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terça-feira, 13 de novembro de 2012

O encantamento pela linguagem (Hermínia Lima)





A obra que nos inspira para o texto que ora escrevemos começou a provocar-nos pelo título: Os acangapebas. Ao lê-lo, pela primeira vez, na ocasião do lançamento, nos perguntamos o que significaria o termo "acangapebas"? Ou, quem são esses "acangapebas"?

Para nossa felicidade, ao folhear o livro, encontramos, logo no início, a resposta a tais indagações. O autor, Raymundo Netto, teve a ideia, ou melhor, o cuidado de transcrever um verbete do Silveira Bueno esclarecendo, "acangapebas: cabeça-chata. De acanga, cabeça; peba, peva, chata". Bom, lido isso, pensamos: "cabeça-chata"... algo a ver com os cearenses? Ao deparar-nos com os tipos que povoam a obra e, em especial, com os que protagonizam o conto cujo título nomeia o livro, "Os acangapebas", confirmamos a nossa suposição em relação ao significado da palavra. Constatamos que, a julgar pelos perfis físicos e psicológicos dos que habitam a referida obra, é possível afirmar que se tratam de tipos bem cearenses. E seguimos com a leitura, livro adentro, querendo saber mais sobre os acangapebas. As descobertas foram muitas e as surpresas várias.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Camila Peçanha e as hélices da solidão (Nilto Maciel)



(Escritor Hildeberto Barbosa Filho)

Nunca leio, logo após o almoço. Sento-me no sofá e faço planos para a tarde: dar continuidade à revisão de minhas memórias; ir ao Shopping Benfica, tomar café, às 15 horas; pagar a fatura do cartão de crédito ou simplesmente andar à toa. Ontem, porém, quebrei o protocolo e me pus diante do denso tomo da poesia reunida de Hildeberto Barbosa Filho. Precisava completar a leitura iniciada semana passada. Lido o último poema (“Herança / não deixarei. // Olhem / o sangue dos cactos / na paisagem nua // uma haste de luz / suspensa na tarde agreste // os paupérrimos marmeleiros, / as cicatrizes do deserto, / os solitários labirintos / do vento” // o silêncio, a morte, / o esquecimento. // Eis o que fica”), fechei os olhos. Aqueles versos, aquela poesia, aquele poeta não existiam. Sim, aquilo me parecia belo demais para minha realidade de ser em plena decadência. Aquelas imagens me deixavam extasiado. E eis que tocaram a campainha. Tomei mais um susto, apalpei o coração e me lembrei de Camila Peçanha. Sim, só poderia ser ela. Tínhamos combinado, desde segunda-feira, um bate-papo, para ontem. Queria traçar um desenho de minha rotina de escritor, conhecer-me mais. Só para ilustrar uma “aula”, na Universidade onde estuda. Quem indicou o meu nome? Não sei se o senhor conhece: Batista de Lima. Ora se conheço. Para ser preciso, desde 1945. Tudo isso? Estou brincando. Ele parece tão novo. E eu tão velho? Ela riu. Encerramos a conversa e voltei aos versos de Hildeberto (eu ia pela metade de Nem morrer é remédio): “Fica na casa / o copiar de lembranças // as cortinas de vidro / espelhando a entrada // a cumeeira exilada / donde pula a infância // as varandas intensas / polidas de ausência”.