Translate

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Bocage em quarta edição (Adelto Gonçalves*)

Depois da colocar no mercado em 2004 os volumes I (Sonetos) e VII (Poesias Satíricas, Burlescas e Satíricas), a Edições Caixotim, do Porto, deverá lançar nos próximos dias o volume II da Obra Completa de Bocage, que reúne cantatas, canções, idílios, odes e cantos. Organizada pelo professor Daniel Pires, presidente do Centro de Estudos Bocageanos, de Setúbal, a Obra Completa é constituída por sete volumes, abrangendo muitos poemas que ficaram de fora das edições anteriores de Inocêncio Francisco da Silva, Teófilo Braga e Hernâni Cidade.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sala de estar (Simone Pessoa)

(La Venus del espejo, Diego Velázquez)


Na sala ornada de móveis antigos, uma estante de madeira escura com vitral fosco e jateado repleta de livros empoeirados. Retratos esmaecidos de antepassados na parede. No sofá aveludado, o casal septuagenário ouve suas músicas de época: Orlando Silva, Carlos Gardel, Vicente Celestino, Chiquinha Gonzaga, Amália Rodrigues. No canto, uma vitrola, há muito não utilizada, também prestigia a música emanada de seu descendente, o toca-CD. O idoso se põe a cantar, acompanhando a melodia nostálgica. A mulher se divide em observar o marido e preencher sua revista de palavras cruzadas. Pela veneziana, se entrevê o jardim onde se sobressaem papoulas e bougainvilles.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Banquetes com Proust e outros convivas (Nilto Maciel)



(Felipe Barroso, Nilto Maciel e Carlos Nóbrega, numa pausa do banquete)

Estivemos, Pedro Salgueiro e eu, dia 30 de setembro passado, na Biblioteca Menezes Pimentel, a convite da direção da Secretaria da Cultura do Estado (leia-se Raymundo Netto), para uma conversa com estudantes. “Nunca antes na história deste país” os escritores estiverem tão próximos dos leitores, especialmente dos alunos das escolas públicas.



segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Esquecer (Pedro Du Bois)

Inolvidável: a lembrança se aventura


em paralisações faciais




o medo


transparece


o suor


do corpo




sou o mesmo


em cabelos ralos


em cabelos brancos


em olhos ansiosos




com que procuro


na memória o inolvidável


fazer de conta.


Visite:

- Pedro du Bois - Poemas
- Na Hora do Amargo

/////

domingo, 3 de outubro de 2010

A revista O Saco e o Grupo Siriará (Nilto Maciel)




A história da Literatura Cearense é rica em movimentos e grupos literários, desde os primeiros tempos. E assim permanece. Depois do Grupo Clã, foi a vez dos concretistas e, em sequência, a criação do Grupo Sin de Literatura, composto de poetas e ensaístas, como Barros Pinho, Linhares Filho, Roberto Pontes, Horácio Dídimo, Pedro Lyra, Rogério Bessa e outros. No final dos anos 1970, com o fim dos suplementos literários nos jornais de Fortaleza, os novos escritores também se reuniram, não em grupo fechado, mas com o objetivo de publicar seus poemas e contos, principalmente. Surgia a revista O Saco.



sábado, 2 de outubro de 2010

A Literatura Cearense: Dos Oiteiros ao Grupo Clã (Sânzio de Azevedo)


(O Grupo Clã)

 

Em torno do governador Manoel Inácio de Sampaio, por volta de 1813 a 1817, reuniam-se poetas que formavam os Oiteiros. A estética desse tempo era o Neoclassicismo, ou Arcadismo, e entre esses versejadores estavam Pacheco Espinosa, Costa Barros, Castro e Silva, e outros. Pelo fato de se terem guardado apenas textos de louvor ao governante (afinal, eram manuscritos que estavam no Palácio), Silvio Júlio, em Terra e povo do Ceará (1936), disse horrores desses poetas. Mas Dolor Barreira, principalmente em sua História da literatura cearense (1948), compreendeu que, bem ou mal, os versos dos Oiteiros representavam o alvorecer das letras em nossa Província.

Depois de um período um tanto incaracterístico, no que toca a estilos literários, veio Juvenal Galeno, em 1856, com os Préludios poéticos, ainda fracos, mas já românticos e com motivos do povo, o que viria com mais força em seu livro principal, Lendas e canções populares (1865), aparecido no mesmo ano em que, no Rio de Janeiro, José de Alencar publicava Iracema.

