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quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Mundo livre (Nilto Maciel)



Cena n. º 1

O casal caminhava distraidamente pela calçada. Parecia em lua-de-mel. Ele falava, ela sorria. Diante da Casa Preard, o sorriso da moça se desfez. Um rapaz se havia aproximado dela e dirigia-lhe a palavra. Gesto de susto, esgar de espanto. O marido (ou namorado) parou e fez o outro também parar. E sacou da cintura um revólver. A moça se encolheu, gritou e abraçou-se ao companheiro.

— Vou matar esse atrevido. Dar um tiro na boca desse moleque. 

Não saiu bala nenhuma da arma. Só muito suor e tremor. O rapaz já ia longe, sumido no meio da multidão.

Cena n. º 2

O casal caminhava. Mudos, automáticos, sonâmbulos. Ele fumava, ela passava a língua nos lábios. Diante do Posto Telefônico da Rua Gione, ela acordou. Um sujeito perguntava se podia acompanhá-la. Talvez um cego. Ora, não dava para ver o marido ao lado?

Também acordado, o homem mudo sorriu, parou e se interessou pela conversa. Que dizia o jovem? Poderiam ir a um restaurante. Aliás, fossem na frente. Ele iria depois.

Cena n. º 3

Estava um homem sentado num banco da praça. Fazia muito calor, o sol abrasava. Restava descansar e ver os outros passarem.

Outro homem sentou-se a seu lado. Calor, falta de chuva, céu azul.

— Quer me vender uma orelha?

O primeiro homem olhou, assustado, para o outro. Talvez tivesse falado em ovelha. Melhor não responder nada.

O outro repetiu a proposta. E olhava, com seus olhos muito azuis, para a orelha do vizinho.

— Não vendo, mas troco.

O de olhos azuis assustou-se. Com certeza o primeiro não ouvia direito. Muita cera no ouvido. Talvez tivesse compreendido ovelha em vez de orelha.

— Estou falando de orelha — gritou.

— E eu estou falando de olho. Troco uma orelha por um olho.

Cena n. º 4

O homem pôs-se a atravessar a rua. Carros iam e vinham, em disparada. Súbito, o homem voou. O carro parou. Algumas pessoas correram para junto do corpo caído. Saía sangue da cabeça do atropelado. Do nariz, da boca, dos ouvidos. O motorista atropelador olhou para um lado e outro. Já havia gente demais ao redor do homem. Ligou o motor e sumiu.

— Está quase morto — disse uma pessoa.

E retirou da bolsa uma navalha. O homem não sentiria dor nenhuma. Estava quase morto.

— Corta logo, Pedro.

O homem caído gemeu, quando a navalha decepou-lhe a orelha direita.

— Que belo orelhão!

Cena n.º 5

Armados de revólveres, um grupo de rapazes assaltou a estação de rádio. E prendeu num banheiro radialistas e funcionários em geral. Menos um. Precisavam de sua orientação técnica. Queriam ler um manifesto político. O governo representava uma minoria. Havia fome, miséria, desemprego.

Leu o texto o nervoso Jesonias, aplaudido pelos companheiros.

Tudo em vão, porém. A rádio estava fora do ar.

Cena n. º 6

Alegres, rapazes e moças lotaram os estúdios da rádio. O locutor pediu silêncio. Não podia trabalhar daquele jeito.

— Só um minutinho — sorriu uma das moças.

— Hoje é o Dia da Poesia — argumentou outra.

Só queriam um minutinho. Célia iria ler um poeminha. Pouco mais de dez versos.

Conduzido para fora do estúdio, o locutor não ouviu uma só palavra do manifesto. Só a luta armada libertaria o país das mãos sanguinárias dos generais.

Imediatamente após a leitura da declaração, procederam-se prisões de alguns líderes oposicionistas. As forças armadas se puseram em prontidão. Talvez se decretasse estado de sítio.

***
As seis cenas narradas foram protagonizadas por participantes de uma gincana. Muitas outras aconteceram no mesmo dia. Quase todas semelhantes a estas.

Promoveu a brincadeira uma rede de televisão. Para divertir a cidade — dizia o locutor.

Ao término da competição, os dirigentes da TV falaram em êxito total e revolução na comunicação. Apesar de alguns incidentes. Inevitáveis, segundo os comunicadores. Aliás, sem eles, os incidentes, a brincadeira não teria graça nenhuma.

Uma das tarefas propostas consistia em um homem abordar uma mulher na rua. E convencê-la a acompanhá-lo a qualquer recinto onde pudessem manter relações amorosas. A proposta deveria ser feita diante do marido, amante ou namorado da mulher.

A cena seria filmada, de longe, por cinegrafistas da TV.

Os mais medrosos abandonaram a gincana ao tomar conhecimento do conteúdo da tarefa. Muito arriscado. Ainda havia homem ciumento e violento.

Realmente, ocorreram violências quase incontroláveis. A custo, o pessoal da televisão conseguiu convencer maridos, amantes ou namorados de que se tratava de brincadeira.

O protagonista da cena n. º 2 julgou ter cumprido a tarefa. Os julgadores, porém, disseram o contrário. Nenhum homem normal entregaria sua mulher a outro. Os três se haviam mancomunado, com certeza.

Algumas equipes recusaram participar da tarefa ora mencionada. Viram com naturalidade, no entanto, a da orelha. Ora, que importava uma orelha? Nenhum mendigo deixaria de vender uma orelha a bom preço. Enganaram-se, porém. Todos os mendigos abordados tiveram reações surpreendentes. Uns chegaram a agredir os autores das propostas. Fossem comprar orelhas de ricos. Valiam mais, além de serem limpas e sadias.

A tarefa consistia em levar aos estúdios da televisão uma orelha humana. Direita, esquerda, masculina, feminina, pequena, grande. De qualquer cor ou feitio.

Não valia, no entanto, orelha de defunto. Aliás, o ato de cortar a orelha deveria ser realizado diante das câmeras, no estúdio, na presença da comissão julgadora.

Assim, não valeu o esforço dos rapazes da cena n. º 4.

Uma das tarefas consideradas de mais fácil realização consistia na leitura pública de um manifesto político. A mensagem deveria ser transmitida por qualquer estação de rádio da cidade.

***
Noite de gala. Entrega dos prêmios milionários aos vencedores da gincana. Os patrocinadores felicíssimos. E a Rede de Televisão Mundo Livre de parabéns por divertir tão sadiamente o povo.
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