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quinta-feira, 28 de março de 2013

“Esconderijos” (Tânia Du Bois)




Esconder-se? Esconder o que os olhos não veem? O que o coração sente na saudade, como a lembrança em busca da incerteza da vida? Que vidas podemos esconder, se cada vez mais ela está à mostra para quem quiser ver, sentir, optar e até mesmo para amar ou sofrer?
            
Nilto Maciel em seu poema Esconderijos retrata a realidade triste que só fica escondida quando nos fechamos para ela: “No corredor o que fazia a infanta? / Por que não ia, não fugia logo / ou não gritava ou não chorava muito?... // Não sou parede ou árvore de Deus, / não tenho ouvidos e não vejo nada, / nem sei me conduzir por onde passo, / e nada posso desejar por elas, / as tais meninas nos esconderijos”.
            
Parece senso comum as pessoas se esconderem das situações desagradáveis. O que causa a sensação de que só podemos nos esconder quando não temos condições para resolver o que vemos e, assim, os esconderijos passam a fazer parte da vida. Também penso que é imprevisível o resultado, já que não se consegue mensurar com exatidão as impressões ou as emoções que de fato elas provocam, como ainda em Nilto Maciel: “... Não sei o que a menina lá fazia / naquela noite escura, aquela treva. / Eu tive medo dela, sim, confesso, / da solidão que a trouxe e abandonou, / do seu silêncio de quietude feito. // Então fugi pra muito longe dela, / aos gritos, louco, a lhe pedir socorro”.
            
Quantas vozes temos quando nos escondemos? Esse é o poder nem sempre possível de classificar, mas que aguça a sensibilidade sobre a situação, quando colocamos a máscara para não percebermos as pequenas tragédias diárias. Pedro Du Bois, em seu conto Escondidos e Não se Mostram, revela, “... Éramos e somos os escondidos, os que não se mostram e que não se enxergam e esse relato é apenas para que todos lembrem como é lá fora e fiquemos na proteção que há dentro de cada um de nós”.
            
Em cada janela fechada procuramos vultos e não mais o encontramos, porque temos a casa, a cidade e a vida como esconderijos, onde cada descoberta está encoberta pelo desejo do que cada um tem vontade de ver.
            
Os escondidos se colocam atrás de biombos porque ocultam o outro lado: aquele que traz o desvelo do dia a dia e a luz do mistério. Eles tem o dom da incerteza onde a escuridão dos esconderijos traz a tristeza, como mostra Nilto Maciel, “... Tantas pequenas pelos becos sujos, / pelos caminhos tortos, sem sossego / e sem brinquedo, que pareço mais / resto de gente a se perder na luz...”
            
Tantos são os escondidos e os esconderijos que a triste realidade e o medo inventam um mundo suposto, atendendo apenas cada desejo e ocultando a versão dos fatos e as cenas do cotidiano. Nas palavras de Pedro Amaral, “... É uma tristeza sem adornos, / sem enfeite de lágrima...// É tristeza (assim seja) / De alguém que viu //... E não deteve o espanto”.

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