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domingo, 18 de novembro de 2012

Amar (Francisco Miguel de Moura)













Amar é viver no mesmo teto,
debaixo de uma telha só,
comer da mesma mesa
e até do mesmo prato,
 beber da mesma água
 e até do mesmo copo,
 dormir na mesma cama.

Amar é ser conservador:
viver cem anos iguais,
morrer devagarinho
à custa do vizinho.

Amar é costume.
Amar é necessidade.

É tão fácil amar humildemente,
aceitando, aceitando...
E ninguém sabe.

Escolher não pode.

(Do livro "Vir@gens", Ed. Galo Branco, Rio, 2001)

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sábado, 17 de novembro de 2012

O Cinema de Gláuber Rocha (Guido Bilharinho)



 
Terra em transe
Política e Poesia

Fenômeno recorrente é o artista dar a lume no início da carreira a alguma obra-prima. Sua responsabilidade daí em diante é grande, pesando-lhe muitas vezes como um fardo. Isso não ocorre quando o autor ou cineasta vai pouco a pouco galgando os degraus da qualidade, a exemplo, entre outros, de Machado de Assis, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa no romance brasileiro ou Humberto Mauro no cinema.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Padaria (Carlos Nóbrega)










Reencontramo-nos na fila do pão
quase todos de braços cruzados

(esses braços cruzados
que existem nas filas do pão
por causa da fila,
dos restos de sono
e do friozinho da manhã).

Nos damos bom-dia
relembrados vagamente da nossa condição
de estarmos sempre em uma fila:
Da caixa, daqui a pouco,
na do trânsito, da bilheteria, do hospital,
– Inconscientemente expectantes
na fila do destino.
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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Homem Desoriental - III (Mariel Reis)




 






O vento célere entre os fios de ouro
Trançados com ervas perfumadas.
O calor afogueia as jóias do seu rosto,
Murmuram orações os seus lábios de rubi.
Os anjos em coro abençoam a sua visão
E o meu coração confrangido
Teme pela hora de partir.

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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O sentimento de açorianidade (Adelto Gonçalves*)



    
                                                           I
            Pouco estudada e conhecida, especialmente no Brasil, apesar dos muitos imigrantes que para as regiões Sul e Sudeste vieram ao final do século XIX e na primeira metade do século XX, a literatura de temática açoriana ainda aguarda o surgimento de estudos teóricos e crítico-literários na universidade brasileira, embora não sejam raros os descendentes daqueles pioneiros – na maioria, analfabetos ou semialfabetizados – que já alcançaram os graus de mestre e doutor. No Brasil, destaca-se o romancista gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil (1945), professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul e doutor em Letras, autor de Escritos Açorianos: a Viagem de Retorno – Tópicos acerca da Narrativa Açoriana pós-25 de Abril, ensaios (Lisboa, Salamandra, 2003) e de uma vasta obra que inclui outros livros, alguns publicados também em Portugal, Espanha e França.
           

Prisma (Nathan Matos)









Medíocres palpitares.
                                               Sensações incontínues.
                        Dis
for                  mes                correções
zune tempo!
Zune!
zune mundo safado que se ergue feito a Torre
ah... ah...
se fosse tudo azul e corretamente correto
[as cores coloridas que se fazem nos papéis
nos papéis
nos anéis das crianças
perdidas ideias
presas ideias pelas mães pelos pais pelos irmãos
[pelos tios pelos avós pelos pêlos
o cachorro não é cachorro só por ser cachorro
[o cachorro tem de ser cachorro por que não é cachorro
                                                                                  Prisma.
Prisma.                                 Mrisma.                    Srisma.

Tecno, tecnob, tecnologia retardada
[totalmente binária pela sociedade caduca
caduca claudica conduta por cima na cama
[me chama bendita amargura sabida
dói
dói?
Dói!
e o prisma se ofende pelas letras inconsequentes.
Prisma o prisma prismado.
cisca  a galinha no cercado cercada de arames farpados
avoante que se preze é comido assado
capote assado
tatu faz mal
diasediasediasediasediasediasediasediasediasediasediasediasediasediasediasediasediase
diaseideias
ai meu juízo consagrado... pedra!
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terça-feira, 13 de novembro de 2012

O encantamento pela linguagem (Hermínia Lima)





A obra que nos inspira para o texto que ora escrevemos começou a provocar-nos pelo título: Os acangapebas. Ao lê-lo, pela primeira vez, na ocasião do lançamento, nos perguntamos o que significaria o termo "acangapebas"? Ou, quem são esses "acangapebas"?

Para nossa felicidade, ao folhear o livro, encontramos, logo no início, a resposta a tais indagações. O autor, Raymundo Netto, teve a ideia, ou melhor, o cuidado de transcrever um verbete do Silveira Bueno esclarecendo, "acangapebas: cabeça-chata. De acanga, cabeça; peba, peva, chata". Bom, lido isso, pensamos: "cabeça-chata"... algo a ver com os cearenses? Ao deparar-nos com os tipos que povoam a obra e, em especial, com os que protagonizam o conto cujo título nomeia o livro, "Os acangapebas", confirmamos a nossa suposição em relação ao significado da palavra. Constatamos que, a julgar pelos perfis físicos e psicológicos dos que habitam a referida obra, é possível afirmar que se tratam de tipos bem cearenses. E seguimos com a leitura, livro adentro, querendo saber mais sobre os acangapebas. As descobertas foram muitas e as surpresas várias.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Camila Peçanha e as hélices da solidão (Nilto Maciel)



(Escritor Hildeberto Barbosa Filho)

Nunca leio, logo após o almoço. Sento-me no sofá e faço planos para a tarde: dar continuidade à revisão de minhas memórias; ir ao Shopping Benfica, tomar café, às 15 horas; pagar a fatura do cartão de crédito ou simplesmente andar à toa. Ontem, porém, quebrei o protocolo e me pus diante do denso tomo da poesia reunida de Hildeberto Barbosa Filho. Precisava completar a leitura iniciada semana passada. Lido o último poema (“Herança / não deixarei. // Olhem / o sangue dos cactos / na paisagem nua // uma haste de luz / suspensa na tarde agreste // os paupérrimos marmeleiros, / as cicatrizes do deserto, / os solitários labirintos / do vento” // o silêncio, a morte, / o esquecimento. // Eis o que fica”), fechei os olhos. Aqueles versos, aquela poesia, aquele poeta não existiam. Sim, aquilo me parecia belo demais para minha realidade de ser em plena decadência. Aquelas imagens me deixavam extasiado. E eis que tocaram a campainha. Tomei mais um susto, apalpei o coração e me lembrei de Camila Peçanha. Sim, só poderia ser ela. Tínhamos combinado, desde segunda-feira, um bate-papo, para ontem. Queria traçar um desenho de minha rotina de escritor, conhecer-me mais. Só para ilustrar uma “aula”, na Universidade onde estuda. Quem indicou o meu nome? Não sei se o senhor conhece: Batista de Lima. Ora se conheço. Para ser preciso, desde 1945. Tudo isso? Estou brincando. Ele parece tão novo. E eu tão velho? Ela riu. Encerramos a conversa e voltei aos versos de Hildeberto (eu ia pela metade de Nem morrer é remédio): “Fica na casa / o copiar de lembranças // as cortinas de vidro / espelhando a entrada // a cumeeira exilada / donde pula a infância // as varandas intensas / polidas de ausência”.