O Ultra-Romantismo (ou Bayronismo) teve, na década de 1870, suas vozes maiores com Joaquim de Sousa, que espalhava seus versos no Jornal da Mocidade (1876), e Barbosa de Freitas, cujos poemas musicados e cantados em serenatas, sendo populares por muitos anos.

Em 1873, surgiu um grêmio que era mais filosófico do que literário, batizado por um de seus membros, por gracejo, Academia Francesa. Erguia a bandeira do Positivismo, e contava com nomes de peso, como Rocha Lima, Tomás Pompeu, Capistrano de Abreu, João Lopes e outros. Combatiam o Romantismo, apesar de um deles, Araripe Junior (que haveria de ser um dos grandes críticos realistas), escrever romances na escola de Alencar como, entre outros, O Ninho do beija-flor (1874). Como não tinham órgão na imprensam alguns de seus componentes escreviam no jornal maçom Fraternidade.

Nesse meio tempo, desponta o Cordeirismo nos versos inflamados dos chamados poetas da Abolição: Antônio Bezerra, Antônio Martins e Justiniano de Serpa, autores do livro Três Liras (1883).

O citado João Lopes funda o Clube Literário (1886), que congrega românticos, como esses poetas dos quais falamos, e mais Juvenal Galeno, Virgílio Brígido, Francisca Clotilde, Martinho Rodrigues, José Carlos Júnior e outros. Mas o Realismo começa a surgir a revista de grêmio, A Quinzena (1887 – 1888), nos contos de Oliveira Paiva, nas narrativas cientifica de Rodolfo Teófilo e nas pregações críticas de Abel Garcia. Há páginas do historiador Paulino Nogueira e do filósofo Farias Brito.

Por sinal, depois do romance realista A Afilhada, de Oliveira Paiva, em folhetins do jornal Libertador, em 1889, o primeiro romance editado em volume dentro da estética naturalista é A Fome (1890), de Rodolfo Teófilo, que lançará outras obras dentro da mesma corrente, como Os Brilhantes (1895), etc.

Antônio Sales, que vinha do Clube Literário, publica, em 1890, seu primeiro livro de poesia, Versos diversos, misturando sentimento romântico, construção algo neoclássica e leves prenúncios parnasianos. Frequenta o Café Java, na Praça do Ferreira e juntamente com a meia dúzia de amigos, idealiza a mais original de todas as agremiações culturais do Ceará.

É a Padaria Espiritual, fundada em 1892 e que existirá até 1898. Sales redige seu Programa de Instalação, cheio de humor e novidade, que explode como uma bomba e repercute até no Rio de Janeiro. Segundo esse programa, os sócios do grêmio eram “padeiros”; o presidente “Primeiro-forneiro”; as sessões “fornadas”, realizadas, naturalmente, no “Forno”. Por sua vez periódico do grupo só poderia ser O Pão.

Todos usam um pseudônimo, ou melhor, um “nome de guerra”. Diferente de tudo mais, não era uma associação somente literária, mas “de rapazes de Letras e Artes”: além de poetas como Antônio Sales (Moacir Jurema) e Sabino Batista (Sátiro Alegrete), tinha ficcionistas como Adolfo Caminha (Félix Guanabarino) e, mais tarde, Artur Teófilo (Lopo de Mendoza); agregava músicos, como os irmãos Henrique Jorge (Sarasate Mirim) e Carlos Vítor (Alcino Bandolim), e um pintor, Luís Sá (Corrégio Del Sarto). Havia um sócio, que não sendo escritor, nem músico, nem pintor, era valente, servindo de guarda-costas para os companheiros: era Joaquim Vitoriano (Paulo Kandaslaskaia)...

Houve duas fases, sendo a segunda 1894 até à extinção do grêmio. Foram Padeiros-mores Antônio Sales (inteiramente, em 1892 e em 1894); Jovino Guedes (Venceslau Tupiniquim), na primeira fase; José Carlos Júnior (Bruno Jacy), de 1894 a 1896, e Rodolfo Teófilo (Marcos Serrano), de 1896 a 1898, portanto, na segunda fase. O Pão teve seis números em 1892, e vinte e quatro em 1895 e seis em 1896.

