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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Corpo estranho (Paulo Lima)



Até o dia em que fez a terrível descoberta, Ana podia dizer que levava uma vida estável e satisfatória. Bom emprego, filhos já crescidos e um marido compreensivo e amigo. “Um companheirão”, era seu cartão de visitas sempre que se referia a ele, romantizando um casamento de vinte e cinco anos com raras manifestações de ciúmes de ambas as partes. Mas era mais velha que ele, e a diferença de cinco anos despertava o receio de que um dia ele pudesse trocá-la por outra mais jovem. Ela nunca discutia esses temores abertamente. Cuidava de manter a forma em dia, como um atleta que precisa estar sempre pronto para uma prova.  Encontrava uma brecha em sua rotina para ir ao menos duas vezes por dia à academia. Produtos especiais para o corpo ocupavam uma margem elevada em seu orçamento. Já passara por pelo menos três cirurgias plásticas para consertar alguma imperfeição que só ela via em si mesma. Se, ao se observar no espelho, notava uma nova ruga, entrava em pânico. O dia estava irremediavelmente perdido. Mas nada podia se comparar ao sentimento de pavor que a invadia, caso ela, explorando o próprio corpo, concluísse que a bunda já não exibia a mesma solidez. Tatear a si mesma buscando imperfeições era um hábito que ela cultivava da mesma forma como se cultiva um hobby ou esporte favorito.
            
Não se pode afirmar que o zelo em excesso pela própria imagem fosse um sintoma de futilidade ou de egocentrismo da parte dela. Uma vez por semana, Ana doava parte do seu tempo às reuniões da Associação de Adultos com Traumas Psicológicos, o que era um atestado de que se preocupava com as pessoas. Havia também nessa atitude um sentido utilitário. “O contato com aquela gente faz com que eu me conheça melhor”, era o que dizia.    
            
Mas havia também um pragmatismo em sua atividade. Ela podia exercer, ainda que de forma muito incipiente, as funções de socióloga, aspiração que o casamento precoce e um emprego público tolheram por completo.

Parte do trabalho na Associação consistia em receber de tempos em tempos uma ou outra vítima para um trabalho de socialização na casa de um dos associados. Era uma chance de ouro, pensava Ana, de conhecer melhor uma personalidade marcada por uma tragédia que muitas vezes se localizava num ato de violência cotidiana, como um roubo, um sequestro ou um estupro. Cuidar da resiliência dessas vítimas a traumas diversos era um trabalho que envolvia paciência e dedicação. Tantas vezes ela falou essa palavra em casa, resiliência, que praticamente a incorporou ao linguajar da família. Todos haviam aprendido seu sentido exato, e gostavam de usar a palavra quando queriam conferir um grau de importância ao trabalho dela.

A família ainda se lembrava de um homem já velho que Ana trouxe para um almoço, como parte dessas visitas de socialização e resiliência. Esse homem tinha um trauma curioso: jamais usava elevadores. Com a cidade cada vez mais apinhada de prédios altos, era possível imaginar suas dificuldades para levar uma vida normal. O homem resolvia todos os compromissos vencendo degraus e mais degraus, mesmo que o prédio fosse muito alto. Com o tempo adquirira uma capacidade aeróbica invejável. Até se transformara num corredor de maratona mediano favorecido pela força que seu corpo conquistara ao longo dos anos. O trauma, ele explicou durante o almoço, surgiu do nada quando ele completou 20 anos de idade.  Mas traumas não aparecem assim – plim! – do nada. O homem frequentava a Associação já há alguns anos, mas ainda não se livrara do trauma, nem mesmo o havia diagnosticado, embora se sentisse confortável entre criaturas com dificuldades aparentemente insuperáveis.

Um dia Ana recebeu a notícia de que aquele homem morrera de repente de ataque cardíaco ao subir as escadas do prédio em que morava. A notícia só não a abalou mais do que a descoberta que ela veio a fazer no dia seguinte ao ver, na cueca do marido, um pelo muito longo que não condizia nem com o seu padrão (louro e encaracolado), nem com o do marido (já grisalhando nas partes baixas).

