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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O misterioso caso das Quatro Bocas (Paulo Lima)



                                                                                                
                                                                       1
                                   
            O carro estava parado lá no começo da manhã. O carro continuou parado no mesmo lugar também à tarde. E à noite ninguém apareceu para levá-lo. No dia seguinte, uma segunda-feira, o carro permanecia intocado, como se fizesse sempre parte da paisagem. E a paisagem era a Praia 13 de Julho, bem defronte das Quatro Bocas, mas eu estou falando de como o lugar era há quarenta anos, um areal cortado por um canal, por onde o mar desaguava sua fúria.
           
          Tem coisas que não se deve falar a uma criança. Nunca se sabe como ela vai lidar com os acontecimentos, especialmente se contarem um tipo de coisa que só adultos deveriam ouvir. Às vezes uma história pode entrar por um ouvido de uma criança e sair pelo outro. Os adultos podem imaginar que é isso o que acontece, quando falam de coisas desagradáveis ao lado de uma criança. Mas não é bem assim, não é desse modo. A verdade é que uma história entreouvida por uma criança pode permanecer durante anos, talvez uma vida inteira, registrada em seu cérebro, e é provável, se Freud estiver certo, que essa história possa determinar suas ações no futuro. 
            E meus pais contavam histórias tenebrosas, de coisas que tinham ocorrido nas Quatro Bocas. Diziam que um homem tinha sido tragado por um dos canais que compunham as Quatro Bocas, e nunca tinha sido encontrado. E esta é apenas uma das histórias que eles contavam.
            Para mim, as Quatro Bocas representavam um mistério assustador. Eu me sentia atemorizado só de passar perto delas todas as vezes em que ia me banhar na Praia 13 de Julho.
            Para mim, era como um mistério insondável, tal como o céu estrelado, que eu gostava de admirar à noite. Eu me perguntava coisas para as quais não encontrava respostas:
1.       Por que o universo é tão grande?
2.      Quem o inventou?
3.      Por que existem tantas estrelas?
4.      Quem mora nelas?
5.      Por que não despencamos no espaço?
            Às vezes eu perguntava essas questões ao meu Pai. Ele me chamava a atenção:
            – Cuidado para não ficar maluco.
            Nessas horas eu tinha raiva do meu Pai, pois achava que ele, com suas observações, poderia estar desestimulando um futuro Grande Físico.
            Então eu ia dormir com essas grandes especulações em minha cabeça.
            É uma pena que naquela idade eu nada tivesse lido a respeito de Einstein e suas ideias sobre o Cosmo. Ele poderia ter me ensinado sobre o princípio de tudo, sobre o Big Bang e sobre as teorias do Universo em Expansão.


                                                           2

            Enquanto as crianças de minha idade se interessavam por desenhos e brinquedos, eu pensava nas dimensões do universo. Mas havia os mistérios menores, como o das Quatro Bocas.
            Talvez eu possa falar um pouco mais sobre elas, assim você poderá imaginá-las melhor. Talvez eu possa até desenhá-las para você. Aqui estão elas:
                                                     O O O O
            Bem, isso dá uma ideia.
          Imagine que você tem um mar à sua frente, e que esse mar, como parte dos fenômenos geográficos, tem de quebrar em algum lugar na praia. E que essa praia é a Praia 13 de Julho. E que ao quebrar nessa praia o mar encontre a resistência de quatro tubos, quatro bocas de lobo, as tais Quatro Bocas.
            Está claro assim?
      Na verdade, essa é uma luta desigual. O mar consegue vencer as Quatro Bocas, inundando-as com violência.
            Bem, se você for esperto, deve se perguntar:
            – E onde vai dar toda essa água?
            Minha resposta:
          – Ela vai seguir por um canal e perder a força muitos quilômetros depois, quando então irá se transformar em pequenos rios de águas plácidas.
            Se você continuar a ser esperto, deve se perguntar:
            – E onde é que diabos está o perigo?
            Minha resposta:
        Imagine que você está na praia nadando, e então se aproxima perigosamente das Quatro Bocas. E quando você se dá conta, algo, como se fosse um animal feroz de dentes afiados, está puxando você para dentro de algum lugar, uma toca.
            Mas você está, na verdade, sendo sugado pelas Quatro Bocas. E, uma vez lá dentro, seu corpo será revirado e agitado, como se estivesse dentro de um liquidificador, até sair do outro lado do canal.
            Mas aí já será um pouco tarde. Você estará morto.