A primeira fase era cheia de espírito, timbrando pela pilhéria, época em que, da sacada de um prédio, um “padeiro” fazia discursos, com barbas postiças; nos piqueniques, carregava-se um pão de três metros, etc. Mas houve a publicação de um livro. Na segunda fase, as brincadeiras diminuíram, mas não desapareceram, como já se afirmou. E os outros dês livros dos “padeiros” são desse tempo. Quanto à estética da “Padaria”, misturando-se as duas fases, podemos dizer que havia românticos: Sabino Batista, Antônio de Castro (Aurélio Sanhaçu), Álvaro Martins (Policarpo Estouro), Temístocles Machado (Túlio Guanabara) e outros; realistas como os citados Adolfo Caminha (que publicaria no Rio de Janeiro A Normalista, em 1893), Rodolfo Teófilo e Artur Teófilo, além de X. de Castro (Bento Pesqueiro), este nos seus Cromos (1895). Um pouco fora de uma classificação rígida ficariam os ficcionistas José de Carvalho (Cariri Baraúna) e Eduardo Sabóia (Brás Tubiba). Alguns se encaminhavam para o parnasianismo como Antônio Sales.

Mas foi na Padaria Espiritual que surgiu o Simbolismo cearense, bebido em obras de Portugal, da qual são frutos os Phantos (1893) de Lopes de Filho e Dolentes (1897), de Lívio Barreto, este último livro póstumo. Nosso Simbolismo, com influência de Antônio Nobre, foi contemporâneo (e independente) da escola do Sul do País, como defendemos em nossa tese A Padaria Espiritual e o Simbolismo no Ceará (1983).

Em 1894, dois “padeiros”, Temístocles Machado e Álvaro Martins, romperam com o grêmio e ajudaram a criar o Centro Literário, que se extinguira em 1904. Esse grupo, que teve como órgão na imprensa a Iracema, não atingiu a originalidade do anterior, mas reuniu um número de sócios bem maior, seguindo também estilos diferentes. Para citar apenas alguns nomes, destacamos Pápi Júnior, Viana de Carvalho, Bonfim Sobrinho, Quintino Cunha, Frota Pessoa, o Barão de Studart, Rodrigues Carvalho, Soares Bulcão, F. Wayne, Martinho Rodrigues, Alba Valdez, Eurico Facó, Júlio Olímpio e José Albano, que versejava à maneira quinhentista em pleno século XX, o que não o impediu de ser admirado por Manuel Bandeira.

Mais de um autor, no passado ou no presente, já considerou o Centro Literário uma espécie de rival da Padaria Espiritual, e para isso certamente contribuiu o fato de Temístocles Machado e Álvaro Martins haverem sido excluídos do grêmio de Antônio Sales logo depois da fundação de novo grupo. Entretanto, basta percorrer os jornais da época ou as transições feitas por Dolor Barreira em sua História da literatura cearense para constatar que os sócios de uma associação iam às festas da outra. Mais do que isso: alguns “padeiros” fizeram parte do Centro Literário e nem por isso foram expulsos, como é o caso de Jovino Guedes, Ulisses Bezerra, que já pertencem á segunda fase da Padaria Espiritual.

Ainda no ano de 1894, funda-se a Academia Cearense de Letras, com 27 intelectuais: Barão de Studart, Justiniano de Serpa, Farias Brito, Drummond da Costa, José Fontenele, Álvaro de Alencar, Benedito Sidou, Franco Rabelo, Antônio Augusto de Vasconcelos, Pedro de Queirós, Virgílio de Morais, José Barcelos, Antônio Bezerra, Eduardo Studart, Adolfo Luna Freire, Eduardo Salgado, Alcântara Bilhar, Antônio Fontenele, Antônio Teodorico da Costa, Padre Valdevino Nogueira e Henrique Thébergue.

Somente a partir da reorganização de 1922, a entidade passa a se denominar Academia Cearense de Letras e a ter 40 Cadeiras, com seus respectivos Patronos. Houve outras reorganizações, em 1930 e em 1951, e a Academia continua ativa, publicando sua revista.

Seguindo o ritmo natural das escolas literárias, o Parnasianismo chegou ao Ceará nos primeiros anos do século XX, sendo, portanto, aqui (e somente aqui), posterior ao Simbolismo em relação ao restante do Brasil.

