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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Oncologista com câncer (W. J. Solha)



 
(Solha, no centro, em cena de O Som ao Redor)

Foi com esta frase de mau gosto que respondi à pergunta de um jornalista sobre como me sentia ao passar da criação literária para o trabalho de ator em filmes:
– Como um oncologista com câncer.
          A diferença é terrível. Embora você sorria e enxugue algumas lágrimas enquanto escreve um conto ou romance, nunca se sentirá realmente na pele do “outro” enquanto não estiver num set. Talvez porque o escritor se identifique mais com o roteirista ou diretor. E – cosa mentale – com todo o resto da equipe: diretor de fotografia, cameraman, figurinista, cenógrafo, antagonistas, coadjuvantes, maquiadores, iluminadores, sonoplastas, etc. O ator encontra tudo isso preparado – o que parece muito bom – mas é ele quem desce ao fundo do mar, desarma a bomba, vai a Marte. Outra diferença: o romance – como o roteiro cinematográfico – é como a corrida de São Silvestre: você tem que correr muito, mas se não souber se poupar, não chegará ao fim. O ditado latino – Festina Lente, Apressa-te Lentamente – é sua técnica básica. Meus livros sempre me consumiram três, quatro anos. Joyce passou sete pra fazer o Ulisses, catorze no Finnegans Wake. Já o ator, sem contar com os laboratórios e ensaios, tem prazo de cerca de trinta dias, e só, pra dar tudo que tem. E é tudo, mesmo, pois se o escritor se serve da mente, o ator empenha mente, corpo e alma. Fiz, certa vez, uma ponta no filme de Eliezer Rolim Eu sou o Servo (que sequer foi aproveitada), em que me concentrei tanto pra uma cena de fuzilamento que, quando ela terminou, eu – que não sou dado a frescuras – tive uma violenta crise de choro. Nas filmagens de A Canga, de Marcus Villar, no qual fiz um personagem que eu mesmo criara (o curta se baseara num livro meu), nas duas vezes em que ouvi o grito “Corta!”, depois de certa cena muito forte, tive de ser amparado por Marcus e pelo Walter Carvalho, num quase desmaio.
Já contei mil vezes: saí da maratona de dois super-filmes, os longas O Som ao Redor (de Kleber Mendonça Filho) e Era uma vez eu, Verônica (de Marcelo Gomes), catando cavaco. Tive hemorragias internas, no primeiro, pensei até em câncer, e – terminado o segundo –, fui direto pro cardiologista e pro geriatra. “Em uma semana estou bem”, eu me disse. Passei todo o 2011 mal. Claro, voltara pra minha tranquila Corrida de São Silvestre – novo livro – mas nunca mais fui o mesmo. Claro que contribuiu pra isso a virada dos setenta anos.  A alma ainda é a de um Tarzã, mas o corpo é o de um Johnny Weismuller flagrado aos oitenta, prestes a se mandar.
            Felizmente fui compensado: participei de duas obras-primas. 
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