Translate

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Olho mágico (Hilda Mendonça)





 









Desta janela assisto a tudo

Vejo o velho
Vejo o moço
A moça de salto alto
A velha senhora encurvada.

Desta janela vejo o mundo:
A violência
A carência
A dor de quem sabe que vai.

Desta janela vejo o cão (o traiçoeiro)
Vejo o gato (o sorrateiro)
Vejo o rato (o inconfiável)

Pássaros,
Cigarras,
Carroça burro puxando...

Desta janela eu vi certa vez
Minha vida por mim passando.

__________________

Hilda Mendonça de Passos - MG, no livro Caminho de Meus Andares, Scortecci Editora.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Nathalie Sarraute entre elogios e favores (Nilto Maciel)


(Modigliani, "Nu sentado")


Janete Clair tem me visitado. Na véspera de Natal, esteve em minha casa. Não trouxe um litro de aguardente (que ela tem ciência da minha abstemia) ou um broche de ametista (pois me considera homem íntegro); entregou-me, sim, exemplar de Nathalie Sarraute. Imaginem vocês o título. Não fazem ideia? Serei presto: Disent les imbéciles. Eu não sabia da existência dessa obra. Aliás, só li um romance de Nathalie: Infância. Leitura de muitos anos atrás. Nem me lembrava dela, embora não seja um desmemoriado. Confuso, afastei-me da discrição, sem perceber: “Por que você me dá isto?” Tentei consertar o erro: “Quero dizer: por que você escolheu esta autora?” Ela não se deixou enredar às malhas de meu palavrório: “Porque o senhor é um erudito".