Pesquisar este blog

terça-feira, 2 de julho de 2013

O sertão de Riobaldo – 4 (Enéas Athanázio)


(continuação)

Riobaldo Tatarana, narrador de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, é um dos personagens mais curiosos da literatura nacional. Homem do sertão, encarna como ninguém o conhecedor daqueles ínvios dos Gerais mineiros e goianos, falando sobre eles com a precisão e a familiaridade de quem os percorreu em todas as direções, atento e interessado, observando e aprendendo. Também impressiona a imensa galeria de figuras que conhece, desde os coronéis senhoreantes até os mais humildes dos viventes sem nome: fulão, sicrão, beltrão e romão. E surgem então os mais desusados e estranhos nomes e alcunhas, revelando a portentosa imaginação criativa de Guimarães Rosa. É um livro tão amplo, repleto de fatos e figuras, que me parece impossível ao leitor, por dedicado que seja, apreendê-lo em toda sua grandeza.

                               Sensível à imensidão do ambiente que o cerca, Riobaldo sente com intensidade a pequenez do ser humano naquele meio e conclui que “esses Gerais em serras planas, beleza por ser tudo tão grande, repondo a gente pequenino”, porque “homem a pé, esses Gerais comem.” Em outra passagem, afirma: “Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador...” Isso se explica porque “o sertão está em toda parte.” E tem suas leis próprias: “Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal...” Mas sertão é mais, muito mais. “Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso.” Tudo lá é tão parado que “no sertão, até enterro simples é festa.” Como homem inteligente, deseja sair do sertão: “A gente tem de sair do sertão!” Mas isso não é fácil, então a solução é uma só: “Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro...” O sertão, enfim, á uma jornada, um caminho, é uma “travessia perigosa, mas é a da vida. “ Como a vida, “se alteia e se abaixa”, mas “as curvas estendem (o olhar) para sempre mais longe” e “ali envelhece vento...” Sempre alimentando a esperança, a vida vai passando e a velhice chegando. Ninguém como Riobaldo entende o sertão.

Mais adiante, em seu perlongado monólogo, Riobaldo se refere ao Coronel Rotílio Manduca, em sua Fazenda Baluarte. E cria, então, um dos tantos enigmas que Guimarães Rosa semeou em seu romance. Segundo os intérpretes do escritor, Rotílio Manduca teria sido usado por ele como modelo para o terrível Zé Bebelo, chefe jagunço que pretendia limpar o sertão da jagunçagem. E assim, Manduca e Bebelo, o modelo e o personagem, passam a conviver na mesma história, lado a lado, deixando o leitor diante de uma questão insolúvel. Rotílio Manduca, segundo se dizia, era um pistoleiro do vale do São Francisco, hábil na facada e no tiro, a quem atribuíam mais de duzentas mortes. “Sequinho, espigadinho, vestido cidadão, com mãozinhas pequenas, pezinhos, e do ar sempre assustado”, transformara-se numa espécie de justiceiro daquelas veredas, fazendo justiça sumária e com as próprias mãos. Não obstante, admirava os escritores e poetas, lia os clássicos e cultivava amigos intelectuais. Deixava de lado o gibão de couro, envergava ternos de linho brilhante e desfilava por Belo Horizonte e pelo Rio de Janeiro, onde era visto em ilustres companhias, entre as quais Medeiros e Albuquerque, o ministro Ataulfo de Paiva, do STF, e o professor de Finanças Alberto Deodato, em cuja casa se hospedava. Relatava este último que Rotílio aparecia sem aviso, portando imensa quantidade de disfarces (batinas, bigodes e barbas postiços, óculos escuros de vários modelos, perucas etc.), instalava sua rede na varanda e lá permanecia por alguns dias. Bem vestido e elegante, frequentava lugares da moda da antiga capital e, de repente, sem aviso ou despedida, anoitecia e não amanhecia. Por ironia da sorte, foi assassinado a facadas enquanto dormia no camarote de um navio-gaiola, embalado pelas águas do Velho Chico. Não se sabe onde termina a verdade histórica e começa a lenda, mas isso se explica porque – como diz Riobaldo – “tudo naquela parte dos Gerais era ilusão de haver e não se saber. O mundo ali tinha de ser e de se recomeçar...”     
       
F I M

/////