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quinta-feira, 6 de março de 2014

Dois capitulinhos (Nilto Maciel)





Confúcio Galvez lembrava um galo: penas coloridas e esvoaçantes, bico afiado, esporões de aço, andar de príncipe britânico, voz de cantor de ópera. No entanto, não pensava em homem, não bicava ninguém, não esporava nem o vento, não morava em castelo e mal sabia “Touradas em Madri”. Arriscava umas frases: “Eu fui às touradas em Madri e quase não volto mais aqui”. Desafinava; riam dele. E cresceu assim, com ares de ave e chão de estrelas. Sempre de bico aberto: “Minha vida era um palco iluminado”. Andava pelo morro, subia e descia ladeiras, de olho nas cabrochas com latas d’água na cabeça, “Sobe o morro e não se cansa, lá vai Maria”. Experimentou rabiscar letras e rimas. As melodias, noites mel dormidas. Talvez doces, quem sabe azedas. Também sambou, desengonçado feito mamulengo. Viajou a Recife e encontrou o povo a pular nas ruas. Diante do frevo, extasiou-se: queixo caído, vestimenta de lorde, pés em transe. As meninas pareciam franguinhas ao sol do meio-dia. Misturou-se aos dançantes e se abrigou à sombra do homem da meia-noite e dos mil e um bonecos de pano. Entre passos e pulos, terminou grudado a certa pintassilga. Passado o carnaval, buscou outras mulatas, cavalgou mulas sem cabeça pelos sertões de Minas, perdeu-se em labirintos, maravilhou-se à frente da dança frenética dos bilros do Ceará e se fatigou de tanto vadiar. Então se casou com Camilinha Petres. E tiveram muitos filhos.

E assim se encerra esta história colorida. Porém, se inicia outra. A tragédia. Pois o tal Confúcio Galvez resolveu mudar de vida, ao se sentir relegado aos cantos da própria casa. Por todos os lados, televisões, computadores, celulares, viagens de Camilinha (tornada Camilona e gorda). Confúcio procurou as penas coloridas e nada encontrou, a não ser uma peruca dourada. E foi embora pra Pasárgada. Tempos depois, aborrecido de sonhar, voltou às ruas da infância e da juventude.

Em outro fevereiro, se enfeitou de urubu e conheceu Dalva de Oliveira, senhora alegre, mas nem tanto.  E lhe contou num dia o equivalente a cem anos de solidão. Casara-se com fulano, blablablá; passara a infância na serra da Meruoca, blebleblé; nascera filha, bliblibli; o fulano vivia com sicranas e beltranas, bloblobló; beberam umas cervejas, blublublu. O bicho velho se recordou, então, dos tempos de terreiro cheio de galinhas e franguinhas e quis ser galo de novo. No dia seguinte, reparou bem a filha de Dalva, grávida de alguns meses. Conversaram e cantaram durante noventa dias e noventa noites, até nascer linda menina. E, alguns anos depois (para encurtar o blablebli), ocorreu o capítulo trágico da vida de Confúcio. Blo-blu.

Fortaleza, 4 de fevereiro de 2014.     

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Trofônio de Lebadeia (Flávio R. Kothe)












(Rodolfo Amoedo, "Retrato de mulher") 


“Tu não prestas, mas eu te amo” ouvi falar
uma voz pequena que eu não quis escutar.

Mesmo assim contra toda razão em ti entrei
e quanto mais eu entrava mais louco fiquei.

Alegre eu entrei na cova que descia estreita
cada vez mais funda e com olhos à espreita.

Passo a passo penetrei numa caverna escura
em que morava a tua história mais obscura.

Quem aí entrava nos teus segredos aprendia
sem querer que o riso para sempre perderia.

Na lama e no escuro eu tive de me arrastar,
tive de andar de quatro para ao altar chegar.

Meus joelhos lanhados, os dedos sangrando,
o corpo todo sujo, a mente se despedaçando.

Sobre o altar vi estendida na segunda guerra,
por fardas cercada a figura de nobre mulher.

No pátio do antigo castelo em chamas, oficiais
clamavam a condessa para serviços inoficiais.

Encarando os inimigos um a um, a mulher disse:
“Sei qual é o destino das mulheres do vencido.”

E aditou: “Peço, apenas, me deixem escolher
o oficial mais belo a quem terei de me render.”

Uma pequena menina viu sua mãe ser violentada,
não por um ou por dois, mas pela tropa formada.

Tu quiseste te tornar aquela que por si escolhia,
não sei se dessa caverna tu poderás sair um dia.

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