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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Uma leitura poética da natureza (João Carlos Taveira)




            Lançado recentemente em Brasília, o livro As Árvores Falam (Ed. Movimento, 2012), de Eugênio Giovenardi, vem comprovar a vocação inequívoca de seu autor para os assuntos relacionados com a Natureza, o meio ambiente e, enfim, a vida no planeta Terra. Ambientalista e estudioso do cerrado há quase quarenta anos, Giovenardi não descuida não só do presente (tão ignorado) como também — e principalmente — do futuro de nossos descendentes (tão comprometido e incerto).

           
             Neste livro escrito em forma de crônicas prepondera um diálogo permanente entre o narrador e alguns personagens mirins, que vai desaguar na grande preocupação de todos: ou renovamos nossa maneira de pensar a respeito da natureza que nos cerca e da qual fazemos parte, ou sucumbiremos à degradação e destruição da fauna e da flora por nossas próprias ações comportamentais; ou, pior ainda, em alguns casos, pela ausência delas. Para o autor, o homem precisa urgentemente repensar o seu habitat, se quiser preservá-lo e garantir sua sobrevivência.

            E assim o diálogo se abre aos seres animados e inanimados. A conversa que Eugênio Giovenardi estabelece com pedras, paus, cupins, flores, galhos, ramos e árvores termina por seduzir insetos e passarinhos. Mas não só. Vez por outra, ouvimos e presenciamos palpites e sugestões de cobras, lagartos, macacos, tatus, gatos do mato, bem como de pacas e outros pequenos roedores — preocupados com a derrubada de árvores, poluição das águas e, o que é terrível, a ação criminosa do fogo.

            Esse universo fantástico e miraculoso é recriado a partir do Sítio das Neves, do qual o autor se diz hóspede (a propriedade pertence a todos os seres que lá habitam) e que foi tombado pelo Instituto Brasília Ambiental (Ibram) como Área de Preservação Permanente, por apresentar características muito próximas de uma política estabelecida pela Unesco em todo o mundo. Ali, com a ajuda inestimável de cupins, foram construídas e estão sendo preservadas mais de 100 represas de cabeceira, que protegem diversas nascentes e garantem a vida saudável de mil e uma espécies dos reinos vegetal e animal.

            Estendendo-se por quase 200 milhões de hectares, o cerrado é o segundo maior bioma do nosso país. E, como sabemos, a vegetação é única, por suas características especiais. Por isso, devia ser preservado com mais rigor, para impedir que as estatísticas continuem sendo favoráveis à Amazônia, quando se trata de devastação e de ocupação indevida. Lá, devido a uma série de fatores e circunstâncias, dentro de 20, 30 anos as áreas devastadas se reconstituem automaticamente. Aqui, infelizmente, não há salvação para a devastadora e predatória ação do homem. Nas áreas de cerrado destruído só há duas expectativas: ou o solo vira deserto ou cede às erosões.

            As Árvores Falam é um livro muito pertinente ao momento político que o país atravessa. E é um alerta para as gerações presente e futura. Depois da construção de Brasília, que mudou a face da nossa história e alterou o mapa do Brasil, a preservação do cerrado passa a se constituir — para todos nós — numa preocupação permanente. Eugênio Giovenardi, com esse livro, dá o exemplo e aponta com clareza e desvelo os desastres que ainda podem ser evitados. É leitura urgente, se não obrigatória.  
             
               Brasília, 8 de outubro de 2012.

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