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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Aí eu comecei a cometer loucuras (Nilto Maciel)

(Cleto se recompôs e eu voltei a brilhar na sala.)

Esta segunda parte da crônica, dedicada a alguns impressos recebidos em janeiro de 2014, nasceu na mesma tarde da conversa com Cleto Milani, na qual comentamos Anderson Braga Horta e diversos malabaristas da palavra.

Ia tarde pelo fim, e ainda restavam dois objetos sobre a mesinha. Apressei o passo (ou a língua) e me entreguei à tagarelice. “Anote tudo no caderninho, como tenho procedido quando você se manifesta”. E o vovô se enervou. Tivesse calma. Eu me expressaria com clareza e sem pressa. E dei início à prédica: 


Inventário de desimportâncias, coletânea do grupo O Bodoque, é composto de narrativas. Assim está anotado na ficha técnica. Os autores são Cecília Cassal, Cláudio B. Carlos, Cleber Pacheco, Fábio de Souza e Gladstone Machado de Menezes. O segundo é o coordenador editorial do grupo e eu o conheço há alguns escritos. O terceiro também não me é desconhecido, além de ser ‘autor’ de publicação mencionada nesta tarde. A moça eu a desconheço, sobretudo por ser inédita e morar no extremo sul do Brasil. Mostra um jeito próprio de escrever, embora muito próximo do coloquial. Além disso, aderiu à onda do continho curto, do flash. Ou nem tanto, pois ‘Volúpia’, de quatro páginas, começa como um sonho esquisito: ‘Nesta casa tem pedaços de coral e tem elefante que um dia agarrou nas vestes e hoje prende-se nas cortinas’. Não é uma simples contista ou narradora de histórias. Tem imaginação vigorosa e sabe lidar com as palavras, as frases”.  

Disse muito mais (porém, não há espaço para tudo) e passei aos contos do segundo: “Claúdio B. Carlos (meu conhecido de longas datas). Diz-se ‘poeta da nulidade, filósofo do nada e editor de livros marginais’. Seus continhos esquadrinhei há alguns anos e por eles quase me petrifiquei, qual sapo na lagoa, galinha no terreiro e gente na beira da vida. Há uma delícia de narração em ‘O círculo’: ‘Foi num junho que decidi que não gostava mais do meu pai. Dos perdigotos e arrotos à mesa. Da cara e das mãos de ferro fechadas – acho que as mãos de ferro do meu pai estavam enferrujadas, pois nunca se abriam para afagos’. Esse é escritor em qualquer sentido, indo e voltando”. 

Impus uma pausa maior, andei pela sala (tencionava dar uma espiada nos garranchos do macróbio) e voltei à minha cadeira de balanço.
            
“Cleber Pacheco comparece com várias estórias de feitio inusitado. Em ‘Identidade’, tudo é estanho, diferente da maioria das novas seleções de prosa de ficção, bem como em sites. Não pela linguagem, comum, sem muitos atavios. Nem pelos temas em voga das histórias de crime, a vida no morro, na periferia, o mundo da pobreza urbana, as gírias, os grupinhos, a violência gratuita. Nas peças capsulares de Cleber transitam personagens pelo espaço dos excluídos, dos diferentes, dos chamados loucos. Como se vê em ‘Aqui’ e ‘O espelho’. Estranhos acontecimentos? Não, nada de extraordinário acontecia. ‘Tratava-se muito mais de um desacontecimento do que de um acontecido’ (p. 85). Um sujeito passava todo dia pela mesma rua e nada acontecia de anormal ou incomum. Tudo repetido. No entanto, um dia ele parou e paralisado ficou”.

