Translate

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Janela discreta (Tânia Du Bois)



 “Atrás das vidraças / sujas da poeira / da rua // protegidos / e isolados /  da poeira / da vida // escondidos / e transfigurados / na poeira / do tempo //   guardados / e revelados / na poeira” (Pedro Du Bois)
         
          Na janela discreta está a marca do tempo, na paisagem e no vento. O Sol brilha e a Lua se esconde entre nuvens. A poeira se desloca para todos os lados e com movimentos circulares se espalha. Mas o que importa é o que o vento traz ou o que revela do tempo onde se repete em palavras. A palavra é força da natureza que, uma vez articulada, vira ação. Segundo Mia Couto, “Varrer as avessas: em vez de limpar os caminhos, espalhávamos sobre eles poeiras...”

segunda-feira, 31 de março de 2014

Eu te saúdo, ó Mestre (Nilto Maciel)





Todo santo dia, Cássio Botelho sai de casa, aí pelas 11 horas, e se dirige a um restaurante. Procura os menos concorridos. Evita filas. Dá uma olhadela nas carnes e se decide por esta ou aquela. Às vezes, a gula o trai e ele deixa o prato pela metade. Sua intenção é nunca se repetir, além de mastigar bem e ter prazer: hoje peixe frito, amanhã carneiro cozido, noutro dia frango, e assim por diante. Senta-se o mais distante possível dos comilões. Conhece o mais profundo asco de pessoas que se comportam como porcos, cachorros, gatos: a cara enfiada no prato. Tem pavor de certos comportamentos dignos de guerreiros romanos ou medievais: enfiam o garfo nas carnes (de animais assassinados), como se matassem feras (cheios de ódio).