Ao longo dos tempos, versejaram nesse estilo Antônio Sales, que havia considerado parnasianismo nos tempos da Padaria Espiritual, mas que aprenderia a verdadeira dicção da corrente em contacto com os mestres da escola, no Rio de Janeiro; Alf. Castro, nascido em Pernambuco, mas, radicado aqui, foi um seguidor fiel da ortodoxia da corrente, a partir de suas tradições de Heredia; Cruz Filho, que estréia em livro aos quarenta anos de idade, com os Poemas dos belos dias (1924), ele que já publicava sonetos trabalhados por volta de 1906; Júlio Maciel, o mestre de Terra mártir (1918); Carlos Gondim, o dos Poemas do Cárcere (1923), mais Antônio Furtado, Irineu Filho e Mário Linhares, nomes aos quais podemos acrescentar os de Otacílio de Azevedo e Carlyle Martins.

Contemporâneo dos parnasianos, mas com a dicção ainda algo romântica é o Padre Antônio Tomás, cujos sonetos transpuseram fronteiras.

Pronunciando novos tempos, naquela fase que se convencionou chamar Pré-Modernismo (seria melhor chamá-la de Sincretismo, como sugeria Tasso da Silveira) destaca-se a polimetria e até os versos livres de Mário da Silveira, cujo livro, Coroa de rosas e espinhos, seria publicado postumamente, em 1922.

Em 1925, esteve em Fortaleza o poeta paulista Guilherme de Almeida, em pregação modernista, a convite de Gilberto Câmera.

Mas é de 1927, o livro inaugural do Modernismo cearense, O Canto novo da raça, de nada menos que quatro poetas: Jáder de Carvalho, Franklin Nascimento, Sidney Neto e Mozart Firmeza (Pereira Júnior).

Dedicado a Ronald de Carvalho (e não a Guilherme de Almeida), esse livro, mais horizontal que vertical, sem numeração nas suas quarenta páginas, inaugura efetivamente a nova escola entre nós, mas nem todos os poemas que ele enfeixa trazem o mesmo tom: Jader de Carvalho e Franklin de Nascimento são radicalmente novos, apesar de, no primeiro, haver ainda umas maiúsculas que lembram o Simbolismo. Sidney Neto não compromete a escola, mas seu estilo, em versos de forte conotação patriótica, é mais enfático do que seria de se esperar. Mozart Firmeza, à maneira do Ribeiro Couto dos primeiros tempos, está mais para penumbrista, com seus versus em surdina. Seja como for, O Canto novo da raça é o primeiro livro do nosso Modernismo o qual, surgindo em 1927, foi anterior ao de vários estados do Norte e do Nordeste.

Demócrito Rocha funda, O Povo, em 1928 e o Modernismo se expande com ele (Demócrito se assinava Antônio Garrido), Filgueiras Lima, Edgard de Alencar, Heitor Marçal, Rachel de Queiroz, Martins d’Alvarez, os quatro autores do livro inaugural e mais Silveira Filho e Suzana de Alencar Guimarães, notadamente no suplemento Maracujá, de 1929, do qual saíram dois números. Esses escritores na mesma época apareciam na Revista Antropofagia, de São Paulo.

O que nem todos sabem é que Rachel de Queiros escrevia mais poesia do que prosa, tendo sido anunciado um livro seu de poemas, Mandacaru, nunca publicado.

Em 1931, sai o único número de Cipó de fogo, folha independente na qual escreviam João Jacques (irmão de Sarasate), Beni Carvalho e os mesmos de Maracujá.

Dois livros do Modernismo cearense, o de maior repercussão foi sem dúvida O Quinze (1930), de Raquel de Queiroz.

Após um hiato em que uns continuavam com o ímpeto revolucionário, e outro pendiam ora para o Parnaso, ora para o Símbolo, surgiu, nos anos de 1940, o Grupo Clã. Apesar de se haverem iniciado em 1943 as Edições Clã, a nosso ver o Grupo vai adquirir maior coesão em 1946, com o número zero da revista Clã, e quatro importantes livros: Noite Feliz, de Franz Martins; Face iluminada, de Eduardo Campos; Roteiro de Eça de Queirós, de Stênio Lopes, e um livro de quatro poetas: Os Hóspedes, de Aluízio Medeiros, Antônio Girão Barroso, Otacílio Colares e Artur Eduardo Benevides.

Talvez com algum exagero, possamos dizer que esse grupo existia tão espontaneamente que nem seus componentes tomavam conhecimento disso. Pode se depreender isso com a literatura do livro Falam os intelectuais do Ceará (1946), de Abdias Lima. Nele, o autor entrevistou, de março de 1944 a fevereiro de 1945, vários escritores, entre os quais quatro de Clã, e onde não se encontra a menor referência ao grupo.

