Pesquisar este blog

domingo, 27 de agosto de 2006

A sátira política em Os Luzeiros do Mundo, de Nilto Maciel (Wilson Pereira*)




O escritor Nilto Maciel, autor de mais de uma dezena de livros, que variam entre contos, romances, novelas, e um de poemas, goza de prestígio literário nacional não só pela vasta bibliografia, mas também pela reconhecida qualidade de seus textos.

O reconhecimento veio tanto pelos prêmios literários de primeira grandeza que conquistou, como pela fortuna crítica que angariou ao longo de mais de trinta anos de carreira literária. Entre os seus prêmios destacam-se “Brasília de Literatura”, 1990, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Distrito Federal, com A Última Noite de Helena; “Graciliano Ramos”, 92/93, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Alagoas, com Os Luzeiros do Mundo, e o “Cruz e Sousa”, 96, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina, com A Rosa Gótica.  

Muitos são os escritores de nome nacional que assinaram resenhas e artigos sobre a obra de Nilto Maciel, entre eles Francisco Carvalho, José Alcides Pinto, Caio Porfírio Abreu, Astrid Cabral, Foed Castro Chama, Ronaldo Cagiano.

Pode-se então concluir que Nilto Maciel é um escritor bem sucedido? Sem dúvida, mas em parte, pois um autor assim laureado e reconhecido pela crítica deveria poder transitar por grandes editoras nacionais, com tiragens significativas de seus livros sendo distribuídas e divulgadas para todo o País. E se assim ocorresse, um grande número de leitores certamente iriam se divertir e se instruir com seus romances e contos.

Mas essa é outra estória, pois fora do eixo Rio-São Paulo (repito o lugar-comum), o escritor brasileiro continua marginalizado e com pouquíssimas chances de se tornar um autor nacional.

Sirva, no entanto, essa introdução como pretexto para um comentário sobre Os Luzeiros do Mundo, um dos romances do autor distinguido, como se viu acima, com prêmio de âmbito nacional e editado em 2005.

Ambientados na cidade fictícia de Palma, os fatos vão compondo uma rede tramática (de trama) e não dramática (de drama), uma vez que o que se evidencia não é propriamente um drama individual, como no romance tradicional, nem tampouco um drama coletivo (no sentido de sofrimento, de angústia, de privações etc.), mas o esboço, a caricatura de uma cultura e uma psicologia de poder e de relações sociais, embasadas em valores morais, sociais, religiosos e políticos de uma tradição tacanha e ridícula, arraigada nas cidades do interior, onde as aparências e as conveniências falam mais alto.

O romance é uma sátira política. As principais figuras da cidade vão se juntando um tanto atabalhoadamente com o propósito de combater o comunismo que julgam ameaçar o seu mundinho pequeno-burguês e o universo todo. E o despropósito é tal que não sabem definir se suas ações salvadoras vão se limitar ao âmbito municipal, ou se vão alcançar o poder nacional, depondo o Presidente João Goulart, ou até mesmo atingir o plano universal: “a rebelião teria início em Palma e de lá se espalharia pelo resto do país e, possivelmente, do mundo. O juiz tentou se erguer e, trocando as sílabas e arrastando erres e esses, gritou: vamos varrer a Rússia do mapa.” (p.62) A ironia que permeia todo o livro tem momentos de raro sabor humorístico, fazendo lembrar, às vezes, o impiedoso Ariano Suassuna, no Auto da Compadecida. Vejamos, por exemplo, essa passagem: “Para o comunista Josias Nóbrega, pela primeira vez um patrão organizava um sindicato de trabalhadores. Jerônimo Maia completava o gracejo: o SOS, Sindicato das Operárias do Sexo”. (p.33)

Em outro momento, um jumento é confundido com um comendador, fato que demonstra, além do senso de humor, a intenção subliminar do autor de ridicularizar certas autoridades.

