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quinta-feira, 25 de julho de 2013

"O rei chorou..." (Franklin Jorge)





                                                        (Thomas Mann)

De tudo quanto li em minha adolescência inquieta e fatigada, nada terá marcado mais minha sensibilidade do que “Tonio Kroger”, a novela que me descortinou o universo humano e literário de Thomas Mann. Faltava-me ainda, porém, a necessária experiência para compreender certas coisas, mas, por intuição, percebi que se tratava de uma obra que significativamente continha um passado e um futuro e que o seu autor, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, seria a partir de então um dos mestres secretos daquele jovem idealista e ambicioso que sonhava em tornar-se, algum dia, um escritor.

Já inoculado pelo vírus da literatura, senti em Thomas Mann a grandeza do criador que domina magistralmente a expressão e, sem o temor de parecer burguês e clássico, a coloca a serviço de um humanismo refinado e enciclopédico que constitui um dos atrativos do seu talento criador. E – o mais curioso –, através de personagens naturalistas que beiram freqüentemente a caricatura, de que é exemplo em “Os Buddenbrook”, Mynheer Peeperkorn, inspirado em Gerhart Hauptmann – o mais importante escritor alemão e o primeiro deles a obter o Prêmio Nobel de Literatura –. O ridículo, mais que o sublime, seduz e singulariza esse autor infenso aos modismos.

Em “Tonio Kroger”, novela francamente autobiográfica, e, também, a mais querida de suas obras, publicada em 1903, Thomas Mann coloca o problema do artista que experimenta o sentimento de exílio, porque não é reconhecido em sua própria terra. E o faz recriando um episódio do qual teria sido ele próprio o protagonista – ao regressar à cidade onde nasceu é confundido com um procurado da justiça e levado à delegacia para esclarecimentos. Na novela, a transposição se faz por meio de uma visita que Kroger, coincidentemente um célebre escritor, visita a casa onde nasceu, em Lubeck, então transformada em biblioteca, e o bibliotecário o confunde com um ladrão e o denuncia às autoridades, por considerar estranho o comportamento daquele visitante que examina tudo com desusado interesse. Para mim, desde então, um dos momentos culminantes da literatura.

Seu instinto literário nutrido nos clássicos faz de Thomas Mann, além de criador um pensador e um crítico da cultura, como Marguerite Yourcenar, que aliás escreveu um ensaio clássico sobre o autor de “A Montanha Mágica”, embora reconhecesse que já não era possível acrescentar mais nada que fosse original aos estudos mannianos, ainda em vida, um constante alvo de copiosa e profunda exegese. Um artista, de tal forma perfeito, que terá caído no ostracismo em conseqüência do subjetivismo de seus questionamentos filosóficos e metafísicos, associados ao seu proverbial virtuosismo literário e estilístico. Em resumo, falta-lhe a dose de vulgaridade que a época ateia em que vivemos valoriza.

Mas, não antecipemos. Minha intenção era evocar a descoberta desse autor, através da leitura de “Tonio Kroger”, que me pareceu desde o primeiro momento, por sua angustiada e serena magnitude, um escritor capaz de servir de modelo para os mestres e que, naquele já remoto ano de 1966, na cidade do Açu, descortinava-me um mundo novo de ideias e a presunção de que o homem pode construir tudo com as palavras. Uma prova, a existência de Thomas Mann, que passou a ser, para mim, um modelo e um mestre para toda a vida, além de uma das minhas primeiras lealdades juvenis. Sem a sua luz talvez eu tivesse me tornado apenas mais um desses persistentes compiladores de anedotários que entre nós contaminam o livro e o jornal.

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Na última quarta-feira tentei inutilmente escrever uma página sobre “Tonio Kroger”, novela que me descortinou o universo humano e literário de Thomas Mann, escritor de língua alemã que elegi, desde aquele primeiro encontro com a sua obra, um dos meus mestres secretos. Um modelo, enfim, para a espécie de escritor que eu, aos catorze ou quinze anos, dominado pelo instinto literário, desejava vir a ser...

Passei a devorar Thomas Mann como ele próprio, quando tinha a mesma idade, devorara Schiller, Ibsen, Thackeray, Dickens, Tolstoi, Gogol, Turgueniev. Nessa época, parafraseando Heinrich Mann, metade do meu ser consistia então de frases de Thomas Mann, cuja grandeza humanística de seus conteúdos e a correção da forma, presentes em tudo o que pensava e escrevia, desafiava o aprendiz imperfeito e tateante que vivia mais nos livros do que na vida.

Era a quadra de minha amizade com um jovem artista nascido em Macau, na época, estudante de medicina no Recife, com quem aprendi coisas que não sabia. Ali, passeando na Praça do Rosário ou sentados num banco na Praça Getúlio Vargas, em Açu, encurtávamos as horas divagando sobre a arte e os processos de criação dos artistas que admirávamos. Porém Hans, um pouco mais velho e experiente, já descobrira mais que a arte, a vida. E, assim, iniciava-me nos tormentos e prazeres da amizade, o que incluía além da camaradagem cúmplice o desassossego e o ciúme.

A leitura de “Tonio Kroger” revelou-se misteriosamente simétrica. Quanto mais avançava ou me detinha, perscrutando seus abismos, mais percebia entre aturdido e deliciado que havia uma estranha correspondência entre o que escrevera Thomas Mann e o que vivíamos, naquele momento de nossas vidas, o meu amigo e eu. Hans era seguro, extrovertido, cosmopolita elegante, tentado pela moda e pelo luxo brilhante e superficial, afetava às vezes uma espécie de paciência com o tímido que lia, lia, lia e hesitava entre o espiritual e o sensorial, entre o efêmero e o eterno da criação, entre morrer ou viver para o mundo, segundo a lição prodigada por Tonio Kroger, isto é, por Thomas Mann.

Gostava de descobrir similaridades entre as personagens dessa novela – que o seu autor considerava a sua obra mais querida – e nós mesmos, pois um dos atrativos de “Tonio Kroger” se faz sentir justamente na amizade não correspondida entre dois jovens estudantes que a um tempo se buscam e se repelem. Tonio, dominado pelos prazeres demoníacos do pensamento, um ser apolíneo; e seu amigo, sensorial e dionisíaco, tentado pelos atrativos que esbanja a vida despreocupada.

Há nesse livro uma cena tocante e dramática que explica particularmente essa dicotomia, a leitura por Tonio Kroger de uma página de Schiller, a quem o adolescente Thomas Mann tanto admirava, quando o rei descobre a traição do seu melhor amigo e chora, diante dos cortesãos, por ele próprio e pelo amigo... “O rei chorou”, comenta alguém, para dar a medida do sofrimento do ser humano que subsistia no monarca que, ao demonstrar sentimento diante de todos, infringia uma lei milenária, fazendo-se igual ao mais vulgar dos homens. Tonio, emocionado, quer partilhar a sua emoção com o amigo, indiferente a tais requintes de sentimento. “O rei chorou...”

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