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terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Reportagem (Nilto Maciel)



Há três dias na cidade, quase nada fizera, a não ser alugar a casa, conversar com o fotógrafo e andar pelas ruas. Puxava conversa com um ou outro, à cata de informações. Todos lhe fugiam. Os que não podiam fugir alegavam muitos quefazeres. Procurasse pessoas menos ocupadas.

Acordou, abriu os olhos. O sol já devia clarear tudo. Pôs-se a relembrar um sonho. Levantava-se, dirigia-se ao quintal. Onde andavam o galo e as galinhas? Lavava o rosto numa pia.

Lembrou-se do fotógrafo. A cama vazia. À noite passada dissera-se cansado de tanta monotonia. Iria bebericar por aí, procurar mulheres. Onde andaria? Talvez ainda dormisse no quarto de alguma rameira.

Silêncio assustador. Nenhum galo cantava. As galinhas não cocoricavam. E os vizinhos, os transeuntes, os cachorros, os burros por que não davam sinal de vida? Melhor deixar o sonho para trás e cuidar das obrigações. Talvez outra criança tivesse desaparecido. Ou mais uma jovem tivesse sido raptada.

Espreguiçou-se e caminhou para o quintal. Sim, o sol já clareava tudo. E os galos e as galinhas dos vizinhos por que não cantavam e cucuricavam? Lavou o rosto na pia. Pensou num café. Comprara bolachas e biscoitos. Todo o dia pela frente. Mais conversas, tentativas de conversas.

E o sonho? Preparava um café, abria um pacote de biscoitos. Não, o sonho não tinha a menor importância. Não adiantava relembrá-lo. Afinal, quem não sonha? Melhor sair à rua. Talvez outro homem tivesse ido embora da cidade. E mais uma vez ninguém saberia explicar o motivo dessa fuga misteriosa. A mulher apavorada, triste, revoltada. Os filhos chorosos. Os vizinhos cheios de maledicências. “Fugiu para juntar-se à amante. Um sem-vergonha.”

Procurou a cafeteira. Pareceu-lhe ouvir um canto de galo. Imobilizou-se, agarrado à vasilha. Nada, nem o mais ameno cucurico. Voltou ao quintal. O vento balançava os galhos do limoeiro. O galo seria do vizinho da direita ou da esquerda? E se olhasse por cima do muro? Preferiu ir à porta da rua. Olhou para os dois lados, para as casas em frente. Todas as portas fechadas. Ninguém na rua. Talvez fosse cedo demais. Não, o sol já ia bem alto. Hora de estarem todos bem acordados. As mulheres varrendo calçadas, os meninos brincando. E os jumentos? Pelo menos o do leiteiro. E os cachorros? Pelo menos um deles revirando latas de lixo. E os gatos? Talvez catassem borboletas nos quintais.

Voltou-lhe à mente o sonho. Ouvia um canto de galo. Seria o galo do quintal da esquerda ou da direita? Melhor deixar o sonho para depois. Precisava averiguar aqueles estranhos acontecimentos. Por que tantas crianças e moças desaparecidas? Existiriam mesmo gangues de raptores na cidade? Segundo a polícia e a imprensa, as crianças eram vendidas no exterior. E as moças? Quem as raptava? E os homens, seriam também raptados ou abandonavam suas famílias?

Teve vontade de cantar para acordar os vizinhos. Talvez não soubessem ser dia já. E se todos estivessem nas igrejas? Aquele povo vivia rezando, aos pés dos padres, cheio de pavores. Olhou na direção da igreja matriz. Viu apenas as torres e o relógio. Os ponteiros nas mesmas posições dos ponteiros do seu relógio.

Retomou o sonho. Chegava ao quintal. Nada de cantos e cucuricos. Apenas os galhos do limoeiro balançando-se.

Tolice aquele sonho. Na realidade as coisas eram muito mais buliçosas. Turbulentas até. Não tanto depois de sua chegada à cidade. Os raptos, as fugas não mais haviam ocorrido após sua chegada. E o fotógrafo onde andava? Teria voltado à capital? E se estivesse morto, assassinado num salão de cabaré? Deveria procurá-lo. Não, melhor ir até a igreja. O povo da cidade rezava por sossego. Fechou a porta e saiu. Todas as portas e janelas fechadas. Apressou o passo. Precisava chegar logo à matriz. Nas ruas nenhum sinal de vida. E se assobiasse uma canção? Aproximou-se do templo. As grandes portas fechadas. O povo todo estaria dentro? O padre poderia ter falado de abrigo divino.

Encostou o ouvido a uma das portas. Silêncio absoluto. Onde estaria o povo? Voltou-se para a cidade. Passarinhos e pombos voavam e pousavam nos fios da rede elétrica, nas árvores, nos telhados. Olhou para o céu. Sentiu-se tonto. Pensou em sentar-se no chão. Melhor buscar uma sombra. Um banco de praça. Sentiu sono. Não, não deveria dormir na rua. Voltaria para casa. Talvez o fotógrafo já tivesse retornado. Pôs-se a caminhar. Não queria mais ver as pessoas. Parecia voar. Como se o vento o conduzisse, o arrastasse. Quando cuidou, abria a porta da casa. Cambaleava. Iria morrer? Sentou-se à beira da cama. Onde andava o fotógrafo? Deitou-se. Retomou o sonho. Chegava à porta da rua. Todas as portas e janelas fechadas. Vontade de cantar, acordar os vizinhos. E se todos estivessem na igreja? Fechava a porta e saía. Ninguém na rua. Punha-se a assobiar uma canção. As grandes portas do templo fechadas. Pombos e passarinhos voavam. Sentia-se tonto. Olhava para o céu. Melhor regressar à casa. Voava. Num átimo chegava ao ponto de partida. Abria a porta e corria ao quarto. Sentava-se à beira da cama. Onde andava o fotógrafo? Deitava-se. Logo se punha a sonhar. Acordava, abria os olhos e dirigia-se ao quintal.
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