Ana isolou o pelo com o mesmo zelo e curiosidade aguda de um pesquisador que acabou de descobrir um tipo raro de vírus ou bactéria durante um exame.  De repente, as paredes do quarto se estreitaram na mesma proporção em que sua respiração ia se tornando pesada. Ela estava em choque atingida pela intuição do que aquele pelo poderia significar. A palavra se alojou lá no fundo de sua mente e pressionava para vir à tona. Seu ritmo cardíaco se acelerou, como se seu corpo inteiro fosse explodir pelas têmporas. Ana reprimia os pensamentos, mas a palavra por fim aflorou, e Ana não pôde conter o choro.

Traição.

Não que em muitas ocasiões ela não tivesse pensado que aquilo não ocorreria. Já vira os exemplos que aconteceram muito perto, com amigas e até na própria família. Há pouco tempo, testemunhou o fim de um longo casamento de uma de suas melhores amigas. Ela podia apostar cem contra um que aquela relação jamais terminaria. Havia demonstrações públicas de carinho entre aquele casal. A notícia da separação a atingiu como uma bomba. Aquela, porém, era uma realidade muito distante dela, apesar de já estar casada há um bom tempo. O marido jamais demonstrara qualquer tipo de tédio com a relação. Jamais foi torturada por qualquer suspeita. Mas então ela descobriu aquele pelo, e a palavra, uma palavrinha persistente como um diabrete, começou a incendiar sua mente.   
              
“Minhocas, são tudo minhocas suas”, disse sua melhor amiga, a única a quem ela teve a coragem de confidenciar tudo. “Se fossem ao menos marcas de batom”, continuou. “E mesmo assim não seria nada”, consolou, “nada mesmo, pois uma colega dele podia tê-lo simplesmente cumprimentado no trabalho ou na rua”.

Ana pouco se convencera. Era como se um pelo inofensivo tivesse a capacidade de provocar uma rachadura de proporções imprevisíveis. Era como se um dique, até então seguro, tivesse se rompido. O que parecia uma relação estabelecida estava agora ameaçada. Nada pior do que uma suspeita. Ela pode se materializar com mais intensidade do que o fato que a origina. É como ser dominado por um monstro invisível e aterrorizante.   

 “De qualquer forma, fique de olho, nunca se sabe do que um homem é capaz”, aconselhou a amiga com um toque de humor na voz, mas suas palavras pouco efeito tiveram sobre Ana, já suficientemente assustada para dar ouvidos a qualquer outro assunto. Mas de uma coisa ela estava certa, dali em diante ficaria atenta às reações do marido.

Subitamente era como se um pequeno manto escuro tivesse se interposto entre ela e as coisas. No fundo ela estava um pouco deprimida, o que não era de estranhar em tal situação. O marido comentou que ela andava um tanto distante e calada ultimamente, mas ele era do tipo que deixava que as coisas seguissem seu curso, e não quis incomodar Ana com explicações. Sabia que a mulher, às vezes, era dada a mudanças de humor. Talvez fosse a proximidade da menopausa, foi o que pensou.

Ana guardou o maldito pelo numa caixa e a escondeu em lugar seguro numa cômoda do apartamento. Fora atingida de uma forma tão violenta que o teria guardado num cofre de banco, se fosse preciso. O pelo da discórdia, eis o que aquele fiapo de cabelo representava. Nem por um instante ela alimentou a ideia, plausível, de que tudo não passava de um engano. Afinal, um pelo não é uma digital. Ninguém tem um conhecimento pleno do que ocorre com seu próprio corpo. Outro dia ela mesma não havia percebido os primeiros pelos brancos surgirem em alguns pontos de sua vagina? Foi um choque, claro, uma descoberta que fez com que ela dobrasse a frequência à academia por duas semanas. E reforçasse seu estoque de cremes e unguentos miraculosos e rejuvenescedores.  

Talvez ela precisasse tirar a prova dos nove, a começar por ela mesma, com seu próprio corpo. Assim, aproveitou um instante de calma e privacidade e entregou-se a um ritual de reconhecimento do seu próprio território, examinando com vagar a topografia dos seus pelos pubianos. Estava convencida de que não possuía pelos tão longos, sempre fora loura lá embaixo, e seus pelos pareciam brigar entre si, de tão revoltos. Mas insistiu na exploração mesmo assim. Olhando-se refletida no pequeno espelho, se deu conta de que era ainda uma mulher bonita e desejável mesmo tendo passado dos 40. Poderia, se quisesse, arranjar um homem mais jovem, embora tais pensamentos a entristecessem, pois podiam significar que alguma coisa estava fora de controle. E tudo por causa de um pelo, de um maldito pelo pubiano.

