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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Proust e Ruskin (Franklin Jorge)





Em seu exemplar prefácio a “Sésamo e os lírios”, Marcel Proust declara que um livro nunca pode nos contar aquilo que desejamos, mas tão-somente despertar em nós o desejo de saber, pois não é possível recebermos a sabedoria de outrem; é preciso criá-la por nós mesmos.

Proust sugere que o valor da leitura, na infância, não reside no livro em si mesmo [que no seu caso era “O Capitão Fracasso”, de Théophile Gautier] e, sim, nas lembranças inconscientemente conservadas nele, de tal forma valiosas para nosso julgamento atual que, se por acaso, voltamos hoje às mesmas páginas, não é só porque elas representam o único calendário que sobrevive dos dias desaparecidos.

Durante toda a sua vida, Proust sentiu-se encantado pelo livro de Gautier, que manejado por seu talento, ganhou um novo titulo [“Francisco o Bastardo”] e um novo autor [George Sand], tantas vezes citado, especialmente no volume “O Caminho de Swann”, que integra os sete volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”.

Ao contrário de Ruskin, engrandecido na tradução e no prefácio de “Sésamo...”, Proust acreditava que a solidão da leitura conservava a energia mental que em geral se dispersa numa conversa. Grande conversador, dotado do que Baudelaire chamaria de “a arte do feiticeiro”, Proust achava a conversa perda de tempo para o escritor que se dispõe a escrever com seriedade e eficácia.

O significado secreto do prefácio proustiano pode ser atribuído ao reconhecimento de que, ao contrário da leitura, a conversa se torna perigosa quando deixa de ser um estímulo e passa a ser um mero substitutivo.

É justamente nesse prefácio que Proust proclama a sua emancipação de Ruskin e de todos os demais escritores que admira, porque a partir daquele momento ele começava, de fato, a escrever o seu romance-rio tantas vezes protelado.

Em 1904, Proust se recusa a fazer uma nova tradução de Ruskin, informa-nos o minucioso Painter, seu biógrafo inglês, porque achava que se aceitasse a encomenda feita por um editor de Veneza, não poderia dedicar-se a escrever a sua própria obra.

Como Proust, Ruskin tem uma escritura aparentemente desordenada, repleta de digressões e recorrências polifônicas mais frequentes na música do que na literatura; ambas passam de uma ideia para outra, sem pausa, mas há no esteta inglês e no francês, afinidades profundas que impõem à obra – mesmo que ela não queira –, uma lógica misteriosa. Proust compreendeu que há sempre na vida de um grande escritor um momento em que ele, para o bem de sua obra futura, deve deixar de admirar mesmo os seus mestres.

Proust perseguiu uma unidade majestosa, capaz de sustentar a diversidade da sua obra; e, ainda segundo Painter, uma conclusão que retomasse, em forma de coda ou de fuga, todos os temas suscitados por sua memória involuntária, deflagrada ao saborear a madeleine encharcada no chá de tília, ou, num episódio igualmente marcante mas pouco referido por seus estudiosos, pela lembrança dos sinos da igreja de Martinville, tantas vezes visto na companhia do doutor Percepied.

Daí a natureza polifônica do seu livro, construído como uma catedral gótica, para durar, ampliando-se em círculos concêntricos a cada leitura, como uma representação mais ampla e misteriosa dos sete céus superpostos prefigurados na essência budista. 


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