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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Dizimados pela erva-mate (Manoel Hygino)





O preço do mate no Brasil está aumentando. A produção da erva está diminuindo e os usuários do chimarrão já reclamam. Vale a pena voltar ao passado e conhecer a história das gerações de brasileiros que se dedicaram à exploração dessa riqueza. Hernâni Donato é autor de um livro, ficção por sinal, que trata do tema. Recentemente falecido, Donato deixou uma obra que merece ser lida, já com quatro edições (a mais recente da Letra Selvagem, de Taubaté, SP), um filme que representou o Brasil no Festival de Veneza em 1959 e duas peças teatrais. 

Para conhecer o Brasil, há de se recorrer à literatura e, no caso da mate, “Selva Trágica” é fundamental. Documento eloquente, de notáveis revelações, de alto poder comunicativo, é obra de grande valor estilístico, como o classificou Fábio Lucas. O romance do escritor paulista ajuda a conhecer e entender um pedaço do Brasil no século que passou e do qual, apesar de todos os esforços, sabemos tão pouco.

O Curaturã, empregado e quase escravo, que passa 48 horas ininterruptas revirando a erva no fogo, descreve a tarefa: “... Então se começa a respirar fumo e resina, a ser depurado em suor e fumaça. Primeiro a gordura, depois, as carnes, a saúde, escorrem pelo corpo, nem saliva na boca, nem dentes nas gengivas, nem lágrimas nos olhos. Vai sendo cozido dia a dia: os intestinos secos e mortos... envenenando o corpo: o estômago ácido, os pulmões cavernados, as veias saltadas, os olhos afundados. E, dia e noite, vem forquilha nas mãos, revolvendo erva. No fim da primeira safra desce um fantasma do piso onde subiu um homem”. 

O autor descreve o cruel serviço, em todas as fases e nuances. Os ervateiros trabalhavam desde as três horas da madrugada até a tardinha. Diariamente, transportavam um fardo de erva com 20 arrobas, preso à testa, aos ombros e ao peito. Além do labor, o risco de tropeçar (porque não podiam olhar o chão) e, se acontecesse, a morte seria instantânea pois a coluna vertebral se romperia.

Esses homens (?) eram recrutados nos povoados da fronteira Brasil-Paraguai, levados com promessas jamais cumpridas. Hernâni Donato registra que não havia organização desses infelizes, cujo protesto era a fuga. Mas os algozes da companhia que explora essa produção e comercialização batiam e espancavam, trapaceavam, com indiferença e brutalidade. E o governo longe, com vista fraca para enxergar o que acontecia no meio do mato. 

mhygino@hojeemdia.com.br

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