Acrescentam-se aos nomes citados os de Antônio Martins Filho, Braga Montenegro, João Clímaco Bezerra, Joaquim Alves, Lúcia Fernandes Martins, Milton Dias, Moreira Campos e Mozart Soriano Adrealdo. Bem posteriormente entrariam no grupo Cláudio Martins, Milton Dias, Durval Aires e Pedro Paulo Montenegro.

Além do número zero, foram publicados de 1948 a 1988, vinte e nove números da revista Clã.

Já tivemos oportunidade de afirmar, em Literatura Cearense (1976), que o Grupo Clã veio trazer, como contribuição mais importante às nossas letras, a definitiva implantação do Modernismo no Ceará, numa época em essa corrente já não precisava dos rasgos iconoclastas de outros tempos.

////////////////

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A mulher e o peregrino (Emanuel Medeiros Vieira)



Apenas peregrino/pulsante,
“é vermelha, cor do sangue” – ela diz,
jogando a calcinha no tapete,
contemplo o matagal
sal da vida
úmido
pêlos encrespados,
teus gemidos cortam a tarde, como um túnel,
meu dedo em romaria no teu útero
matriz de tudo
“mater” minha
cachorro late ao longe, ronco de um caminhão,
o tempo zomba de nós,
lambes – lúbrica – a língua,
viva!, a Portuguesa, e esta que me arrepia agora.
Bússola afetiva: decifro (?) o mapa do teu corpo
(vacina de infância),
minha sina, minha mina,
estupidamente comovido,
cumpro a jornada – esta vida.




quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Le horla (Guy de Maupassant)

(Nota do editor deste blog:
Publiquei ontem a versão portuguesa do famoso conto de Guy de Maupassant. No entanto, há quem prefira ler no original. Remeto, pois, os leitores ao seguinte endereço: Textos de Maupassant Seguem abaixo as primeiras páginas de "Le Horla", como amostra.

                                                              

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O Horla (Guy de Maupassant)


8 de maio. Que dia lindo! Passei a manhã toda deitado na relva, na frente de casa, sob o enorme plátano que a encobre toda. Gosto desta região, de viver aqui, pois aqui estão velhas recordações, aquelas raízes profundas e delicadas que prendem o homem ao solo onde seus antepassados nasceram e morreram, que o ligam às idéias e costumes do lugar e também, à comida às expressões locais, ao cheiro da terra do próprio ambiente.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Ivone C. Benedetti entrevista Chico Lopes

Ivone C. Benedetti é tradutora e escritora. Formada em Letras pela USP, doutorou-se em Literatura Francesa, defendendo tese sobre Charles d’Orléans e a tradução de sua poética. Como tradutora, atua há mais de vinte anos, tendo trabalhado para várias editoras. Entre outros autores, traduziu Barthes, Montaigne, Voltaire, Ricoeur, Merleau-Ponty, Althusser, Balzac, Simenon. Organizou e coordenou o Dicionário de Italiano Martins Fontes (WMF Martins Fontes). É autora de A Arte da conjugação dos verbos em português (WMF Martins Fontes) e co-autora de Conversas com tradutores (Parábola). Recentemente, publicou seu primeiro romance, Immaculada, pela WMF Martins Fontes.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Poemas de Carmen Silvia Presotto

(Quadro de Chico Lopes)


De mim


algo não pode falar




uma cegueira


um coágulo




cavalos entre retinas


retalham os sonhos




de mim,


hoje não posso escrever


tropeço em pesadelos




**********




Velha de mim


cansada de atos


cansada de fatos


de fato cansada




*******


saio à rua


troco paisagens


rebusco abraços


sem mim


lotada de outros


escrevo
/////

domingo, 26 de setembro de 2010

Por que filosofar? (Relendo os estóicos)

(Sêneca desenhado por Peter Paul Rubens)

