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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Os brasileiros e Eça de Queiroz (Franklin Jorge)



O brasileiro era para o escritor e jornalista Eça de Queiroz [1845-1900] um português degenerado. Ou, dito doutra forma, o português só não era um brasileiro porque faltava a Portugal as condições climáticas necessárias ao desenvolvimento de um tão raro espécime humano...


Seu brasileiro, contudo, não seria o brasileiro de Minas Gerais, do Mato Grosso, de Pernambuco, de São Paulo, enfim, os que podiam ser vistos flanando pelas famosas ruas do Rio de Janeiro – das quais a Do Ouvidor, por suas características peculiares, corresponderia ao Chiado lisboeta , mas o brasileiro ricaço que com os seus requintes recém-adquiridos e as suas maneiras endomingadas ia mostrar-se em Portugal e que, tendo consideráveis cabedais tinha também “várias moléstias” das quais a falta de educação e a ostentação não seria a menos perniciosa. Em síntese, um brasileiro caricatural criado para o riso público.

Tudo isto diz Eça do brasileiro em As Farpas, essas catilinárias modernas, dirigidas não a um individuo em particular, mas a toda uma nação, o que para muitos e em especial para os brasileiros do Brasil pareceu excessivo e motivou uma desabrida reação generalizada, especialmente em Pernambuco que ameaçou torá-lo no cacete se tivesse a ousadia de pisar o nosso solo...

Repositório de verdades amargas, assim o iconoclasta de “A Relíquia” e de “O Crime do Padre Amaro” explica à posteridade a natureza dessas crônicas facetas, em grande parte escritas a quatro mãos com o seu amigo Ramalho Ortigão, mas agora expurgadas dessa colaboração pela arguta exegese dos organizadores da relativamente recente edição de “Os Brasileiros” [Editora Língua Geral, 2007], Eduardo Coelho e Zetho Cunha Gonçalves:

“... As Farpas não têm por costume acompanhar com o seu lápis estes contornos mais particularmente simpáticos da sociedade que vão pouco a pouco retratando nestas crônicas. Nós não somos os meigos lisonjeadores do mundo em que vivemos: o nosso processo não é positivamente o do pintor Latour debaixo dos cujos amáveis pastéis se idealizavam as feições de todas as mulheres da Regência que ele retratou. Nós não procuramos o ideal, procuramos apenas o verdadeiro. Não é tão difícil de achar, mas custo um pouco mais a expor. Ora, as verdades são como as cabeças de marcela: se não amargam, não prestam...”

Assim como a França podia gabar-se de ter como alvo de chacotas o inglês de “larga e aguda suíça em forma de costeleta aloirada, colarinho alto como um muro de quintal, pé largo como uma esplanada, e ar hirto”, o português tinha então o brasileiro, um tipo grosso, trigueiro com tons de chocolate, modo ricaço, arrastando um pouco os pés, burguês como uma couve e tosco como um pedaço de pau, ar desconfiado e um vício secreto.

Ora, nenhuma qualidade simpática e de fino relevo se supõe no brasileiro, como não se supõe aos negros corredios cabelos louros, arremata Eça, que alimenta e engorda a própria verve explorando uma fatalidade que pode acontecer a todo o mundo, desde que o clima o ajude a nascer e viver num país que não consente em deixar de roubar, “porque não quer prescindir do produto do roubo.” Afinal [acrescenta Eça, horrorizado, um tanto premonitoriamente]:

“... Seria um fato imprevisto na história – uma nação declarando, pelos seus representantes oficiais e pelos seus tratados – que não pode deixar de roubar para viver – que a sua fortuna pública conta, logo desde o começo do ano econômico, com o que lhe produzem os seus ladrões”...

Brasileiro é para Eça, sobretudo, o português que volta a Portugal depois de fazer fortuna no Brasil. E, o que é pior, alguém que se deixa devorar pela preguiça e ri do brasileiro, mas ainda assim procura viver às suas custas.  De certo modo, ao dizê-lo tão ferinamente, expressa Eça a opinião, se não geral, reconhecida entre livre-pensadores e intelectuais liberais.

Como escritor, pertencia Eça não exclusivamente à sua vontade e ao seu desejo, como o afirmou numa farpa endereçada ao ministro do império do Brasil na corte portuguesa. Pertence o escritor ao seu tempo e à sua sociedade. Ele, o escritor, “é menos uma força livremente produtiva do que um produto forçado – o produto do meio em que nasceu e em que vive”. Por isso pôde aludir ao direito da sátira como uma das “inatacáveis liberdades do pensamento humano”.

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