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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

No jardim de Beatriz (Nilto Maciel)


Acompanho a trajetória literária de Beatriz Alcântara desde os seus primeiros passos (ou os segundos, posto que em 1973 eu não a conhecia ainda e é daquele ano o ensaio La revolte positive de Simone de Beauvoir). Agora, que estamos maduros e preparados para a colheita, somos surpreendidos pelo Anjo, em pleno delito de escrever. E Ele não nos expulsa do Jardim, e nos acolhe, nos afaga, nos chama de crianças. Assim estava eu a matutar, tão absorto quanto um inseto a mirar flores, quando um livrinho colorido pousou diante de meus olhos: O jardim foi-se (Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2010), de Beatriz Alcântara. Pus-me a lê-lo, desde a capa: Minicontos, microcontos, intervenções urbanas. O papel couché me entusiasmou mais. Tossi, feito gato engasgado. Passei à apresentação, escrita por Linhares Filho. Para o poeta e ensaísta, o novo livro de Beatriz “prende o leitor” (talvez entre galhos verdes, rosas multicoloridas e armas (foices) escondidas,) “pela estrutura inovadora, pela síntese, pela atitude sugestiva, pela integração no tempo atual, por uma espécie de denúncia dos males da existência”. E mastiga, para nós leitores, todos os signos verbais da contista, desde o título: “Entendo que o título O Jardim Foi-se refere-se ao jardim paradisíaco, perdido de modo irremediável pelo homem, implicando isso toda sorte de sofrimento, contratempo e malefício, a ser enfrentada existencialmente pela humanidade, que assiste ao evadir-se daquele lugar de delícias e, com isso, ao ir-se do estado de inocência junto ao gozo da felicidade humana”.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Navalha na carne de Carnavalha (W. J. Solha)


Enquanto lia o romance Carnavalha, de Nilto Maciel (Ed. Bestiário, 2007), lembrava-me de muitos livros e filmes. A impressão frequente de que a obra do cearense é uma série de contos amarrados pela unidade de tempo e lugar, encaminhou-me ao Decameron de Bocáccio, com sua centúria de histórias. E veja isto:
Os gatos, cada vez mais numerosos, pareciam milhares. E miavam sem parar, garras e dentes à mostra. A mulher abria a porta da rua: “Vamos fugir, Juarez. A casa fica para eles”. (páginas 94/95)