamente todos mestiços. Eles próprios, os novos nazistas, jovens com claras características físicas latinas, pensando serem brancos arianos. Seriam todos jogados em campos de concentração, caso o nazismo tivesse prosperado. Não têm conhecimento das leis sancionadas no VII congresso de Nuremberg, sobre quem são considerados os verdadeiros alemães. E, portanto, a raça superior. Desconhecem os planos para serem executados nas colônias da África e da America dos Sul. São, ao todo, seis itens praticamente os mesmos da Alemanha de Hitler que norteavam o apartheid Sul Africano.


Na Europa, Portugal com Salazar, Espanha com Franco, Itália nem é necessário falar, aliado de armas e de loucura, Mussolini e Hitler fundiam-se em uma única alma, se é que se pode dizer que tinham alma. Fato característico dos fascistas, corruptos e da quinta-coluna, são a traição e a defesa dos interesses pessoais, em detrimento do seu povo. Era isso que desejavam os aliados latinos do nazifascismo. O que reforça esta verdade é a traição de Mussolini por seu próprio genro, o Conde Galeazzo Ciano, que, ao ver próxima a derrota do fascismo, não pensou duas vezes em trair seu sogro; para sua infelicidade e alegria dos democratas, antes da total derrocada dos nazistas, eles ocuparam Roma e o conde foi arrebatado da tranquilidade do Vaticano, onde era embaixador, e levado direto para o fuzilamento. Assim são os corruptos, quando estão por cima, são produtivos, disciplinados, “amigos” dos superiores, e, sobretudo, muito obedientes, mas, na primeira possibilidade de queda, traem com facilidade e até com prazer, mas não sem antes dar uma de que mudaram de ideia, e que estavam equivocados. Foi essa a tentativa da quinta-coluna quando, ao perceber a derrota do nazifascismo, passou a defender a paz de compromissos entre o Eixo e as Nações Unidas. Na Espanha, Franco buscava essa paz; em Portugal, Salazar também; na Itália, Pietro Badoglio virou sucessor de Mussolini. Com essa proposta, a ideia nazista continuaria viva e eles poderiam voltar a aterrorizar o mundo. Entretanto, os líderes dos principais países, como União Soviética, Inglaterra e Estados Unidos, não se fizeram de rogados, e só admitiram uma rendição incondicional.


Enfim, Hora da guerra, uma verdadeira lição de engajamento do artista em defesa da democracia, mostra um Jorge Amado aguerrido e apaixonado pelas artes e pela liberdade. Assim, agora passado tanto tempo, num momento em que a guerra é outra, conclamo todos à leitura deste livro extraordinário, cujo espírito lúcido e perspicaz do autor de Mar morto continua impregnando suas páginas da mesma maneira que o fez em sua prosa de ficção.





*Daniel Barros, 44, escritor e fotógrafo alagoano residente em Brasília, é autor do romance O sorriso da cachorra, Thesaurus, 2011.


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