                                                     3
     
            O carro ainda estava lá na terça-feira. Então as primeiras especulações começaram a surgir. O dono do carro poderia ter se afogado nas Quatro Bocas.
            Entenda o seguinte. Aracaju era uma cidade mais-do-que-pequena em meados dos anos 60. Um carro abandonado numa praia era um prato cheio para a curiosidade coletiva.
            E não havia tantos carros assim circulando pelas ruas estreitas e arborizadas da cidade.
            Talvez você possa imaginar como era uma de nossas ruas. Vou desenhá-la para você. Aqui você pode ver, numa perspectiva aérea, um flagrante do nosso trânsito na Avenida Barão de Maruim, a mais movimentada da cidade naquela época, próximo do meio dia, o que equivale a dizer que era o horário do rush:
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            Pense então num carro abandonado num dia de domingo, pois antes disso ele não estava lá. E permanecer por lá na segunda e na terça-feira, e só então alguém dar o sinal.
            Não deixa de ser um milagre que ele só fosse descoberto dias depois. Um carro abandonado era como uma espécie de espaçonave que aterrissasse vindo de não sei onde.
            O carro era um DKW Vemag. Azul claro. Os pneus estavam parcialmente enterrados na areia. Os vidros estavam embaçados, por causa da ação do mar. Alguém havia desenhado um círculo com o dedo num dos vidros da janela lateral.
            O lugar se transformou em ponto de peregrinação. Todos arriscavam um palpite:
A.     O carro tinha sido roubado na Bahia e abandonado aqui.
B.     O dono do carro estava cheio de dívidas e se afogara deliberadamente.
C.     O dono do carro fora traído pela mulher e se afogara deliberadamente.
D.    O dono do carro fora assassinado e o carro abandonado a quilômetros de distância da cena do crime.
E.     O dono do carro era muito rico e se cansara do carro.
             Eu não tinha meios para saber, e tudo que podia fazer era ouvir o que o Pai comentava.


                                                                       4

            Uma noite o Pai me chamou até a porta da casa. Ele disse:
            Venha ver um milagre.
            Eu perguntei:
            Que milagre?
            E ele apontou para o céu. E o que vi foi que a lua estava escura com uma auréola clara em torno dela, como se fosse um anel.
            Eu perguntei:
            – O que aconteceu com a lua?
            Ele disse:
              Está havendo um eclipse.
            Eu perguntei:
            A lua desapareceu?
            Ele respondeu:
            – Por algum tempo, depois ela voltará.
            Fiquei impressionado. Veja o que eu vi naquela noite:
(0)

          Eu havia lido num livro de história sobre as crenças do Mundo Antigo. Eles acreditavam que a Terra era como uma melancia partida ao meio, e os limites do planeta eram delimitados pelas bordas da melancia. Se você se aventurasse além dessas bordas, despencaria no Espaço.        
       Talvez lhe interesse saber que eu gostava de ler História. Eu conhecia a história de Helena de Troia, dos Jardins Suspensos da Babilônia e de Átila, o Huno.
        O que eu mais queria era poder entrar num Túnel do Tempo e revisitar os grandes momentos históricos.