Emanuel Medeiros Vieira

Por que filosofar? Porque a filosofia – além do conhecimento – pode nos ajudar a viver. Vejam os filósofos estóicos. Eles nos ensinam a lidar com as perdas e as vicissitudes da vida. E a passagem do tempo. Insisto: filosofar é fundamental. Na reforma de ensino, retiraram a filosofia da grade curricular; Tiraram uma oportunidade rara para o brasileiro pensar. Quem tem menos de 60 anos, em nosso país, nunca estudou a matéria. Não estou pedindo para que viremos especialistas, mas que aproveitemos melhor nossa passagem na terra. Nos últimos 200 anos, a despeito de todo o sofrimento, o mundo ocidental viveu sob o domínio de uma crença no progresso, baseada em realizações científicas e empresariais extraordinárias. Tivemos guerras sem fim, o holocausto, sofrimentos, golpes de Estado, exploração e desrespeito constante ao homem cometido pelo próprio homem. No Ocidente, as lições sobre o pessimismo derivam basicamente de duas fontes: os filósofos estóicos romanos e o cristianismo. “Talvez seja a hora de revisitar esses ensinamentos para aliviar nossos pesares”, ensina Alain de Botton. Hoje, vamos meditar sobre a obra de um pensador estóico. Sêneca (I a.C. – 65 d.C) seria um filósofo perfeito para o nosso momento histórico. Vivendo numa época de tremenda inquietação política (Nero ocupava o trono imperial), Sêneca interpretava a filosofia como uma disciplina que servia para nos manter calmos diante de um panorama de constante perigo. Sêneca lembrava no 62 que desastres naturais ou de causa humana serão sempre parte de nossas vidas, por mais sofisticados e seguros que acreditemos nos termos tornado. O filósofo escreve que “não existe nada que a fortuna não ouse”, mas lembra que devemos ter em mente o tempo todo a possibilidade dos mais devastadores eventos. Recordemos só alguns episódios: tivemos duas guerras mundiais. Basta lembrar o sofrimento que elas causaram. Sêneca diz mais: “Nada nos devia ser inesperado. O que é o homem? Um vaso que ao menor impacto, pode quebrar.”

sábado, 25 de setembro de 2010

Três minicontos de Leonardo Brasiliense

Em nome do show


Na parede da cela treze, a grande fotografia da famosa atriz da pornochanchada surpreende as novas detentas. As outras vão logo explicando que ali ninguém é fã, ela está é presa. Isto mesmo, fotografia presa, por assassinato. Esqueceu de se limpar e foi denunciada pelo sangue da vítima. Teve direito a se defender, julgamento justo, mas consentiu com o silêncio à reconstituição sugerida pelo promotor: o retrato, na sua áurea juventude, não suportou a flácida atualização da atriz que insistia em acompanhar o tempo, saiu da parede e deu um tiro na cabeça da velha. “Pecou por ignorância”, concluiu o promotor, “é compreensível o seu medo, porém, todos sabemos, fotografia não envelhece... no máximo pega mofo”.

A mãe do Silvinho

Ela disse que o meu amiguinho não estava em casa mas me mandou entrar. Disse que gostava de mim porque eu era comportadinho e que ela queria conversar comigo um pouquinho. Me levou para o quarto e disse vem, senta aqui no meu colinho...
Me deu um tapão na cabeça porque a chamei de tia.

Gente complicada devia ficar em casa

Dá um troco, tia. Você pensa que eu não sei que é pra tua mãe comprar cachaça? Não é pra ela não, é pra mim mesmo. Você não tem vergonha, pedir um troco pro leite e depois comprar cachaça? Mas eu não falei em leite, eu só disse dá um troco, tia. É pra você mesmo? É. E pra que é? Pra comprar leite. Toma.

(Outros minicontos de Leonardo Brasiliense em www.leonardobrasiliense.com.br)
/////

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Três poemas de Pedro Du Bois

(Quadro de Chico Lopes)

ADEUSES


De todos os adeuses somos testemunhas
peregrinos de escuras vistas dos desencontros
entre as dunas e nas fechadas florestas petrificadas
dos sinais compreensíveis de abrir e fechar


vamos embora em cada tempo: têmpora cinzenta
o corpo dói a despedida na dor da ausência


nos reencontros na frustração avistamos
e reconhecemos não nos interessa o passo


o atraso bem vinda forma de desencantos
na urdidura de novas despedidas: somos
agora os que foram embora e ainda não é noite


nos adeuses voltamos sobre nossos passados
encobertas memórias: estreitas ruas
sem passagens e olhos postos sobre os idos
tempos. Acenamos sem voltar o rosto.




