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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A arte de pitaquear (Clauder Arcanjo)




Para Lilia Souza

Somos regidos pela constelação da curiosidade, sob forte e zodiacal influência da vaidade, mas, graças a Deus, sob as bênçãos do signo da estrela da beleza.

Abro assim, quase em compasso de astrólogo, a página de hoje, porque quero discorrer acerca de uma arte (e de uma prática) que a ela tenho dedicado (bem como tenho sido aquinhoado) boa parte dos meus esforços de pretenso literato, de comezinho cronista provinciano. Calma, contenha a sua curiosidade, darei detalhes.


Quando se investe inspiração, transpiração e tempo, há, cá em nós, quase sempre, a utopia da singular perfeição. Quer como artesãos das coisas mais simples, quer como construtores de um página literária com ares de quem pretende encarar (e vencer) o ogro que habita, e viceja, na poeira da curva do século.

No mister das letras, concebe-se, elabora-se, lima-se cada página. Num labor em que existe um quê de fanatismo. Insatisfeito com um discreto eco, troca-se o vocábulo, banindo o mal-estar do atento ouvido. Promovido o reparo, passamos à releitura, geralmente em voz alta, para sentir o ritmo da prosa, o passo da frase, pescando — e extirpando — a cacofonia que, sorrateira e ladina, possa ter se enfiado em meio ao lídimo contexto.


Depois, enxugam-se os adjetivos; em geral, descabidos, traquinas e intrometidos. Devemos cortá-los sem dó nem piedade, advogam alguns guardiões da boa prosa; mas, confesso, não sou, nem nunca fui nem serei, partidário dos extremos. Certas construções ruem quando tentamos retirar, de seus pilares líricos, a argamassa multicolor de um adjetivo.


Ou seja, caro leitor, tal arte, numa sequência de passos infindos, num vai e volta extenuante, num catar e limpar interminável, batizei-a de “A arte de pitaquear”.


Lendo e relendo os antigos, em especial as missivas trocadas entre os mestres da literatura mundial e nacional, constatei que tal arte tem a idade da escrita. Textos de Gustave Flaubert, Anton Tchekhov, Dostoievski, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, dentre vários outros, foram devidamente submetidos à análise de colegas e amigos, recebendo sugestões em forma de “pitacos”. Alguns, acatados; outros, renegados.


Eu, por exemplo, jamais gostei de publicar algo sem submetê-lo aos olhos “pitaqueadores” e perscrutadores de exímios cultivadores dessa excelsa prática. Lilia Souza, escritora de Curitiba-PR; Sânzio de Azevedo, Ítalo Gurgel, Nilto Maciel, Edmílson Caminha, mestres cearenses, cultores do bom vernáculo; José Nicodemos, Chico Rodrigues, David Leite, Manoel Onofre Jr. — diletos amigos potiguares; Sueleide Amorim, professora em Nantes, França... são alguns doutos nesse tão nobilíssimo ofício.


O “pitaquear” já me livrou de regências escusas, de tropelias contra a nobre regência, de confusas admoestações ao leitor, de vírgulas mal dispostas, de sentenças enviesadas. Enfim, de erros crassos. Sem falar no necessário e depurador conselho de rasgar aquilo que não presta. Que, de tão ruim, não caberia remendos.


Quem escreve, penso eu, deveria, além de vários outros atributos intrínsecos ao mister, levar em seu bisaco: paciência e transpiração hercúlea, humildade de monge, paixão pela perfeição. Assim como uma enorme gaveta para maturar os textos concebidos sob o calor e o êxtase da primeira hora. Sem falar, claro, numa valorosa legião de fiéis e corajosos praticantes d’A arte de pitaquear. Para que sejamos dignos das bênçãos da estrela da beleza.


Bom domingo.


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