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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Passarinhos na prateleira (Nilto Maciel)







Ganhei, entre março e abril de 2013, mais três livros de prosa ficcional. Fiz anotações às margens e agora tentarei rabiscar umas impressões de leitura, embora não tenha compromisso com ninguém, sejam autores ou editores de jornal. Só o faço porque uma das missões a mim dadas se resume a divulgar a nossa literatura contemporânea.

        Tenho lido apenas mimos e presentes, quase todos doados por trovadores e prosadores. Vez por outra, ganho um Cervantes, um Juvenal Galeno, um Borges. Nesse caso, são artes de magia. Recebo também literatos mais novos, a exemplo de Agustina Bessa-Luís e Francisco Azuela, que meus amigos são também universais e atemporais. Pois prendeu minha atenção, depois de ler A lucidez dos insanos (Brasília: Art Letras, 2013), de Assis Coelho, um volume de Agustina Bessa-Luís. Dele ou dela, todavia, não anotarei um vocábulo sequer, porque não comento ficcionista estrangeiro ou famoso: só analiso brasileiro de meu tempo e situado bem longe da fama. Passei aos Contos vertiginosos (Porto Alegre: Editora Bestiário, 2012), de Roberto Schmitt-Prym. Agarrei-me, a seguir, ao Rotonda de gatos ilustres/Panthéon des chats illustres, do mexicano Francisco Azuela. (Cito títulos de fora do Brasil – e não passo da citação –, só para afirmar quanto prezo a nossa literatura, em detrimento da forasteira. Mais uma explicação: os dois opúsculos alienígenas também foram doações de amigos, pois há mais de vinte anos não compro esses sagrados objetos “inventados” por Gutemberg. Isto quer dizer o seguinte: não frequento livraria nem compareço a lançamento. Depois foi a vez de Lá nas marinheiras e outras crônicas (Fortaleza: Imprece, 2012), de Bruno Paulino.

Vejamos, de relance, alguns aspectos de cada uma das três coletâneas brasileiras. Comecemos pelo mais conhecido (por mim). Não o escritor (que nunca vi), mas a seleta, pois fui dela prefaciador. Copiemos trechos do prefácio de A lucidez dos insanos: “Assis busca retratar as questões de relacionamento das pessoas em aglomerados urbanos, a vida na sua fluidez diária, contínua, pujante e também degradante e degradada. ‘Cachimbos, cigarros e garrafas eram compartilhados sofregamente’ (...) ‘Tudo foi feito, como convém às ações espúrias, na calada da noite. Ouviu-se uma grande explosão às quatro da manhã’”.

“Nota-se também na prosa de Assis Coelho o uso frequente do ponto de vista onisciente, além da quase ausência de descrições de ambientes e de falas, quase sempre ‘mostradas’ ou ‘repassadas’ ao leitor por via indireta: ‘Outros falavam que tinham sido mortos a tiros ao visitarem parentes na Terra Santa. Alguns asseguravam que haviam abandonado a cidade para viverem na quietude entre animais no campo’’’.

“A descrição/narração de atos de violência se dá como fato passado e não como se fosse ao vivo. Não há cenas expostas de perto ou no momento de sua ocorrência, diferente do cotidiano do jornalismo de televisão e na ficção urbana moderna. Nenhuma nudez explícita, nenhuma cena de sangue. Suas histórias são narradas como fatos passados, sem fotografias ou imagens em movimento. Em razão disso, os verbos estão sempre no pretérito”.

“Assis Coelho pratica também o miniconto. Veja-se ‘O inquilino’. No mais das vezes, porém, persegue a história linear e concisa. Não tão minúscula, a ponto de se perder de vista (incidentes capsulares semelhantes a axiomas, ditados, aforismos ou meras frases extraídas de obras de maior fôlego). Além disso, brinca com ele mesmo ou com o escriba sem cara, sem nome (‘O conto perdido’). As agruras do homem letrado, sempre em busca de reconhecimento. Mesmo em sua própria casa”.