Há um parágrafo memorável dessa crítica a certos tipos de políticos que, tardiamente, quando já vai um pouco distante a desfaçatez dos ditadores do golpe de 64, ainda vêem ameaça comunista em tudo, a ponto de quererem proibir o uso, se não a existência, da cor vermelha. “A outra proposta teve origem no espírito fanfarronesco de Eunápio Calado. Após a queima dos livros e a destruição das armas comunistas, deveria ser aprovada pela Câmara municipal uma lei: ficava proibida a utilização da cor vermelha onde fosse possível. Batom pode ser verde, amarelo, azul, branco; menos vermelho. Assim também as roupas, os móveis, as paredes, os carros, tudo. Dariam exemplo para o Brasil. O prefeito se entusiasmou: o Congresso Nacional, com toda a certeza, iria também copiar imediatamente a idéia deles”. (p. 65)

Aliás, o trecho acima transcrito encontra respaldo na realidade política do Distrito Federal, onde o ex-governador Roriz, conhecido pelo jeitão mateiro e pelas idéias e frases estapafúrdias, já quis vestir o Papai Noel de azul, porque a cor vermelha lhe lembrava o Partido dos Trabalhadores, o PT, que ele tanto abomina.

Na malha crítica do autor caem todos: o juiz, o padre, o prefeito, a astróloga, o promotor e até pessoas comuns, compondo o universo das ações, das reações e das relações humanas e sociais. Muito apropriadamente escreveu o ficcionista, poeta e crítico literário Ronaldo Cagiano: “O autor (...) recompõe a caleidoscópica semântica do inconsciente, junta os cacos de um vitral e permeia os labirintos da memória social”. E acrescenta mais adiante que “Nesse livro permeia-se um itinerário multifacetado, como se o autor inventariasse o fantástico, o absurdo, o escaninho mais fragmentário de nossos estranhos surtos de imaginação nos moldes de um José J. Veiga, de um Juan Rulfo, de um Gabriel Garcia Márquez, de um José Cândido de Carvalho ou de um Murilo Rubião".

Pois é esse veio do absurdo, do fantástico, tão bem entretecido com o da realidade cotidiana e imediata das personagens, que permite ao autor situar numa pequena cidade um movimento político que é ao mesmo tempo reflexo e metáfora de uma realidade maior, uma vez que o que se tem aqui é uma alusão ao golpe militar de 1964 e, por extensão, a todo movimento totalitário, às ditaduras militares, em qualquer lugar em que elas tenham existido. Se na realidade o microcosmo, ou seja, as cidades do interior reproduzem os fatos do macrocosmo, absorvendo a ideologia e validando iniciativas dos grandes centros urbanos, como ocorreu em 1964, aqui o autor inverte essa lógica, pelo menos nas cabeças fantasiosas de algumas de suas personagens. Mas o pequeno mundo é uma caixinha mágica onde cabe todo o universo, aqui representado. Um pouco como no conto o “Alef”, de Jorge Luis Borges. A intenção do autor nesse sentido já está embutida no próprio título do romance.

No meio desse arcabouço social e político, em que se articula o Movimento de Defesa da Liberdade, da Família e da Propriedade (espécie de TFP, a famigerada entidade anticomunista Tradição, Família e Propriedade), o autor faz correr o fio narrativo de um relacionamento amoroso estranho e de uma morte misteriosa, imprimindo verossimilhança aos fatos e construindo uma bem arquitetada trama. E tudo isso flui num estilo sóbrio, ágil, numa linguagem esbelta e escorreita, sem rebuscamentos impertinentes, sem excesso de detalhes, enfim, sem floreios e firulas literárias.

Os Luzeiros do Mundo é desses livros que se lêem de uma sentada, pelo prazer que proporciona, e, quando se chega ao fim, vem-nos logo a idéia da releitura.

____________
*Wilson Pereira é poeta, contista, ensaísta e autor de livros infantis. Autor dos livros de poemas: Escavações no Tempo, 1974; Menino sem Fim, 1988, A Pedra de Minas, 1994, e A Pedra de Minas – Poemas Gerais (antologia poética), 2002. Publicou ainda o livro de contos Amor de Menino, 1997, e os livros infantis Pé de Poesia, 1ª edição, 1995 (está na 5ª edição), Vento Moleque, 2002, e Riozinhos de Brinquedo, 2006.
/////