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domingo, 4 de novembro de 2012

Seres emplumados (Paulo Lima)




Cronista que se preza escreve pelo menos uma crônica sobre passarinho. Esta não é bem uma regra, mas, digamos conta pontos, acrescenta milhagem, é indicativa de que o escriba cronicou sobre quase tudo, das pequenas ocorrências fortuitas da vida à existência efêmera de seres emplumados. É sinal de que uma ponta indisfarçável de lirismo sempre esteve incluída no seu horizonte de interesses. E o lirismo – isto também não é uma regra, mas agrega respeitabilidade –, explícito ou embutido, salvo juízo em contrário, é um componente primordial da boa crônica.

sábado, 3 de novembro de 2012

Palavras (Carlúcio Bicudo)





 






 Palavras boiam sobre o papel,
 como pensamento aprisionado.
 São letras aglutinadas pelo pincel
 que desliza suavemente pelo cartonado.

 Algumas palavras são algemas
 que encarceram as letras na celulose.
 Outras formam docemente poesias.
 Refletindo palavras em simbiose.

 O papel é um campo aberto.
 Pronto para rimar liberdade com verdade.
 Semeando palavras a florir.

 Livros fechados não reluzem...
 Livros abertos simplesmente traduzem...
 Palavras impressas na forma de luz.

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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Aos vivos, hoje (Jorge Pieiro)

Aos vivos, hoje. para que testamento não...


 
para que testamento

não ponham flores no túmulo

não usem fumo mesmo que recrudesça a moda
não coloquem notas nos jornais
não enviem mensagens de luto pelas redes sociais
não produzam ritos de corpo presente
não chorem... não chorem...

Quando madrugar, me acorde... (Abel Sidney)




Juninho, com seus seis anos completos de menino inquieto e questionador, não gostava que o pai mexesse com galos de briga.  

Preferia acompanhá-lo, mesmo noite adentro, ressuscitando motores enguiçados. O nome de cada peça, que ele exigia que o pai pronunciasse enquanto consertava, o fascinava – biela, mancal, virabrequim, bronzina, pistão...  

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Esta tristeza (Teresinka Pereira*)




 










Esta tristeza é como
um cálice de vinho vazio,
como uma voz adormecida
que não alcança a sair de mim
e que não deixa a cintura do tempo
bailar em minha alma
uma nova canção de amor.

Esta tristeza já filtrou
as madrugadas mais sublimes
de imaginadas paixões
com teu corpo sobre o meu,
fogo e doce brisa essencial,
palpitante entrega, delírio clássico
do amor ate a morte.

*Teresinka Pereira, poetisa brasileira e internacional, tradutora, ensaísta,  mora nos Estados Unidos, onde foi professora de Literatura Brasileira. Dirige a IWA - International Writers na Artists Association. Endereço: P. O. Box 352048, Toledo OH 43635-2048, USA.

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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O tempo existe (Francisco Miguel de Moura*)





Existe um tempo que sequer sentimos,
existe um tempo que sequer pensou-se,
existe um tempo que o tempo não trouxe,
existe um tempo que sequer medimos.

Existe mais: um tempo em que sorrimos,
diferente do tempo em que chorou-se,
e um tempo neutro: nem amaro ou doce.
Tempos alheios, nem sequer são primos!

Existe um tempo pior do que ruim
e um tempo amado e um tempo de canção,
existe um tempo de pensar que é o fim.

Tempo é o que bate em nosso coração:
um tempo acumulado em tempo-sim,
e um tempo esvaziado em tempo-não.

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*Poeta brasileiro, nasceu em 16.6.933, em Picos, PI, mora em Teresina. Formado em Letras, com pós-graduação em Crítica de Arte, em Salvador.

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