Roberto Schmitt-Prym é, dos três, o mais próximo de meu conhecimento, desde a criação da revista eletrônica Bestiário, da qual foi fundador e participo, a partir dos primeiros vagidos. Tem editado meus catataus e temos nos encontrado. Entretanto, não quero me referir a ele, e sim ao seu primeiro conjunto de narrativas, o fino Contos vertiginosos. São relatos condensados: vão do mínimo (uma linha) até uma página inteira (“Cortejo”). Na observação de Luiz Antonio de Assis Brasil, na primeira aba, o artesão gaúcho revela “uma visão realista de nosso quotidiano”, com personagens (sem nome) em constante deambular “por um universo em que a esperança é coisa rara”. Roberto Schmitt-Prym aprendeu, pelo menos, um dos fundamentos da arte de compor episódios abreviados (foi aluno do próprio Assis Brasil e de Charles Kiefer): não deu nomes às suas criaturas.

Outra lição aprendida direitinho: nada de narrações soltas e dispersas. A microficção exige rédea curta, estrada estreita e cavalgada (cavalo e cavaleiro) breve. Para ser fiel à metáfora, conduzo o leitor ao primeiro drama (“Cavalgada”): obra-prima. Além do mais, nada de frases longas, porque a composição mal se inicia (“A velha casa é cheia de ruídos”) e logo chega ao fim (“Cansado não ouve as vozes que o chamam”). No meio, acanhada fantasia (“Vozes”). Não é comum em estória lacônica o uso do diálogo direto. Contudo, Roberto sabe usá-lo. Leia-se “Tempestade”. É maravilhoso “Cachorros no jardim”: o medo, o costume, o cotidiano, a estranheza, logo tornada trivialidade. Lembremos aquele famoso exemplo de Augusto Monterroso. Ora, direis, trata-se da síntese da nata. Sim, é verdade. No entanto, além do creme, vê-se nas duas peças é o ser humano apto a se acostumar com facilidade ao estranho.

Bruno Paulino eu não conhecia nem de nome. Agora conheço um pouquinho. Não sei se publicou mais tomos ou se escreve short stories, poemas, romances. Este é de crônicas. E o título ele o colheu da primeira. E onde ficam as Marinheiras? Talvez em Quixeramobim, sertão do Ceará, terra de antigos Maciéis e Araújos e de onde partiu aquele velho Antonio Conselheiro para incendiar o Brasil. Virá daquele tempo ou daquelas paragens o título do escrito e do impresso? Quiçá de uma canção de Fausto Nilo, também nascido naquela cidade.

Não sei se são feitas de memórias as páginas de Bruno Paulino. Se não são, serão de observações. E isso dá no mesmo, pois não se pode falar do que se vê ou se verá, porém do visto. E o que viu o cronista? Viu-se “péssimo atirador de baladeira”, para deixar “em paz os passarinhos” e, assim, se deixar em paz. Menino desajeitado, incapaz de matar o menor dos seres vivos. De igual modo agiram o compositor Fausto Nilo e todos os poetas de todos os tempos e todas as latitudes. Porque matar, seja passarinho, raposa ou gente é sina de maldade. Embora seu pai não fizesse isso (matar passarinho) por maldade. Pois Bruno sai em passeio pelo passado, por gentes e bichos, terras e águas (mesmo as poucas do sertão). Por sua Quixeramobim (“lugar quente, um verdadeiro miolo de vulcão”). Revisita seus pais, Patativa do Assaré, pessoas de sua cidade natal, o poeta Quintino Cunha e diversos viventes.

Fico-me por aqui, pois outros volumes me esperam deitados nas prateleiras. E ai de mim se não os ler, um a um, e se não os mencionar em meu blog. Pois de lá fogem para o mundo, feito passarinhos, para dor ou gáudio de seus criadores.

Fortaleza, 27 de maio de 2013.

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