As peças ficcionais de Ana Carolina da Costa e Fonseca em Sei Que Ele Me Ama, Pois Me Disse Uma Vez (Editora Bestiário, Porto Alegre, RS, 2004) podem ser vistas como contos de personagens. São eles o centro de tudo, independentemente do que fazem, de suas ações. Seres voltados para si mesmos, como se o mundo de fora não existisse. Assim, não se “vêem” ambientes, a arquitetura de casas, prédios, ruas. Os personagens como que levitam longe do espaço urbano ou rural. Talvez nas nuvens. Em “Abraços” a narradora se refere a um hospital, um quarto, onde está sua tia. Mas durante todo o tempo se volta para a dor que sente. Suas ações e sensações físicas parecem traços embaciados num quadro: “saio do quarto”, “está muito quente”, “o cheiro do hospital me deixa a cada passo mais triste”, “ando sozinha”. Ressalta na história o drama psicológico do protagonista. Nem mesmo a narradora de “Parafusos” consegue dizer duas ou três palavras sobre o seu trabalho na fábrica de parafusos, o que poderia dar à narrativa mais encanto, limitando-se a falar de si mesma, abandonada pelo marido, solitária. Assim, se trabalhasse numa padaria, numa lavanderia ou em outro tipo de indústria ou comércio, nada mudaria no conto. O significado do parafuso ou a sua metáfora poderia ser apresentada com mais pompa.
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quarta-feira, 30 de novembro de 2005
Esfinge (Nilto Maciel)
(Duas meninas, de Bibiana Calderon)
Naquela tarde saímos a passeio, nós duas e papai. Divertimo-nos como nunca. Assim mesmo, não saciamos a fome de brincar.
Papai sempre nos deu muito carinho. Em certas ocasiões, no entanto, tratava-nos até com aspereza, como se fosse outro. Era quando conversava com seus amigos. A nós dedicava todos os seus momentos de folga, fins-de-semana, feriados, férias. Passeávamos, brincávamos, como se os três fôssemos crianças. Quando viajava, ficávamos tristes, porque mamãe não gostava de brincar conosco. Só me lembro dela a dormir, conversar com seus amigos e suas amigas, sair sozinha, a passeio.
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