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domingo, 7 de julho de 2013

Pela vidraça (Clauder Arcanjo)




Tive que ficar de ponta de pé. Como era alta aquela vidraça! Mas o cheiro me atraía. Comida boa, logo percebi. Mesa grande, larga e farta. Ao lado, a pilha de presentes. Ao fundo, a árvore de Natal; piscando, piscando. Piscando pra mim?!...

          Bandejas correndo a sala. Um tapete vermelho sob os pés de todos. Homens, mulheres e crianças. Pessoas bem vestidas. Achei engraçado que não ouvisse nenhuma voz; apenas os lábios em movimento, o vidro não deixava passar a conversa para fora da casa.

E como é que aquele cheiro me chegava? Não sei, só sei que me entrava pelo nariz, apertando-me o estômago, ao tempo em que me enchia a boca de saliva. Muita saliva.

De repente, surge Papai Noel. Grande, vermelho e de barba branca. Igualzinho ao da tevê. Dava para perceber as risadas nos rostos, e a meninada aos pulos de contentamento. Do saco, saltaram presentes: carrinho com controle remoto, boneca grande, videogame... Meu Deus!, aquilo tudo que vi passando nas propagandas da televisão do bar do seu Geraldo!

Arregalei os olhos, e aproximei-me ainda mais da janela, pois tive a impressão de que o homem dos presentes virou-se para mim e sorriu. Pela vidraça. Um sorriso a piscar?!... Não sei, nunca saberei.

O que senti a seguir foi uma voz forte, seguida de um tapa nas minhas costas:

— Vai piscando, garoto! Pisca, pisca!

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