                                                                       5

        O carro foi, por fim, rebocado até a chefatura. Lá eles devem ter feito uma análise técnica do carro. Isso quer dizer que colheram marcas de digitais, fios de cabelo e até de sangue, caso tivesse.
            Um dia saiu uma matéria no jornal sobre o desaparecimento de um homem. Haveria uma ligação com o caso do DKW Vemag das Quatro Bocas? Esta era a matéria:
           Encontra-se desaparecido desde o último domingo o engenheiro Juan Manuel Arbenz, de 52 anos, que estava a trabalho em nossa capital. Ele estava hospedado no Hotel Beira Mar. Segundo informações do hotel, o engenheiro estava a serviço da empresa Benz&Associados. A polícia está tentando localizar a sede da empresa, que ao que tudo indica opera em São Paulo.
            Tentei imaginar como seria Juan Manuel Arbenz. Com esse nome espanhol, Juan deveria se parecer com um toureiro. Mas sendo um engenheiro, ele deveria ser levemente careca e um pouco gordo, pois engenheiros fazem muitos cálculos, e os matemáticos, que também fazem muitos cálculos, são também carecas, meio gordos e loucos. Eis o desenho que fiz de Juan Manuel Arbenz:
                                                                       \Ô/
                                                                       |   |     
                                                                                             
            Havia uma proximidade entre os dois fatos, o sumiço do engenheiro e o abandono do DKW Vemag. Ambos tinham como ponto de partida uma mesma data, um domingo. Mas tinha também umas questões a serem respondidas:
A.     Algum documento foi encontrado no carro?
B.     Esses documentos eram de Juan Manuel Arbenz?
C.     Juan Manuel Arbenz chegou guiando o carro?
D.    Juan Manuel Arbenz chegou de avião?
            Dois dias depois havia mais novidades sobre Juan Manuel Arbenz no jornal. Bingo! Eu acertei. Juan Manuel Arbenz era meio gordo e meio careca. Tinha uma foto dele, que a polícia conseguiu com a Benz&Associados. A empresa funcionava na Bahia. O jornal dizia o seguinte:
“Continua o mistério em torno do desaparecimento do engenheiro.”


                                                                       6

       Juan Manuel Arbenz tinha vindo a Aracaju com uma única missão: vistoriar uma construção da qual a Benz&Associados fazia parte. Ele chegou no fim de semana para aproveitar a viagem e descansar um pouco.
            Isso quem falou foi o chefe dele. A informação está no jornal que saiu hoje.
          Sempre li romances de aventura. O Pai os comprava para mim. É difícil dizer qual deles me impressionou mais. Vou citar alguns:
1.       A ilha do tesouro
2.      Ivanhoé
3.      A cabana do Pai Tomás
4.      Os três mosqueteiros
5.      Viagem ao centro da terra
6.      O médico e o monstro
            Acho que Juan Manuel Arbenz foi morto por uma enorme baleia branca. Talvez uma baleia gigante como Moby Dick. Tudo aconteceu assim: ele chegou e foi para a praia. Ele começou a nadar e se afastou muito da praia. Então surgiu uma enorme baleia branca e o engoliu.
            Bem, a baleia pode ter também sequestrado Juan Manuel Arbenz, e o deixado numa ilha deserta. Eu podia imaginar a baleia descendo até o fundo do oceano com Juan Manuel Arbenz em seu bojo. A baleia era assim:
                        \--------------|____>
                        /--------------|           ___>
           
           Não, não foi nada disso. Juan Manuel Arbenz morreu afogado. Seu corpo foi encontrado boiando numa praia, a quilômetros da capital. Quem deu a notícia não foi o jornal, mas o rádio através do Informativo Cinzano, um radiojornal muito popular na época.
            O mistério do DKW Vemag localizado perto das Quatro Bocas nunca foi resolvido. O carro acabou indo a leilão público e resgatado por um industrial.
         Nem todo mistério pode ser resolvido. Eu continuei olhando para o céu sem compreender porque há no universo tantas estrelas. Passei a contá-las e parei no número 112.375...
            Eis o desenho que fiz de algumas delas:
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