O conviva se aborrecia com meu falatório. “Não pretende me dar a palavra agora?” Tranquilizei-o: “Talvez no próximo sábado, meu irmão”. E voltei a lecionar: 

“Fábio de Souza engendra relatos comprimidos, em discurso despojado, quase coloquial. ‘Lá pelas tantas, quando nos calamos...’ (p. 99). Os nomes dos personagens nem sequer são mencionados. O narrador (escondido atrás da narração) se refere a outro personagem, sempre a chamá-lo de ‘ele’. A narração (fluxo da consciência?) às vezes se dá aos borbotões e em completa desordem: ‘Debruçou-se sobre o corpo ainda febril, a sombra leitosa de sua já quase cegueira consumindo o rosto que penava para não esquecer, o gozo veio em seguida, extenuado, como se aplacando o breve instante apenas em que penetrava a carne enferma da mulher e desejava falecer ali mesmo’ (...). É de sufocar o leitor”. 

Interrompi minha exposição, no intuito de esticar os músculos das pernas, e caminhei em busca da porta. O ancião terá desconfiado de minhas intenções, pois levou o caderno ao peito. Sem abrir a boca, chamei-o de ‘bode velho’ e me pus a bradar: 

“Gladstone Machado de Menezes é igualmente cultor da alegoria sem enredo e sem personagem em perfeito delineamento (nunca se sabe quem narra e a quem este se refere). Como se fossem falas soltas ou extraídas de diálogos de romances ou contos longos. Tudo começa de repente e sem explicação ou sem começo. Tudo começa no meio ou no fim. Como em ‘O celular’, cujas primeiras frases são: ‘O celular estava na bolsa. No banco do passageiro’ (...). Esse modelo, no entanto, não é novo. Nas letras de canções ‘antigas’ os melhores compositores usavam essa técnica. Como em ‘Loucura’, de Lupicínio Rodrigues, assim começado: ‘E aí eu comecei a cometer loucuras’ (...)”. 

Depois de alguns minutos em silêncio (o sátiro do Benfica cochilava ou fingia serenidade), dei um grito medonho: O APRENDIZ. O bichinho tremeu todo (ainda mato o coitado de susto) e eu me deixei gargalhar, sadicamente. Acanhado (a gente se envergonha de ser frágil, minúsculo, miserável e humano), Cleto se recompôs e eu voltei a brilhar na sala: 

O aprendiz de poeta, de Cláudio B. Carlos, é livrinho de criança, principalmente as de vinte a quarenta anos de idade. As ilustrações de Fredy Varela lembram tempos antigos, de crianças a chupar picolé e adultos de olho em pipas no ar. A dicção de Cláudio não é infantil ou infantiloide. O personagem principal é Fernando e não Chico Pançudo ou Toquinho de Amarrar Onça: ... ‘vez em quando, após uma fungada, passava as costas da mão no nariz’. Nos diálogos, o leitor brasileiro (exceto o sulista) poderá encontrar alguma dificuldade, ante o tratamento usado pelo menino Nando e o versista Abel. Como na pergunta: ‘Abel, tu não anotas os poemas que tu crias?’ As crianças brasileiras, na sua maioria, fariam a pergunta assim: ‘Abel, você não anota os versos em papel?’ A presença da poesia de Manuel Bandeira e Fernando Pessoa na trama de O aprendiz de poeta poderá dar noção de pedantismo do gaúcho. Com a escola de hoje e essa mania dos educadores de se servirem apenas do jargão ditado pela televisão e pelo sociologismo moralista (aquele dos professores e doutores analfabetos, repletos de preconceitos tão nocivos quanto os que querem combater, e segundo os quais Monteiro Lobato é um mal), o opúsculo de Claúdio poderá terminar encalhado, se não for tachado de ‘fora da realidade’”. 

Chegava a tarde ao fim. Eu me sentia exaurido e quase faminto. Convidei meu amigo a se retirar e lhe ofereci nove tomos recém-chegados.  

Ao vê-lo capengar no rumo do portão, pensei cá comigo: Ainda o verei morto, de tanto ler.
                                                      
Fortaleza, 24/26 de janeiro de 2014. 

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