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terça-feira, 11 de março de 2014

Calmon: A invasão (Enéas Athanázio)




Acontece neste ano o centenário de um fato histórico pouco divulgado em nosso Estado, talvez porque envolto numa série de outros eventos. Refiro-me à invasão da então vila de Calmon, hoje município do mesmo nome, no ano de 1914, portanto em plena Guerra do Contestado (1912/1916).
                     O pequeno povoado modorrava numa tarde de primavera, 5 de setembro, e o dia se escoava como outro qualquer. Ouvia-se o canto estridente do bentevi e o trinado de outros pássaros em meio ao arvoredo folhudo, ainda muito próximo do centro. E o silêncio era violado pelo ruído cadenciado do maquinário da serraria da Companhia Lumber (Sothern Brazil Lumber & Colonization Company), um dos braços do chamado Sindicato Farquhar, instalada na baixada diante da estação ferroviária, do outro lado dos trilhos.
É então que surge na estrada do oeste, na verdade uma simples picada em meio à floresta, um cavaleiro solitário correndo a galope no rumo da vila. Olhos esbugalhados, cabelos eriçados, é o retrato do pavor. Entrando na vila, estaca diante do armazém de Nicola Codagnone a montaria suada cujas virilhas espumam (*). Apeia rápido, entra no armazém onde várias pessoas se encontram, e grita:
Pessoal! Os fanáticos estão chegando e já mataram muita gente. Onde estão os pistoleiros da Lumber?
Há uma correria. Tratam de avisar os operários da serraria, tentam convocar a guarda da Companhia e alertam o telegrafista da estrada de ferro, Antônio. Debruçado sobre o Morse, ele envia um pedido se socorro ao quartel de Timbó Grande, onde se encontra o capitão Matos Costa: “Socorro! Bandidos em Calmon. A vila está sitiada.” As estações recebem e retransmitem o apelo desesperado. Mas é tarde.
Nesse meio tempo uma multidão aponta na mesma estrada do oeste. São cerca de trezentas pessoas, homens e mulheres maltrapilhos, eles com as cabeças raspadas (os “pelados”), elas com longos cabelos soltos. Todos portam uma fita branca e estão armados com velhas espingardas picapau (de carregar pela boca), algumas pistolas enferrujadas, facões e ferramentas de trabalho, além de armas improvisadas, feitas de madeira. Caminham decididos pela rua principal aos gritos de viva São João Maria e aos Doze Pares de França que reboam na morraria próxima. São liderados por um jovem entre os 16 e 17 anos, de nome Francisco Alonso, conhecido como Chiquinho. Era loiro e sua figura é deveras controversa. Segundo alguns, foi violento desde cedo; para outros sempre se mostrou ponderado. Não obstante, votava ódio mortal aos gringos, aí se incluindo os funcionários grados, mesmo brasileiros. Diante da multidão, ele gritava:
  Morte aos gringos! Poupem as mulheres e crianças!
E o povaréu rugia:
Roubaram nossas terras! Mataram nossos filhos! Agora queremos vingança!
Assim decididos, iniciaram o ataque. Invadiram e incendiaram a estação ferroviária, onde mataram o telegrafista Antônio, atearam fogo às casas e rumaram para a serraria, símbolo do poder estrangeiro. A guarda tentou defender as instalações mas foi contida e os pistoleiros mortos. E tudo foi incendiado numa fogueira monumental. O “colosso” – como era tratada a serraria – ardeu com seus galpões, pilhas de madeira serrada, estoque de toras que estavam no pátio e tudo mais. Segundo testemunhos da época, o fogaréu perdurou por dias e noites, alumiando o sertão em derredor com suas chamas fantasmagóricas. Muitas casas foram arrombadas e destruídas e parte da população conseguiu fugir deixando para trás tudo que possuía. Muitas pessoas foram degoladas.
Consumada a invasão, os revoltosos se retiram para seu reduto. Levam provas do ataque, como armas, alimentos e jóias pertencentes aos americanos. Chiquinho Alonso prega numa parede um recado onde justifica sua atuação como resposta à invasão de suas terras pelos estrangeiros, ato que atribui à República. Em seguida todos se fartam numa churrascada comemorativa. Segundo consta, Chiquinho foi morto durante a Guerra do Contestado. Pouco se sabe sobre ele (**).
No dia seguinte, 6 de setembro, chegou a vez de São João dos Pobres, hoje Matos Costa. Invadida sob a liderança de Venuto Baiano, aqui as ações foram radicais. Toda a vila foi incendiada, mortos todos os homens válidos, não restou pedra sobre pedra. O próprio capitão Matos Costa, um pacifista que compreendia as posições dos revoltosos, foi morto num equívoco lamentável.
As invasões de Calmon e Matos Costa marcaram fundo a população da região e nunca foram esquecidas. Ficaram como marcas indeléveis na sofrida história de uma região empobrecida pela guerra e pela prolongada extração de suas riquezas naturais sem receber qualquer retribuição. Por longos anos viveu no mais completo abandono. Até a ferrovia, a causadora de tudo, está desativada e entregue ao abandono.
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(*) Sobre esse personagem já escrevi nesta coluna (“Curioso capítulo de nossa história”).
(**) Sobre a reconstituição da invasão, consulte-se o livro “A história de Calmon na Guerra do Contestado”, de J. B. Ferreira dos Santos, do qual me vali em parte (Editora da Uniuv – 2009).

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