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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

George Orwell (Franklin Jorge)

Ao deputado José Dias de Souza

(George Orwell)

Eu era menino no Estevão quando ouvi pela primeira vez da boca de minha avó materna o nome do autor de A Revolução dos Bichos que ela leu para mim, uma tarde após o almoço, sentada numa cadeira de balanço enquanto eu repousava a cabeça sobre os seus joelhos. Trata-se de uma fábula moderna, explicou-me, escrita por um inglês que à maneira de La Fontaine substituiu os seres humanos por animais; na trama engendrada pelo autor eles vivem em uma fazenda modelo...
Embalado por sua bonita voz de contralto, ouvi atentamente o conto um pouco extenso, publicado numa das edições da revista Realidade que divulgava todos os meses um autor, entre os quais lembro ainda dos nomes de Walmir Ayala [O Coelhinho Miraflores] e Borges, Jorge Luis Borges [O Homem da Esquina Rosada], que se gravaram misteriosamente em minha memória. Creio que eu teria nessa época doze ou treze anos e já pensava seriamente em tornar-me escritor.

Menino solitário, tinha Orwell o hábito de inventar histórias e de travar longas conversas com pessoas imaginárias – tal como eu próprio costumava fazer, passeando à sombra dos carnaubais – numa antecipação ao indivíduo autônomo que viria a ser com o tempo, como um “emblema de um período histórico e uma exceção entre os seus pares”, segundo a exatíssima definição forjada pelo jornalista Daniel Piza, seu apresentador brasileiro em relativamente recente edição de Dentro da Baleia [Cia. das Letras, 2005].

Celebrizado por A Revolução dos Bichos, considerada uma alegoria anti-stalinista e, sobretudo, pelo profético e incômodo 1984, romance que antecipa, com as cruezas do realismo, a vida do individuo sob um aterrorizante e onipresente controle estatal que não reconhece a individualidade e a liberdade de expressão; enfim, um regime sinistro e universal representado pela figura do Big Brother [que inspiraria o reality show homônimo], tirano impessoal que tudo sabe e tudo vê descrito, por Orwell, com impiedosa e visionária lucidez.

O escritor e jornalista inglês, falecido aos 56 anos em 1950 com a mesma idade que eu tenho hoje, acreditava que o individuo autônomo, ou seja, aquele tipo de individuo que defende ideias próprias e cultiva o mau vezo de pensar que a política é inseparável da coerção e da impostura, seria, por sua integridade e probidade intelectuais e morais, eliminado da existência...

Tinha o criador do Big Brother habilidade com as palavras e uma especial capacidade para enfrentar fatos desagradáveis, compensando-se, ao escrever e produzir uma obra, dos fracassos que resultam dos embustes com a vida cotidiana.

Exemplo, ele próprio, de indivíduo autônomo, como todo escritor cônscio do que cria, enfrentou George Orwell com dignidade inexcedível as adversidades, entre as quais a fome, a insistente pobreza e a sensação de fracasso, sem jamais trair a classe dos escritores – pessoas como ele o reconhece obstinadas e decididas a viver até o fim. E, sempre acreditando que há quatro grandes motivos para escrever em prosa, a saber: 1] o puro egoísmo; 2] o entusiasmo estético; 3] o impulso histórico e 4] o propósito político que ele, fiel a princípios, possuía em alto grau, como um “emblema de um período histórico e uma exceção entre os seus pares”.

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