Pesquisar este blog

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Arte e memória em Proust (Franklin Jorge)




A transmutação da memória em uma necessidade diretamente sentida, segundo Marcel Proust, liberta-nos dos vínculos dos sentidos e da escravidão do presente, fazendo-nos submergir na intuição de uma vida imortal.

Ele proclama que o poeta precisa é da memória [considerada pelos antigos a “rainha das artes”], pois através dela resgata a profunda essência do ser. Tal processo, de natureza involuntária – talvez haurido na leitura de Bergson –, torna-se possível através da evocação de um perfume, de um sabor, de uma textura, de um raio de luz caindo subitamente num objeto ou mesmo entrando de quarto adentro.

Para Proust, é nesse reconhecimento – momentâneo, mas infinito – do mundo real, situado além do tempo, que está a verdadeira fonte da criação. Assim, a verdadeira função da imaginação, paradoxalmente, não seria imaginar – pelo menos não no sentido de inventar ou transformar –, mas, sim, de ver [grifos nossos]. Ver a realidade oculta pelo hábito e pelo mundo fenomenológico.

Daí porque, a seu ver, o artista não passaria de mero escriba, ideia que seria apropriada alguns anos depois, de uma maneira radical, por Jorge Luis Borges, em sua teoria de que o autor em si não tem nenhuma importância, devendo sua obra ser considerada como parágrafo de um livro universal. Como escriba, o artista seria alguém que registra e amplia a realidade dissimulada pelas aparências.

Numa visita a Florença, Proust descreveu a cidade dos Médicis através de citações extraídas de livros de Ruskin, embora, a exemplo do que fez em relação a Veneza, tenha omitido qualquer referência ao autor inglês, que conhecia a fundo e tanto lhe serviu em seu processo de elaboração da sua própria obra.

Embora sem dominar o inglês, Proust traduziu dois livros de Ruskin, tarefa que contou com o auxílio de sua mãe e que se faz sentir em algum aparente desordenamento de sua escritura, às vezes como que fora do controle, por um excessivo volume de informações.

Como ocorreu com Proust em relação a Ruskin, um dos seus mestres secretos, certos encontros criam em alguns autores especiais uma personalidade artística nova em que o exercício da crítica se transforma em imaginação.

Proust nos ensina que um livro nunca pode nos contar aquilo que desejamos saber, mas tão-somente despertar em nós o desejo de saber, pois não é possível a nenhum indivíduo receber a sabedoria de outrem. É preciso criá-la por nós mesmos. E foi o que ele fez, escrevendo os sete volumes do seu roman-fleuve Em Busca do Tempo Perdido.

Em seu aprendizado, Proust entregou-se apaixonadamente à mais árdua e abnegada das formas de leitura – a tradução de um autor admirado. Assim, sem declará-lo, adverte-nos que a leitura se torna perigosa quando nos inclinamos a fazer dela um substitutivo e não um estímulo para o intelecto.

/////