MEDOS

Trago o medo irrecorrível da infância
e o efêmero como no começo
dos escuros e dos barulhos não identificados
aos silêncios e claridades dos tempos tardios

trouxe na lembrança o início e a multiplicação
no crescimento das imagens irrefletidas
sobre realidade gongóricas da sobrevivência

retiro do medo sua essência: eu mesmo,
e o deixo derramado - esparramado -
nas instâncias cedidas uma a uma
como tormentos e sofrimentos cultivados

realizo medos atávicos adquiridos
e os escuros nichos demonstram o sacrifício
de conviver o claro o silêncio e a brandura
imaculada dos esquecimentos diários.

ÉPOCAS


Desdobrada vida: introduzida
época de conquista: medos
e persas em desabalada fuga
– o egípcio olha
com desdém e desgosto –
dos hinos e cânticos
escondidos em escuras roupas
e promessas não alcançadas:
ao credo fé e enlace
entre a história e os vencedores
das batalhas em corpos mutilados
e destroços céticos: em nada
acreditaram os deuses desde o exílio
houvesse a volta e o planeta
– mágica e mistério – tomasse
outro rumo alterasse o prumo e o eixo
endireitasse: o fogo e as trevas
em desdobramentos
de inépcias conhecidas.

/////









quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Pontos na paisagem (Caio Porfírio Carneiro)


Respirando o ar quente, suado, extenuado, sacola pendurada nos dedos, com a outra mão procurava livrar-se da poeira que lhe entrava na roupa, nos olhos, nos poros. E o estirão se alongando. Viu o casebre com pequeno alpendre, arriado, cochilante. Aproximou-se, bateu na porta e arriou-se no banco tosco, no alpendre. Sacola ao lado, abanou-se, desabotoou-se, estirou as pernas, quase cochila. Ali ficou, entregue.

Suspirou fundo, levantou-se, olhou demoradamente o estirão em todas as direções. Só vento, poeira e a árvore desgalhada ao lado do casebre. Bateu forte na porta e ela se abriu. O pote, não muito distante, caneca ao lado. Bebeu a água salobra até se fartar. Olhou em volta. Alguns tamboretes. Nenhum armário, louça ou mesa. Uma rede entrouxada, pendente do armador.

Balançou a cabeça:

– De quem será isto?

Olhou longamente, através da janela, o estirão e a poeira fina navegando no silvar do vento. Fugindo de tudo e com saudades dela armou a rede puída. Deitou-se, suspirou fundo:

– Depois da desgraça feita qualquer lugar serve.

Levantou-se e jogou sobre um dos tamboretes os sapatos de solas gastas, o resto de meias, e, quase despido, estirou-se melhor e coçou o corpo todo.

Adormeceu.

Acordou com os solavancos no punho da rede. Abriu os olhos, estremunhado e perplexo:

– Você veio?

Ela, ali em pé, rota, esquálida e muda.

– Como me encontrou?

– Segui seu rumo.

– Ah.

– De quem é esta casa?

– Não sei.

– Por que você fez aquilo?

– Precisava.

– Que horror.

Apenas fechou os olhos. Ela tossiu:

– Posso me deitar um pouco com você? Estou morta.

Ele lhe deu espaço na rede e ela, pequena trouxa no chão e o vestido uma nuvem de pó, acomodou-se ao seu lado.

Apertou a mão dela:

– Durma um pouco.

– Não vou conseguir.

Nada respondeu e ouviam apenas o silvar do vento lá fora. Silvava, silvava, silvava...

Acordaram com a claridade da manhã entrando pelas frinchas da porta e da janela. Ele esfregou os olhos:

– Não apareceu ninguém.

– Vai ficar aqui?

– Vou continuar.

– Não quer voltar?

– Nunca.

– Que horror.

– Esqueça.

– Estou com sede. Tenho pão.

– Ali há um pote e uma caneca.

Ela levantou-se. Voltou ajeitando o vestido. Deu-lhe um pedaço do pão:

– Não trouxe nada?

– Só umas coisas na sacola.

– E eu esta trouxa. E uns pedaços de pão.

Beberam quase todo o resto da água. Ajeitaram-se e saíram para o tempo. Envolveram-se no descampado. Ele sopesou a mochila, ela ajeitou a trouxa no braço.

– Por que você veio?

Ela voltou a ajeitar a trouxa:

– Não sei.

Olhou-a nos olhos:

– Vamos?

– Para onde?

– O fim do mundo não deve estar tão longe assim...

Saíram caminhando lentamente.

Dois pontos que se foram perdendo na paisagem, sibilante de vento e de poeira navegante.


São Paulo, 14/02/2010 – às 08:00 hs.
/////