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sexta-feira, 28 de março de 2014

Da Barcelona catalã (Flávio R. Kothe)



  

Enquanto eu voara sobre o Atlântico
em noite calma, sem o menor temporal,
dezenas e dezenas de versos aportaram
como se buscassem por mim um abrigo,
recanto na mala, carimbo no passaporte:
a todos fechei, no entanto, minha porta,
queria dormir um sono que não vinha,
enquanto ao redor ressoavam roncos.

Fechei a porta a versos que me vinham
como se eu estivesse à beira da morte,
ou a ver ressurrectos à beira do Báltico
nos anos e anos de exílio e amargura.
Dava-me ao luxo de rever a Catalunha,
essa nação sufocada pelo Opus Dei,
um imenso capeta vestido de monge
que na Sagrada Família se esconde.

Quando mordi a rubra maçã que recebi
de uma bela muchacha lá da cafeteria,
vi que a um dedo abaixo de toda casca
se escondia a podridão por todo cerne:
com podres também topei no continente
toda vez que nele andei feito penitente
buscando na arte o saber mais renitente.

Se eu tivesse tido um pouco mais de paz
sentado num velho banco à beira do mar,
olhando o sol se pôr nas ondas do Báltico,
se eu tivesse tido um amor correspondido
toda vez que me arrastei feito peregrino,
eu não teria cometido versos desmedidos:
poderia fechar a porta e dormir comedido.

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