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segunda-feira, 8 de maio de 2006

Uma crônica de João Brígido (Nilto Maciel)


(João Brígido)

Um editor me pediu um escrito natalino para um jornal. Pensei num cartão, numa carta, numa cartona. Imaginei uma virgem e seu filho. Vasculhei a Bíblia, minha biblioteca. Cheguei a ler um auto pastoril. E terminei na Antologia de João Brígido. Passei o dedo pelo índice e fui dar na crônica “Uma manhã de Noel”. O livro tem quase seiscentas páginas. Parece-me ser esta a única crônica do livro, compilado pelo poeta Jáder de Carvalho, a tocar o tema do 25 de dezembro.


O livro é raro, porque publicado em 1969, em Fortaleza. E, não fosse ele, a crônica natalina de João Brígido seria mais desconhecida ainda, uma vez publicada apenas em jornal. Exatamente em 27 de dezembro de 1916.

O cronista narra uma noite de Natal “calma, festiva e boa”, sem “um atrito qualquer que merecesse reparo de censor menos indulgente.” Esperavam-se, talvez, distúrbios populares. A seca do ano precedente motivaria o famoso romance O Quinze, de Rachel de Queiroz.

“Uma manhã de Noel” comenta uma noite de Natal em Fortaleza, então pequena cidade de poucos milhares de habitantes. Segundo o cronista, mais de 25 mil pessoas saíram às ruas para aguardar a estrela-d'alva, costume quase desaparecido. E detalha a festa: “bebeu-se e muito e comeu-se do que reatava na terra; cantou-se, vozearam as bandas de música militares; franquearam-se todos os logradouros públicos e tudo foi alegria, esperança e seguridade” (...)

No Natal ainda se bebe e come, pelo menos uma parte da população. No entanto, já não se canta, nem se vêem bandas de música. Nas igrejas ainda se rezam missas do galo? Algumas famílias certamente continuam a matar perus. O cronista escreveu, no penúltimo parágrafo: “quem possui tantos dotes d’alma um dia possuirá a terra.” Passados tantos natais do louvor e da profissão de fé de João Brígido, muitas secas expulsaram o homem cearense e nordestino de suas terras; muitos romances foram escritos tendo por cenário a terra nordestina e por tema a seca, cujo ponto culminante é o Vidas Secas; muitos políticos chegaram ao poder sob promessas demagógicas de transformar o Nordeste do Brasil em um paraíso. Os sertanejos, no entanto, têm lutado pela terra. Se a mansidão é um “dote d’alma”, isso é lá com Papai Noel.
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