Ela chegou à conclusão de aquele pelo não era dela. Definitivamente, não lhe pertencia. Se não era dela, só podia ser de outra, e a simples ideia de ser traída e deixada para trás a fez se sentir velha e inútil. Tinha agora de sondar o território dele, com cuidado, sem despertar suspeita.

Para aumentar ainda mais seu desespero, o marido chegou com a notícia de que iria ter de fazer uma viagem a trabalho. “Mas só por dois dias”, ele falou com um sorriso, para deixar claro que estava tudo bem entre eles. Ela não precisava se preocupar.

Foram dois dias infernais. Enquanto o marido estava fora, a Associação pediu que ela recebesse mais uma das vítimas de traumas psicológicos para um almoço ou um jantar. Dessa vez, a visita era uma jovem mulher que fora abandonada pelo marido enquanto ela estava no meio de uma gravidez. Nada assim fora dos registros. Quantos casamentos terminam exatamente no início, antes que os vícios se estabeleçam e a mesmice acabe decretando o fim da relação? Aquela mulher, porém, desenvolvera um medo pânico de novos relacionamentos, uma espécie de fobia, a tal ponto que tinha dificuldade até para sair de casa. O contato com a Associação tinha lhe proporcionado uma melhora, mas não a ponto de fazê-la crer outra vez no amor. Ana ouvia a mulher e se dava conta de como seu trauma soava absurdo, mas curiosamente não era capaz de ver como absurda sua própria desconfiança em relação a um pelo pubiano.

O marido voltou da viagem, e tudo parecia bem, como se nada tivesse acontecido, mas a verdade é que Ana desenvolvera uma série de manias em relação a ele, um ritual de desconfiança que implicava perscrutar suas roupas, especialmente as cuecas, com a precisão de um cirurgião. Era um ritual sadomasoquista, no qual ela desejava ardentemente encontrar um novo pelo que pudesse confirmar suas desconfianças, mas, por outro lado, sentia um grande medo de que pudesse estar certa.

Na prática, não se notou alterações no comportamento do marido, que demonstrava a mesma dedicação à mulher, o mesmo fervor na hora de penetrá-la, mesmo depois de tanto tempo de casamento, a mesma paciência com suas idiossincrasias. Mas Ana estava transtornada, um pequeno diabo se apossara de sua mente e lhe dizia constantemente para duvidar, para não esquecer o tal pelo.

Em pouco tempo Ana perdera muitos quilos, e o sucesso em conseguir um corpo mais magro e mais saudável era atribuído por todos à disciplina que ela dedicava aos exercícios, à academia e aos cuidados com a alimentação. Mas no fundo era um diabrete que não a deixava sossegar, que a atormentava dia e noite, tudo por causa de um pelo sem origem definida.        

Aos poucos Ana começou a mostrar algumas atitudes que, a princípio, pareceram que ela queria surpreender o marido com algum tipo de jogo erótico. Primeiro, ela pediu para cortar os pelos pubianos dele, e ele, convencido de que era mesmo um jogo, disse sim. Ele demorou um pouco a se acostumar com a ausência dos pelos, mas isso “logo cresce de novo”, foi o que Ana afirmou entre risadas. Depois foi a vez de ela mesma zerar os próprios pelos, mas a consequência dessa ação não foi uma “aquecida” no ato amoroso, e sim um estranho esfriamento, mais estranho pelo fato de que eles jamais deixaram de manter o interesse um pelo outro, mesmo depois de tantos anos de casamento.

O marido se deu conta de que algo estava errado quando, um dia, ao chegar em casa, encontrou o filhos assustados e preocupados com a mãe. “Pai, você acaba de ganhar uma nova mulher, talvez uma Sinead O’Connor”. O pai sorriu sem entender direito e quase tombou de susto quando Ana entrou na sala completamente careca. Ela tinha um olhar esquisito e repetia pelo menos três vezes a mesma frase, como se tivesse receio de esquecê-la. “Agora, querido, os pelos não serão mais problema”. E dizendo assim envolveu o marido num abraço tão apaixonado que acabou arrancando aplausos dos filhos.   

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